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Gramática, Comunicação, Propaganda & Publicidade.

Publicado sob a(s) categoria(s) Education,Linguistics em 22 de March de 2012

Ainda venho com o Steve Jobs. Já terminei de ler a biografia, e recomendo.

 

Todos que conhecem a Apple, conhecem seu moto: “pense diferente”.

 

Leiam aqui como ele nasceu:

 

“Debateram a questão gramatical. Se “diferente” modificava o verbo “pense”, talvez fosse advérbio, como em “pense diferentemente”. Mas Jobs insistia em usar “diferente” como substantivo, a exemplo de “pense vitória” ou “pense beleza”. Além disso, refletia o uso coloquial, como na frase “pense grande”. Como ele explicaria mais tarde: “Discutimos se estava correto antes de levarmos ao ar. É uma construção gramatical, quando se pensa no que queremos dizer. Não é pense o mesmo, é pense diferente. Pense um pouco diferente, pense muito diferente, pense diferente, ‘Pense diferentemente’, para mim, não alcançaria o sentido”. (Steve Jobs, W. Isaacson; Companhia das Letras)

 

Agora vamos à filosofia da gramática:

 

(Neste caso, a reflexão serve tanto para o português quanto para o inglês.)

 

Primeiro vamos à análise do “diferente”. Esta palavra, na verdade, é uma forma nominal do verbo “diferir”, um particípio presente latino chegado à língua portuguesa (formando palavras em  ente, para a 2ª conjugação; temos ainda em ante, 1ª, e em inte, 3ª) sem seu valor participial, portanto, assumindo valores de adjetivo ou substantivo. Diferente é adjetivo, neste caso. Mas o Jobs insistia em usá-lo (different) como substantivo! Pois é, ele estava certo. O que ele usou, não à toa, é chamado de intercâmbio taxionômico, i.e., ele pegou uma palavra de uma classe e passou para outra classe, de adjetivo para substantivo.

 

E por que usar um advérbio (diferentemente, differently) não fazia sentido?

 

Pensemos, pois. Ora, o que um advérbio faz? Modifica o verbo. E por quê? Porque este verbo não tem força suficiente de “andar” sozinho, ou melhor, de se expressar sozinho. Se Jobs colocasse “pense diferentemente”, este advérbio modificaria o verbo “pense”, tão importante para a publicidade da marca Apple, e ao mesmo tempo, o “diferente” já expressaria um valor coadjuvante. Mas Jobs queria “pense” e “diferente” em papéis principais. Seu moto dependia disso, sua publicidade também.

 

Daí observamos o quanto o conhecimento gramatical (sem gramatiquices) pode ajudar à Comunicação de uma marca.

 

Pense nisso!

 

OBS: O intercâmbio taxionômico de adjetivo para substantivo seria entendido pelo uso genérico da nomenclatura latina: nomen. Para nomen substantivum, nomen adjectivum. Ambos, portanto, são nomen.

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Steve Jobs – uma lição de educação para o Brasil.

Publicado sob a(s) categoria(s) Education em 22 de February de 2012

 

Nunca fui chegado a ler biografias, mas ao pegar a biografia do Steve Jobs para ler, não consigo parar, já estou quase no fim em menos de uma semana. Não sou (ou talvez não era) um aficionado da Apple, daqueles que correm à loja para comprar o último gadget, tenho meus aparelhinhos, mas (ainda) nem lhes escrevo em um Mac.

 

A biografia do Jobs não é só a sua história, é a história dos EUA, e até mais, do mundo da computação, da metade do século XX para cá (Jobs nasceu em 1955), e esta história é que me fascinou, contada com o colorido pessoal (e não-convencional) do pai da maçã mordida. Acredito que ali estão algumas lições para o Brasil de hoje.

 

O que me chamou a atenção na biografia foi saber sobre a educação dos EUA na época (mostrada de forma bem pessoal), e completamente perplexo constatei: já na década de 50 os EUA tinham uma educação melhor da que temos hoje no Brasil. Não falo da tecnologia, mas do sistema educacional. Lemos na biografia que as escolas eram diferentes, com os currículos variados, e, assim, tinham escolas de todo tipo. Os grupos de estudos eram os grandes acolhedores de inteligência, muitos, inclusive, tinham patrocínio de empresas e apoio de universidades. O Jobs garoto, aficionado por eletrônica, entrava tranquilamente na biblioteca de Stanford, inclusive por uma porta que sabia que estava sempre aberta; a sua ousadia e inteligência levavam-no a entrar em contato com os maiores representantes da época desta cultura tecnológica da qual ele seria o seu maior expoente. Sua educação, em suas palavras, foi uma busca pelo “artístico e interessante”.

 

Essa busca no Brasil seria impossível, e isso não é força de expressão. Não interessa se você mora ou em Roraima ou no Rio Grande do Sul, você estudará o mesmo conteúdo, terá o mesmo currículo, e, independente de seus interesses, obrigatoriamente estudará o que o MEC (com seus burocratas) lhe impuser. E se os pais pensarem em educar seus filhos de modo diferente, talvez fora deste tipo de escola, poderão ser presos, eles poderão até perder a guarda de seus filhos. Este é o Brasil. Se assim fosse nos EUA, Steve Jobs e seus pais teriam alguns problemas – e nós também, por certo.

 

No Brasil não somos educados para crescer, somos educados para virarmos burocratas e funcionários públicos, somos um país de imaturos, onde um Steve Jobs – constatação ao ler sua biografia – jamais seria possível. Por aqui, somos educados em série, e a educação é idealizada por quem menos entende do assunto, responsabilizada por todos menos os pais (os maiores responsáveis pela educação de um filho). O Estado, aqui, diz para os pais: “olha, você não conhece seu filho mais do que eu, então, deixe-o comigo, que o transformarei no que eu quero, e não no que você acha que é melhor para ele”.

 

Não interessa para o MEC se você colocará seu filho numa escola pública ou privada, as escolas são as mesmas no Brasil, nada muda, e nada mesmo. E não adianta dizer que em sua escola foi diferente porque tinha “artes”, “teatro”, “eletrônica” ou coisa parecida, do currículo único, seja nas disciplinas oficiais ou nas “alternativas”, vem a mesma idéia, e quando alguma coisa muda, é porque um professor tem consciência (que aqui não é sinônimo de consciência política, outro problema no Brasil) para fazer um trabalho num molde diferente, que leve adiante uma educação madura – eu tive professores assim. Eu realmente gostaria de acreditar que isso está mudando, mas, sendo um realista, vejo: não está. Quando digo que o MEC é o grande responsável por reduzir a inteligência de milhões de crianças, não estou exagerando, e muito menos fazendo jogo retórico, pois é o que acontece: milhões de inteligências com o desestímulo de um sistema educacional que não prioriza o indivíduo, sua curiosidade, e ainda o coloca numa bolha de ilusões.

 

Educação não combina com padronização, não combina com coletivismo, e nem mesmo com políticas públicas (sempre coletivistas). Não precisa ser especialista para ver que as buscas de cada indivíduo são diferentes, até mesmo numa mesma área, e no Brasil não é comum, na educação, privilegiarmos as diferenças, algo tão característico ao nosso povo e à nossa cultura – aliás, exaltada aos quatro ventos.

 

O Steve Jobs  foi buscar sua formação, porque um gênio não nasce pronto, ele se faz.

 

PS: É bom que se diga: o S. Wozniak também era outro gênio, por quem fiquei bastante impressionado.

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Les français, português, saṁskṛtam.

Publicado sob a(s) categoria(s) Education,Linguistics em 11 de July de 2011

sanskrit-francais

Recentemente traduzi a carta do padre jesuíta francês Jean François Pons, considerada o primeiro documento formal que atesta a estrutura da língua sânscrita pelos europeus. É a carta direcionada ao padre jesuíta du Halde, de 1740. Antes achávamos que um primeiro documento formal dos estudos sânscritos pelos europeus teria sido o famoso discurso de William Jones, em 1788, depois de ter escrito, em 1786, seu The Sanskrit Language. No entanto, recentemente foi descoberta uma gramática de sânscrito escrita em latim, chamada Grammaticca Linguae Sanscretanae Brachmanum Indiae Orientalis, de 1660, de autoria do também padre jesuíta Heinrich Roth (encontrada por Arnulf Camps, e hoje preservada na Biblioteca Nazionale Centrale, Roma). Ou seja, logo após a descoberta da carta de Pons, descobriram a gramática de Roth. Mas a carta de Pons menciona ini, e a gramática de Roth, não.

Esta tradução estou editando para ser publicada em alguma revista especializada. Mas este trabalho me fez refletir sobre algo importante, e que – parece-me – faz com que os franceses tenham uma ‘consciência linguística’ melhor do que a nossa. Veja lá, a carta é de 1740. E sabe qual a dificuldade que eu, um brasileiro que lê francês, tive para lê-la?

Modéstia à parte, nenhuma. Nem para traduzi-la.

Bem, se eu consigo lê-la, imagina um garoto de um lycée francês…

E veja, peguei até um romance em francês mais atual, Le travail de l’huître, do escritor canadense Jean Barbe, e comparei-o com a carta de 1740, olhei todas as formas verbais de uma e de outro, as preposições, a sintaxe etc. Tudo igual. Quer dizer, temos a mesma sintaxe, tanto na carta de 1740, quanto no roman de 2008. O ponto ao qual quero chegar é o de tentar entender por que aqui no Brasil temos essa “gana” da inovação. E pior, por inovação entende-se, às vezes, reduzir a linguagem ao seu pior. Sim, porque linguagem pode não lidar com certo e errado, mas lida com melhor e pior. A linguagem é uma teknè, uma arte, um conhecimento que pode ser aprendido e ensinado.

E por que na França não vejo inovação da linguagem? Ou reduzirem-na ao seu pior?

Talvez porque os franceses tenham esta consciência de que a língua, sendo uma técnica, e esta técnica chegada ao seu patamar mais alto, deve ser preservada. Não como em um museu, preservada em formol, mas usada no dia a dia em sua forma mais excelsa.

Talvez por falta dessa consciência é que muitos aqui “empacam” ou chiam quando hoje se debruçam num texto machadiano, com toda aquela beleza sintática. Ou pior, quando exaltam como “língua da elite” o uso de uma língua mais cuidada, melhor construída, utilizando todos os recursos técnicos que sua tradição linguística pode nos dar.

Se não nos conscientizarmos, em bem pouco tempo, Machado não será conhecido pelos seus textos, nem Manuel pela sua poesia, e olha que nem falo de uma língua de 1740.

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Estorvo da educação é responsabilidade do MEC.

Publicado sob a(s) categoria(s) Education,Notices em 16 de May de 2011

ponto-de-interrogacao

Leio hoje o jornal O Globo, e em sua capa:

“MEC não vai recolher livro que aceita erro de português”

Numa boa, não tenho mais paciência para comentar essas coisas, é perda de tempo.

Meu negócio é conhecimento, não picuinha.

Ainda mais quando sei que os maiores problemas da educação no Brasil são causados pelo MEC.

Minha opinião é a mesma que a do gramático Evanildo Bechara, nesta entrevista.

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Ars Grammaticae – o ensino da gramática no Brasil.

Publicado sob a(s) categoria(s) Education,Linguistics em 14 de March de 2011

lingua-portuguesa

Tudo no Brasil, no que diz respeito ao estudo da linguagem, de nossa língua, é feito de forma que as pessoas odeiem a gramática, ou pior, não sejam minimamente curiosas ao ponto de consultá-la. Isso vem de uma falha do ensino de língua portuguesa por aqui. E certamente do Ministério da Educação também, por insistir em determinar apenas uma forma de ensino do português.

(Foi o que o Pedro Sette tratou em seu post, e cuja solução estou de acordo.)

Mas quero apontar mais claramente esta falha. Saber de onde vem.

Quando uma pessoa me diz que já ouviu falar de uma “oração reduzida de infinitivo” e não sabe me descrever o fenômeno, é sinal que há um problema aí. Afinal, para que seu conhecimento da língua fosse maior, bastaria ela me dizer para que serve o fenômeno e saber quando imitá-lo (sim, isso mesmo, imitar) em seu uso, sem precisar, inclusive, da menção da nomenclatura. Ou seja, conhecem a nomenclatura sem a identificação de seu fenômeno correspondente. Isso é basicamente o que acontece com o ensino da língua no sistema determinado pelo Ministério: ele ensina nomenclaturas gramaticais. E isso tanto no setor público, quanto no privado. É lógico que há aí a consciência do professor numa sala de aula, de tentar reverter esse quadro o máximo que pode. Mas é tarefa hercúlea, o sistema contaminado exige que o professor ensine de maneira que seus alunos “se dêem bem” nas provas. (e educação no Brasil ainda é uma mera questão de “se dar bem”).

Já temos aí um dado importante: o sistema educacional brasileiro parte do princípio que o estudo da gramática (no molde imposto) faz com que o aluno escreva e fale melhor.

Pergunto: A gramática pode fazer você falar e escrever melhor? E de onde vem esta noção?

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Magister dixit. (minha pesquisa para o mestrado)

Publicado sob a(s) categoria(s) Education,Linguistics,Sanskrit em 09 de December de 2010

panini-selo

1. Delimitação do tema.

Os historiadores situam a descoberta da língua sânscrita como um dos grandes fatores para o desenvolvimento do estudo da linguagem. A partir desta descoberta temos os estudos filológicos comparativos do indo-europeu, e daí uma ciência geral da linguagem, que se chamaria por fim de linguística; embora alguns tratados antigos de língua já tenham sido estruturados linguisticamente, fazendo com que certas teorias modernas sejam apenas um ‘retorno’ ao conhecimento dos gramáticos antigos. Alguns desses historiadores, como R.H. Robins, consideram o ano de 1786 um marco inicial da ciência linguística contemporânea, onde possivelmente teria se dado a primeira das quatro ‘rupturas’ significativas ocorridas no desenvolvimento do que hoje entendemos por estudos linguísticos. Aconteceu neste ano a famosa declaração no Royal Asiatic Society por William Jones que “o sânscrito, sem levar em conta sua antiguidade, possui uma estrutura maravilhosa: é mais perfeito que o grego, mais rico que o latim e mais extraordinariamente refinado que ambos” (ROBINS, 2004: 106). Aqui no Brasil, o nosso famoso linguista J. Mattoso Camara Jr., dedicou um capítulo de sua História da Lingüística ao sânscrito, dizendo que “os métodos e as concepções da gramática do sânscrito, que se encontravam em Pāṇini e seus seguidores, estimularam o espírito europeu no sentido de uma nova visão da linguagem” (CAMARA JR., 1975: 44).

Esta nova visão não se restringiu somente à linguística histórico-comparativa. O estudo do sânscrito deu origem a muitas análises de linguística sincrônica, já que as gramáticas originais desta língua abordaram praticamente todos os campos deste ramo. Os estudos linguísticos do sânscrito eram divididos em vyākaraṇa (análise linguística), śikṣā (fonética) e nirukta (etimologia), as três faziam parte de uma educação tradicional voltada para a linguagem chamada vedāṅga [1] (conhecimento auxiliar). Estes estudos, de acordo com Robins, podem ser considerados sob três aspectos: teoria linguística geral e semântica; fonética e fonologia; gramática descritiva (ROBINS, 2004: 109). Das obras linguísticas da época, a gramática Aṣṭādhyāyī (Oito Capítulos) de Pāṇini, este conhecido gramático do século IV a.C., foi o primeiro tratado científico de uma língua, e chegou a ser considerada por Bloomfield como “um dos maiores monumentos da inteligência humana” (BLOOMFIELD, 1984: 11). As regras são todas organizadas em pequenas sentenças, sūtra ou “fio”, que surpreendem por tamanha economia com que conseguem formular suas afirmações linguísticas. Da obra de Pāṇini e da vyākaraṇa saíram conceitos como o termo fonológico sandhi (usado por Mattoso Camara Jr. para explicar certos casos do português), o desenvolvimento de processos de formação de palavras, o estudo morfofonêmico[2], e a representação zero de um elemento ou categoria – familiar aos linguistas modernos. O processo descritivo de sua gramática, mais de dois mil anos depois, influenciou as análises que Saussure fez de certas palavras gregas, alguns importantes trabalhos do Bloomfield[3], e também sabe-se que a gramática gerativo-transformacional criada por Chomsky teve sua influência paniniana, porque em seu “trabalho de descrição, as regras são de tal modo ordenadas, que as últimas levam sempre em conta os resultados das primeiras. Isto permite obter maior economia no processo descritivo, o que era um dos objetivos primordiais da obra de Pāṇini” (ROBINS, 2004: 188).[4]

Por aqui, no ambiente de língua portuguesa, as influências não foram poucas e podemos destacar a contribuição dada por Julio Ribeiro (1911) de “inaugurar entre nós o uso do método histórico-comparativo na descrição do vernáculo”. (CAVALIERE, 2000; 52) Este gramático alinha-se aos trabalhos e métodos criados por William Dwight Whitney, de quem, por exemplo, tira a definição que abre sua Grammatica portugueza, “Grammatica é a exposição methodica dos fatos da linguagem”, e propõe, com base nas obras do Whitney, mudanças estruturais: “Em sintonia com essa definição e na esteira da proposta descritiva de Becker e Whitney, Ribeiro subdivide a sintaxe em léxica e lógica, aquela atinente ao estudo das palavras inter-relacionadas na oração, esta ocupada do estudo da estrutura das orações” (CAVALIERE, 2000; 54) Por sua vez, o filólogo e linguista Whitney, reconhecidamente, foi buscar em Pāṇini as bases para fundamentar o seu trabalho, chegou a escrever uma gramática de sânscrito (Sanskrit Grammar) e ainda uma lista das raízes verbais do sânscrito com suas conjugações inspirada claramente na obra Dhātupāṭhaḥ (Reunião das raízes verbais), de Pāṇini; obra de grande envergadura e até hoje muito estudada e difundida. E “o elenco de obras filológicas produzidas a partir do trabalho inaugural de Julio Ribeiro cria os fundamentos da moderna gramática brasileira, nos moldes em que, mutatis mutandis, até hoje se organizam” (CAVALIERE, 2000: 55). Logo depois surgem a Grammatica descriptiva, de Maximino Maciel, “cujo exitoso curso na práxis pedagógica conferiu-lhe onze edições conhecidas, a última em 1931” e uma obra como a Grammatica expositiva, de Eduardo Carlos Pereira, “exemplo típico de um trabalho pautado no método histórico-comparativo com algum legado da escola metafísica de Port Royal” (CAVALIERE, 2000: 57). O primeiro chegou a traçar comentários à obra de Franz Bopp, um dos responsáveis pelo surgimento da gramática comparada e da ciência lingüística, e eminente professor de sânscrito. Esta influência na língua portuguesa não pára por aí, tem o renomado Said Ali, que por sua vez foi colher nas teorias de um Berthold Delbrück, indo-europeísta cujo trabalho Vedic syntax chegou a arrancar elogios de Whitney, os elementos para sua obra; bem como as influências das obras de Max Müller, reconhecido estudioso do sânscrito, nesses gramáticos e linguistas do português. Portanto, temos as influências da obra de Pāṇini, direta ou indiretamente, não somente restritas às citações dos compêndios historiográficos, mas implícitas quase em toda trajetória dos estudos gramaticais e linguísticos do português.

Embora mais relacionada aos estudos histórico-comparativos e filológicos, a obra de Pāṇini já mostrou ter um universo de possibilidades nos estudos sincrônicos. E todos já atestados por grandes nomes da tradição linguística.

Sem deixar de lado a abordagem diacrônica, este projeto de mestrado tem a intenção de estudar “os métodos e as concepções” da gramática paniniana em particular, sua relação com as últimas teorias da Linguística, bem como mostrar as influências que a obra de Pāṇini gerou, direta e indiretamente, nos estudos gramaticais e linguísticos da língua portuguesa. Um projeto de estudos gramaticais, com a singularidade de se referir a uma das primeiras obras científicas da área, estudada sincrônica e diacronicamente, de forma que se possa demonstrar sua ligação com a língua portuguesa.[5] Quando possível, mostrar-se-á esquematicamente como seria e o que compreenderia a descrição da gramática portuguesa nos moldes paninianos, assim como a tradução, direta do sânscrito, das principais sentenças (sūtra) usadas na pesquisa.

2. Justificativa.

Ao longo de mais de dois séculos, desde que foi conhecida pelos europeus, a obra de Pāṇini vem influenciando direta e indiretamente os estudos da Linguística. Por aqui, no Brasil, fomos buscar na obra de J. Mattoso Camara Junior a dica para pesquisar esta relação dos estudos de língua portuguesa com a obra paniniana. Estudar uma obra desta envergadura, unindo-a à lingüística mais moderna e aos estudos de língua portuguesa, é procurarmos a base do que chamam hoje de ciência da linguagem. No caso de desenvolver uma pesquisa como esta na UFF, a maior justificativa seria o fato de empreendermos, pela primeira vez aqui no Rio de Janeiro, um estudo linguístico com esta especificidade e importância, não só para os estudos históricos da linguagem, mas também para as futuras pesquisas e análises teóricas dos estudos gramaticais, visto que a obra a ser pesquisada é ainda base para uma das últimas teorias linguísticas, no caso a gramática gerativa, e de grande importância para os estudos históricos e descritivos da linguagem.

3. Objetivo.

Numa época onde os estudos descritivos se focam mais nas descobertas recentes da linguística, distanciando-se aos poucos de suas bases, nossa pesquisa vem suprir a necessidade de colocar em vista estas bases e sua relação com todo o tipo de estudo descritivo e histórico da linguagem. Nossos objetivos específicos são: primeiro, a análise da obra paniniana (métodos e concepções); segundo, mostrar sua influência nos estudos gramaticais e linguísticos do português; terceiro, sua relação com as últimas teorias linguísticas.[6] Destes três objetivos principais, surgem dois outros, mais secundários, de mostrar como seria a descrição da gramática de língua portuguesa nos moldes paninianos, e a tradução do sânscrito das principais sentenças da obra estudada.


[1] Educação comparada ao trivium do Ocidente Medieval.

[2] “As descrições de Pāṇini compreendem a separação e a identificação de raízes e afixos, o que direta-mente inspirou o conceito de morfema da análise gramatical hodierna.” (Robins, p.117)

[3] Seu ensaio On Some Rules of Panini (1927). “Considera-se que o trabalho de Bloomfield Menomini morphophonemics foi buscar na obra de Pāṇini sua metodologia e inspiração.” (Robins, p.117)

[4] “De fato, minha tese de graduação foi uma gramática no estilo de Pāṇini, feita 2.500 anos antes (…)” (Noam Chomsky, entrevista, Mana vol.3 n.2 Rio de Janeiro Out. 1997).

[5] A pesquisa insere-se dentro das áreas de estudos descritivos da língua portuguesa e de historiografia da linguística, esta tanto geral quanto portuguesa.

[6] Nos objetivos específicos está implícito uma metodologia proposta pelo próprio Mattoso Camara, antes pesquisamos os métodos e concepções da obra de Pāṇini, depois sua influência nos estudos portugueses e por fim a relação com as teorias linguísticas, principalmente Sausurre, Bloomfield e Chomsky.

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Língua culta, politicamente incorreta.

Publicado sob a(s) categoria(s) Education,Linguistics em 18 de March de 2010

surdo-palavras

Leio o Segundo Caderno d’O GLOBO de hoje e me deparo com a matéria sobre uma Exposição em SP que “retrata a língua corrente e sua relação com a gramática”. Mais uma vez colocaram a língua culta em xeque. O curador da exposição, Eduardo Bucci, doutor em Lingüística pela USP, é mais um daqueles que afirmam a inexistência de uma forma correta e outra incorreta da língua, que essa coisa de “língua correta” não passa de um estigma criado por gramáticos, e “tudo é uma questão de saber em que situação usar uma e outra forma”. Santa ignorância!

Os que acompanham este site, sabem que condeno a forma como a gramática hoje vem sendo ensinada. A prioridade da nomenclatura em detrimento do entendimento. Os alunos saem das escolas sabendo listar uma gama desses nomes gramaticais, mas quase sempre sem saber usá-los corretamente. O ensino da chamada gramática geral já foi há tempos perdida, e muita coisa das raízes latina e grega já não é mais identificável por nossos estudantes.

O empobrecimento da língua está em curso, e esses doutores são os precursores de uma onda que vem invadindo a praia faz tempo. Todo esse movimento “coitadinho” para um consenso da língua inculta e errada, não é nada mais que uma forma do politicamente correto na abordagem da língua. É assim: um sujeito fala probrema e menas e todo mundo bate palma, os doutores vêm logo defender a “causa justa de um mal falar”  porque em suas visões é como se esses senhoritos estivessem negando anos de colonialismo gramatical. Quanta autenticidade!

Sem entrar em questões teóricas, por que os doutores não ensinam a forma correta para esses “coitadinhos”? Por que quando escrevem seus livros teóricos abordando o quanto a língua deve ser “livre” e sem ordem, que o povo deve falar como quer, eles não escrevem como o povo fala ou escreve?

É mais fácil ser policamente correto em relação à língua. Para quê consultar a gramática? Continue acreditando que o dicionário é o pai dos burros. Se um dia todos falarem errado, não existirá mais erro. Mas ficaremos mal fadados à linguagem do cotidiano, e só. Sem falar na incompreensão alheia e no aumento de castas lingüísticas. Assim como a perda de um significado mais profundo das palavras e tudo o que se escreve com elas.

Vejam bem, não é o fato de negar o quanto a língua é viva, mas sim de resguardar suas formas mais nobres e significativas. E torná-la compreensível por todos em sua estatura mais alta.

Portanto, leitores, também em matéria de língua e lingüística, estou cada vez mais politicamente incorreto.

Update – com atraso.

PS: O Pedro Sette-Câmara escreveu um belo post sobre assunto parecido aqui.

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Educação, liberdade & sânscrito.

Publicado sob a(s) categoria(s) Education,Sanskrit em 23 de February de 2010

lapis-de-cor

Ao ler o texto do Pedro Sette, que se refere, por sua vez, a outros dois artigos, ambos muito bons também; um dos temas abordados: liberdade, me fez lembrar mais uma vez da educação. E não foi a abordagem dos três textos, mais política, que gritou uníssona em meus ouvidos, não, foi o simples fato de comprovar again o quanto a tão vilipendiada liberdade é importante para o amadurecimento individual e social.

Parece-me que aqui no Brasil, quando os políticos (i.e. governo) falam de educação, o conhecimento e a liberdade não estão inclusos. Após ler a reportagem sobre a escola de Londres que adotou o sânscrito compulsoriamente em seu currículo, imaginei se por aqui seria possível tal empreendimento. Não seria. Talvez não pela má vontade, mas pelo excesso de burocracia para empreender algo semelhante quando fora do ciclo básico de disciplinas. O detalhe maior deste exemplo de Londres é não se tratar de uma escola hindu ou com características orientais. É uma escola inglesa típica e  tradicional. Que adotou o sânscrito por uma comprovação do quanto esta língua ajuda na apreensão de outros conhecimentos, e outro detalhe, que não os védicos.

Não tenho nada contra o Estado proporcionar educação e escolher o currículo que quiser para suas escolas. Mas que ele faça isso para todas as escolas fora do âmbito público já é um absurdo, uma forma de simplificar (tornar simplista) um processo tão rico e tão importante. Paremos para pensar: aqui no Brasil só há um tipo de escola, sem a menor possibilidade de haver outro, porque um tal de Parâmetros do Currículo Nacional não só diz o que você tem de aprender, mas como tem de aprender. E se todos aprendem as mesmas disciplinas de um único modo, não há como aquela disciplina se desenvolver, não há como o indivíduo ter a real experiência daquilo que supostamente aprende, porque educação é bem parecido a um processo alquímico: você tem de se transformar naquilo que conhece, nem que seja em poucos minutos, só para ter a experiência cognitiva do assunto.

E convenhamos, na escola brasileira de hoje isso é impossível, salvo raríssimas exceções.

*****

É por essas e outras que se eu fosse propor alguma campanha na Educação, proporia uma assim:

Educação livre, educadores livres!

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