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Língua culta, politicamente incorreta.

Publicado sob a(s) categoria(s) Educação, Língua em 18 de março de 2010

surdo-palavras

Leio o Segundo Caderno d’O GLOBO de hoje e me deparo com a matéria sobre uma Exposição em SP que “retrata a língua corrente e sua relação com a gramática”. Mais uma vez colocaram a língua culta em xeque. O curador da exposição, Eduardo Bucci, doutor em Lingüística pela USP, é mais um daqueles que afirmam a inexistência de uma forma correta e outra incorreta da língua, que essa coisa de “língua correta” não passa de um estigma criado por gramáticos, e “tudo é uma questão de saber em que situação usar uma e outra forma”. Santa ignorância!

Os que acompanham este site, sabem que condeno a forma como a gramática hoje vem sendo ensinada. A prioridade da nomenclatura em detrimento do entendimento. Os alunos saem das escolas sabendo listar uma gama desses nomes gramaticais, mas quase sempre sem saber usá-los corretamente. O ensino da chamada gramática geral já foi há tempos perdida, e muita coisa das raízes latina e grega já não é mais identificável por nossos estudantes.

O empobrecimento da língua está em curso, e esses doutores são os precursores de uma onda que vem invadindo a praia faz tempo. Todo esse movimento “coitadinho” para um consenso da língua inculta e errada, não é nada mais que uma forma do politicamente correto na abordagem da língua. É assim: um sujeito fala probrema e menas e todo mundo bate palma, os doutores vêm logo defender a “causa justa de um mal falar”  porque em suas visões é como se esses senhoritos estivessem negando anos de colonialismo gramatical. Quanta autenticidade!

Sem entrar em questões teóricas, por que os doutores não ensinam a forma correta para esses “coitadinhos”? Por que quando escrevem seus livros teóricos abordando o quanto a língua deve ser “livre” e sem ordem, que o povo deve falar como quer, eles não escrevem como o povo fala ou escreve?

É mais fácil ser policamente correto em relação à língua. Para quê consultar a gramática? Continue acreditando que o dicionário é o pai dos burros. Se um dia todos falarem errado, não existirá mais erro. Mas ficaremos mal fadados à linguagem do cotidiano, e só. Sem falar na incompreensão alheia e no aumento de castas lingüísticas. Assim como a perda de um significado mais profundo das palavras e tudo o que se escreve com elas.

Vejam bem, não é o fato de negar o quanto a língua é viva, mas sim de resguardar suas formas mais nobres e significativas. E torná-la compreensível por todos em sua estatura mais alta.

Portanto, leitores, também em matéria de língua e lingüística, estou cada vez mais politicamente incorreto.

Update - com atraso.

PS: O Pedro Sette-Câmara escreveu um belo post sobre assunto parecido aqui.

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Educação, liberdade & sânscrito.

Publicado sob a(s) categoria(s) Educação, Sânscrito em 23 de fevereiro de 2010

lapis-de-cor

Ao ler o texto do Pedro Sette, que se refere, por sua vez, a outros dois artigos, ambos muito bons também; um dos temas abordados: liberdade, me fez lembrar mais uma vez da educação. E não foi a abordagem dos três textos, mais política, que gritou uníssona em meus ouvidos, não, foi o simples fato de comprovar again o quanto a tão vilipendiada liberdade é importante para o amadurecimento individual e social.

Parece-me que aqui no Brasil, quando os políticos (i.e. governo) falam de educação, o conhecimento e a liberdade não estão inclusos. Após ler a reportagem sobre a escola de Londres que adotou o sânscrito compulsoriamente em seu currículo, imaginei se por aqui seria possível tal empreendimento. Não seria. Talvez não pela má vontade, mas pelo excesso de burocracia para empreender algo semelhante quando fora do ciclo básico de disciplinas. O detalhe maior deste exemplo de Londres é não se tratar de uma escola hindu ou com características orientais. É uma escola inglesa típica e  tradicional. Que adotou o sânscrito por uma comprovação do quanto esta língua ajuda na apreensão de outros conhecimentos, e outro detalhe, que não os védicos.

Não tenho nada contra o Estado proporcionar educação e escolher o currículo que quiser para suas escolas. Mas que ele faça isso para todas as escolas fora do âmbito público já é um absurdo, uma forma de simplificar (tornar simplista) um processo tão rico e tão importante. Paremos para pensar: aqui no Brasil só há um tipo de escola, sem a menor possibilidade de haver outro, porque um tal de Parâmetros do Currículo Nacional não só diz o que você tem de aprender, mas como tem de aprender. E se todos aprendem as mesmas disciplinas de um único modo, não há como aquela disciplina se desenvolver, não há como o indivíduo ter a real experiência daquilo que supostamente aprende, porque educação é bem parecido a um processo alquímico: você tem de se transformar naquilo que conhece, nem que seja em poucos minutos, só para ter a experiência cognitiva do assunto.

E convenhamos, na escola brasileira de hoje isso é impossível, salvo raríssimas exceções.

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É por essas e outras que se eu fosse propor alguma campanha na Educação, proporia uma assim:

Educação livre, educadores livres!

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