A causa material do universo. (se non è vero, è ben trovato)

Philosophy,Science,Vedanta -- 21 / September / 2010

fisica-universo

Semanas atrás, um dos físicos mais conhecidos e respeitados hoje, o Stephen Hawking, voltou a considerar a idéia de um universo não criado por Deus. E com esta declaração, o físico entrou num dos pontos cruciais da tradição vedānta – já estudado há milênios.

Para o físico e cosmólogo, os universos não precisariam de intervenção divina para serem criados, e mais, surgiriam do nada (ou do Nada?). O que chamam de Teoria-M.

A notícia – por conta do lançamento de seu novo livro The Grand Design – deixou-me com uma curiosidade enorme para rever o que a obra Vedānta Sūtra expõe a respeito.

E lá fui eu conferir…

Os aforismos abaixo estão no tópico 7, da sessão 4, do capítulo 1, este tópico é chamado de prakṛtyadhikaraṇam, ou o substrato da matéria.

प्रकृतिश्च प्रतिज्ञदृष्टान्तानुपरोधात्

prakṛtiśca pratijñadṛṣṭāntānuparodhāt (1.4.23)

Da não contradição de exemplo e proposição, (o Absoluto é) também (a causa) material.

अभिध्योपदेशाच्च

abhidhyopadeśācca (1.4.24)

Da referência ao desejo.

साक्षाच्चोभयाम्नानात्

sākṣāccobhayāmnānāt (1.4.25)

É (causa) direta, por conta da menção de ambos (criação e dissolução).

आत्मकृतेः परिणामात्

ātmakṛteḥ pariṇāmāt (1.4.26)

Autocriado por causa da transformação.

योनिश्च हि गीयते

yoniśca hi gīyate (1.4.27)

E é chamado, certamente, a origem.

Detalhe: os sūtra são como “mensagens de telegrama”, temos de compor o sentido.

1)      No primeiro sūtra, o Absoluto (braḥman) é colocado como causa material. E o que se entende por causa material é: a condição de que uma coisa é feita. Assim, a condição aqui é a intervenção divina. E o aforismo nos alerta para uma suposta não-contradição, a partir de exemplos e proposições dos textos (śastra), da causa ser dita de outros modos também (ca). Nesta parte é exposta a causa material.

2)      Neste segundo aforismo, é dito por que o Absoluto criou o universo. Simples, os universos foram criados porque Deus assim o desejou. Na verdade, por causa do desejo. Já por que o Absoluto desejou, bem, aí temos um mistério.

3)      Agora, neste terceiro aforismo, diz-se que a causa é direta, ou seja, este desejo é quase que um toque, aliás, não um toque, mas um olhar. Isso porque os śruti, os textos revelados, mencionam o Absoluto como causa direta de ambos (ubhaya), criação e dissolução dos universos. Aqui estaríamos falando de um momento de grande importância (e dúvidas) para os cientistas: o momento antecedente ao tal do Big Bang – tipo “o que gerou esta explosão?”. Resposta vedantina: o olhar de Deus – o único que estaria de início fora da matéria e, portanto, possível de dar o início à sua criação.

Antes de entrar na explicação dos 4º e 5º sūtra, pois o 4º talvez seja o que melhor toque a tal da Teoria-M, é bom que se diga que o ponto principal tocado pelo físico nesta nova descoberta é a lei da gravidade. Diz o cientista que por ela existir “o universo pode e irá criar a ele mesmo do nada”. Mas vejamos: esta lei não é uma lei da matéria? Não é uma lei que gera força entre dois objetos? Não faz parte do universo, do espaço? Acho que é fácil concordar que sim. Então, é uma lei que só existe na matéria. E se é uma lei que só existe na matéria, ela não pode explicar o “pontapé inicial” – ou a primeira olhada – que determina a matéria, ou seja, que está antes da matéria. Porque se existe uma criação da matéria, existe algo (ou um momento) antes que não é matéria, e neste algo ou momento naturalmente não existe a lei da gravidade. Na linguagem do físico: não pode haver a lei neste “nada” de onde ele acredita que os universos podem ser criados. Assim, a lei não é (nem pode ser) prova de que os universos não são criados pelo Absoluto. E voltamos de novo a velha questão dos cientistas: o que fez com que o Big Bang acontecesse? Porque não precisa ser físico para saber que uma explosão não acontece do nada.

Ele também fala da possibilidade de múltiplos universos – os multiversos. Mas isso está exposto nos śruti, os primeiros textos revelados, com uma riqueza de detalhes enorme e corroborados, inclusive, por cálculos matemáticos – será que eles nunca foram consultar textos antigos que não fossem os gregos?

Voltemos aos 4º e 5º sūtra.

4)      Já expliquei sobre a palavra ātmā aqui. Neste 4º aforismo ela significa “auto”, o que forma autocriado, ou seja, o mundo cria-se por ele mesmo. Mas aqui, é bom lembrar, estamos falando da criação num segundo estágio, digamos; a olhada de início – que na física seria o que originou o tal do Big Bang – já foi dada. Este é o sūtra que nos traz a evidência do Absoluto não mais participar da criação logo depois de ter olhado para ela. Ou seja, o Absoluto primeiro olha para a matéria e depois esta matéria começa a se criar, ou autocriar, e isso vem da transformação que acontece na própria matéria, da não-forma para a forma. Mas sem esse olhar direto (sākṣāt) nada acontece. Também temos aqui – importante – uma segunda leitura, caso vemos a palavra ātmā não mais como o pronome “auto”, mas como o substantivo alma; aí teríamos o aforismo nos dizendo que a criação é dada pela alma, ainda a partir da transformação. Esta leitura é justa porque a alma seria, no contexto vedantino, um segundo desdobramento do Absoluto e o responsável, na verdade, de dar vida à matéria. Sem alma a matéria não vive, não se forma. Num contexto mais mitológico, a alma seria este olhar de Deus.

Assim, podemos dizer que quando o Stephen Hawking afirma que criação espontânea é a razão pela qual algo existe ao invés de não existir nada, em parte ele está certo, mas o fato de não saber – e os cientistas não sabem – em que fase acontece este tipo de criação e determinar esta fase como a fase inicial, não nos diz que ela seja realmente a inicial.

5)      Já este 5º aforismo é claro, e conclusão dos outros quatro antecedentes; colocado em pormenores, depois do mencionado, é certo (hi) que o Absoluto é a origem.

Não sei quanto a vocês, leitores, mas eu, certamente, prefiro acreditar nas palavras dessa obra antiga, analisada, meditada e corroborada através dos milênios por uma tradição de conhecimento, hoje em paridade com muitas descobertas da física quântica, do que ter a palavra do senhor Stephen Hawking como verdadeiras e definitivas.

3 respostas so far

3 respostas para “A causa material do universo. (se non è vero, è ben trovato)”

  1. Evandro says:

    Uau! qual é o livro que vc leu mesmo!? esse do Sutrâ e tal????

    obrigado.

  2. Danilo says:

    Por milhares de anos acreditava-se que os trovões eram provocados por Zeus, filho de Cronos, filho de Urano.

    essa teoria é tão valida quanto isso, enquanto a ciência não tem tecnologia suficiente pra executar níveis mais avançados de testes ou estudos colocamos Deus na equação pra explicar o inexplicável…

    na minha opinião Deus = preguiça.

    não siga o caminho traçado, pois ele só te leva até onde os outros já foram.

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