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Às Nereidas, tudo.

Publicado sob a(s) categoria(s) Apps,Philosophy em 09 de October de 2009

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Quando pensamos em intuição, pensamos logo no ‘feminino’, e assim, nessa faculdade quase dominada inteiramente pela mulher. Será? Vamos por parte. É natural pensarmos em feminino quando pensamos em intuição, porque a faculdade intuitiva é feminina, ela age por receptividade, aliás, como a contemplação, isso quer dizer que nós a recebemos, e nosso modo de agir é muito mais “pró-passivo” do que pró-ativo.

Pensei em intuição porque tive recentemente uma aula sobre o assunto na UFF; mas não só por isso, ao folhear a revista feminina Criativa, li um texto da Cynthia de Almeida no qual o mesmo assunto era abordado, e naturalmente, ligando-o à mulher, à sua jornada e conquistas. Não vejo nenhum problema nisso. Pelo contrário, o uso da intuição deve ser incentivado. E o vedānta não me (nos?) deixaria na mão…

Em sua teoria do conhecimento, o vedānta aceita a intuição como um meio válido de se conhecer alguma coisa, e portanto, um pouco diferente do colocado pela autora do texto, que vê a intuição como um ‘dispositivo’ para ser usado depois de “afiar a mente”. Mas é aí que temos a virada. Antes, devemos saber que intuição não é algo instintivo. Também já sabemos que nossa atitude perante ela é passiva, ou seja, de espera. O “algo me disse” ou “a voz que sopra” que todos nós sentimos (ouvimos?) alguma vez. Para esta filosofia a intuição é utilizada para “afiar a mente”, ela é um pramāṇa, uma escala para medir se aquilo que se conhece é verdadeiro, e por isso, por ter a capacidade de chegar à verdade, é ela mesma válida para descobrir esta verdade. Esse “algo me disse” que todos usamos para designar a intuição, em si já é intuitivo, porque pré-supomos que é algo ouvido. Tal como uma voz que sopra. Uma comparação (lembrei agora!): o que é que se fala quando uma pessoa se sente impelida a seguir um caminho religioso eclesiástico? Que ela ouviu um chamado, não é? Observe o nome que o vedānta dá para este pramāṇa:

  • śabda, ou ‘som‘. (da raiz śabd, “sonorizar”, “produzir som”)

E esta filosofia designa dois tipos de śabda (intuição): laukika, ‘mundana’ ou empírica; e alaukika, ‘não-mundana’ ou não-empírica. Este se refere aos textos védicos (śruti) e à idéia deles serem revelados; aquele é sobre o qual escrevo, um som mais do dia-a-dia.

Daí você pode acreditar que é “a resposta imediata de seus neurônios”, a voz de Deus, e por aí vai. Ou, talvez melhor, acreditar que seja um recurso de sua consciência, ou uma técnica disponível para você conhecer, o que não descarta a voz de Deus.

Não só devemos acreditar na intuição, devemos adotá-la como parte do processo de conhecimento. E estar atento é um pré-suposto para a intuição, um “subsídio necessário para intuir”. Quem está atento, intui, quem intui, vê mais longe, conhece mais e melhor.

Por isso, devemos desenvolver habilidade para usá-la, e até (por que, não?) “profissionalizar” esta importante faculdade.

*****

Quanto à mulher, bem, reconhecemos que são mais intuitivas que nós. Mas para nós homens (ou só para mim?)  a intuição é como a mulher. As mulheres são como as Nereidas. E as Nereidas (quase sempre) nos encantam.

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Fios de ouro.

Publicado sob a(s) categoria(s) Apps em 26 de August de 2009

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No primeiro post deste site cheguei a comentar por alto que existem seis tipos de sūtra, este gênero literário muito comum para as filosofias orientais, e muitas vezes traduzido por aforismo, embora sua tradução correta seja simplesmente “fio”. O propósito de sua brevidade é mnemônico, ou seja, ser retido na memória, uma prática constante para um estudante de tradições orientais. São mais famosos quando ligados à filosofia, mas, por exemplo, a gramática tradicional do sânscrito encontra-se neste gênero, e muitas outras obras de origem diferente. Sua história (sim, ele tem uma historinha) remonta os idos da chamada kali yuga (que chamarei, por enquanto, de “a última das quatro eras”, para não entrar em detalhes cosmológicos), esta era que tendo os humanos uma vida mais curta e uma memória ineficaz, precisariam de um gênero textual fácil de reter e levar para onde quisessem ir e debater. Mas um detalhe, e o que torna o sūtra ainda mais interessante: o gênero textual que conhecemos como prosa não existia na literatura sânscrita talvez até o século XIV (digo ‘talvez’ por já ter lido um texto em prosa desta época e ainda não ter conhecido nada neste gênero antes disso; se alguém aí souber de outra época, avise-me), isso quer dizer que praticamente tudo (deem-me a permissão da dúvida…) escrito nela é poesia. (Em outra hora, em outro post, falarei da importância do estudo da linguagem e, particularmente, da poesia nesta literatura.)

Então, vamos aos seis tipos de sūtra:

  • saṁjñā – uma ‘definição’.
  • paribhāṣā – uma ‘chave para interpretação’.
  • vidhi – uma ‘regra geral’. 
  • niyam – uma ‘regra restritiva’.
  • adhikāra – uma ‘regra primeira’ ou ‘governante’.
  • atideśa – uma ‘extensa aplicação por analogia’.

Lembrando que as palavras sânscritas acima correspondem a termos técnicos, por isso seus significados não são necessariamente literais. Isso é comum no sânscrito.

Como escreveu Shakespeare, em Hamletbrevity is the soul of wit.

Alguém aí já suspeita que tipos de sūtra temos no post anterior?

OBS: Este post dá início à categoria ‘Aplicativo’, para assuntos estruturais, de método.

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