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Magister dixit. (minha pesquisa para o mestrado)

Publicado sob a(s) categoria(s) Education,Linguistics,Sanskrit em 09 de December de 2010

panini-selo

1. Delimitação do tema.

Os historiadores situam a descoberta da língua sânscrita como um dos grandes fatores para o desenvolvimento do estudo da linguagem. A partir desta descoberta temos os estudos filológicos comparativos do indo-europeu, e daí uma ciência geral da linguagem, que se chamaria por fim de linguística; embora alguns tratados antigos de língua já tenham sido estruturados linguisticamente, fazendo com que certas teorias modernas sejam apenas um ‘retorno’ ao conhecimento dos gramáticos antigos. Alguns desses historiadores, como R.H. Robins, consideram o ano de 1786 um marco inicial da ciência linguística contemporânea, onde possivelmente teria se dado a primeira das quatro ‘rupturas’ significativas ocorridas no desenvolvimento do que hoje entendemos por estudos linguísticos. Aconteceu neste ano a famosa declaração no Royal Asiatic Society por William Jones que “o sânscrito, sem levar em conta sua antiguidade, possui uma estrutura maravilhosa: é mais perfeito que o grego, mais rico que o latim e mais extraordinariamente refinado que ambos” (ROBINS, 2004: 106). Aqui no Brasil, o nosso famoso linguista J. Mattoso Camara Jr., dedicou um capítulo de sua História da Lingüística ao sânscrito, dizendo que “os métodos e as concepções da gramática do sânscrito, que se encontravam em Pāṇini e seus seguidores, estimularam o espírito europeu no sentido de uma nova visão da linguagem” (CAMARA JR., 1975: 44).

Esta nova visão não se restringiu somente à linguística histórico-comparativa. O estudo do sânscrito deu origem a muitas análises de linguística sincrônica, já que as gramáticas originais desta língua abordaram praticamente todos os campos deste ramo. Os estudos linguísticos do sânscrito eram divididos em vyākaraṇa (análise linguística), śikṣā (fonética) e nirukta (etimologia), as três faziam parte de uma educação tradicional voltada para a linguagem chamada vedāṅga [1] (conhecimento auxiliar). Estes estudos, de acordo com Robins, podem ser considerados sob três aspectos: teoria linguística geral e semântica; fonética e fonologia; gramática descritiva (ROBINS, 2004: 109). Das obras linguísticas da época, a gramática Aṣṭādhyāyī (Oito Capítulos) de Pāṇini, este conhecido gramático do século IV a.C., foi o primeiro tratado científico de uma língua, e chegou a ser considerada por Bloomfield como “um dos maiores monumentos da inteligência humana” (BLOOMFIELD, 1984: 11). As regras são todas organizadas em pequenas sentenças, sūtra ou “fio”, que surpreendem por tamanha economia com que conseguem formular suas afirmações linguísticas. Da obra de Pāṇini e da vyākaraṇa saíram conceitos como o termo fonológico sandhi (usado por Mattoso Camara Jr. para explicar certos casos do português), o desenvolvimento de processos de formação de palavras, o estudo morfofonêmico[2], e a representação zero de um elemento ou categoria – familiar aos linguistas modernos. O processo descritivo de sua gramática, mais de dois mil anos depois, influenciou as análises que Saussure fez de certas palavras gregas, alguns importantes trabalhos do Bloomfield[3], e também sabe-se que a gramática gerativo-transformacional criada por Chomsky teve sua influência paniniana, porque em seu “trabalho de descrição, as regras são de tal modo ordenadas, que as últimas levam sempre em conta os resultados das primeiras. Isto permite obter maior economia no processo descritivo, o que era um dos objetivos primordiais da obra de Pāṇini” (ROBINS, 2004: 188).[4]

Por aqui, no ambiente de língua portuguesa, as influências não foram poucas e podemos destacar a contribuição dada por Julio Ribeiro (1911) de “inaugurar entre nós o uso do método histórico-comparativo na descrição do vernáculo”. (CAVALIERE, 2000; 52) Este gramático alinha-se aos trabalhos e métodos criados por William Dwight Whitney, de quem, por exemplo, tira a definição que abre sua Grammatica portugueza, “Grammatica é a exposição methodica dos fatos da linguagem”, e propõe, com base nas obras do Whitney, mudanças estruturais: “Em sintonia com essa definição e na esteira da proposta descritiva de Becker e Whitney, Ribeiro subdivide a sintaxe em léxica e lógica, aquela atinente ao estudo das palavras inter-relacionadas na oração, esta ocupada do estudo da estrutura das orações” (CAVALIERE, 2000; 54) Por sua vez, o filólogo e linguista Whitney, reconhecidamente, foi buscar em Pāṇini as bases para fundamentar o seu trabalho, chegou a escrever uma gramática de sânscrito (Sanskrit Grammar) e ainda uma lista das raízes verbais do sânscrito com suas conjugações inspirada claramente na obra Dhātupāṭhaḥ (Reunião das raízes verbais), de Pāṇini; obra de grande envergadura e até hoje muito estudada e difundida. E “o elenco de obras filológicas produzidas a partir do trabalho inaugural de Julio Ribeiro cria os fundamentos da moderna gramática brasileira, nos moldes em que, mutatis mutandis, até hoje se organizam” (CAVALIERE, 2000: 55). Logo depois surgem a Grammatica descriptiva, de Maximino Maciel, “cujo exitoso curso na práxis pedagógica conferiu-lhe onze edições conhecidas, a última em 1931” e uma obra como a Grammatica expositiva, de Eduardo Carlos Pereira, “exemplo típico de um trabalho pautado no método histórico-comparativo com algum legado da escola metafísica de Port Royal” (CAVALIERE, 2000: 57). O primeiro chegou a traçar comentários à obra de Franz Bopp, um dos responsáveis pelo surgimento da gramática comparada e da ciência lingüística, e eminente professor de sânscrito. Esta influência na língua portuguesa não pára por aí, tem o renomado Said Ali, que por sua vez foi colher nas teorias de um Berthold Delbrück, indo-europeísta cujo trabalho Vedic syntax chegou a arrancar elogios de Whitney, os elementos para sua obra; bem como as influências das obras de Max Müller, reconhecido estudioso do sânscrito, nesses gramáticos e linguistas do português. Portanto, temos as influências da obra de Pāṇini, direta ou indiretamente, não somente restritas às citações dos compêndios historiográficos, mas implícitas quase em toda trajetória dos estudos gramaticais e linguísticos do português.

Embora mais relacionada aos estudos histórico-comparativos e filológicos, a obra de Pāṇini já mostrou ter um universo de possibilidades nos estudos sincrônicos. E todos já atestados por grandes nomes da tradição linguística.

Sem deixar de lado a abordagem diacrônica, este projeto de mestrado tem a intenção de estudar “os métodos e as concepções” da gramática paniniana em particular, sua relação com as últimas teorias da Linguística, bem como mostrar as influências que a obra de Pāṇini gerou, direta e indiretamente, nos estudos gramaticais e linguísticos da língua portuguesa. Um projeto de estudos gramaticais, com a singularidade de se referir a uma das primeiras obras científicas da área, estudada sincrônica e diacronicamente, de forma que se possa demonstrar sua ligação com a língua portuguesa.[5] Quando possível, mostrar-se-á esquematicamente como seria e o que compreenderia a descrição da gramática portuguesa nos moldes paninianos, assim como a tradução, direta do sânscrito, das principais sentenças (sūtra) usadas na pesquisa.

2. Justificativa.

Ao longo de mais de dois séculos, desde que foi conhecida pelos europeus, a obra de Pāṇini vem influenciando direta e indiretamente os estudos da Linguística. Por aqui, no Brasil, fomos buscar na obra de J. Mattoso Camara Junior a dica para pesquisar esta relação dos estudos de língua portuguesa com a obra paniniana. Estudar uma obra desta envergadura, unindo-a à lingüística mais moderna e aos estudos de língua portuguesa, é procurarmos a base do que chamam hoje de ciência da linguagem. No caso de desenvolver uma pesquisa como esta na UFF, a maior justificativa seria o fato de empreendermos, pela primeira vez aqui no Rio de Janeiro, um estudo linguístico com esta especificidade e importância, não só para os estudos históricos da linguagem, mas também para as futuras pesquisas e análises teóricas dos estudos gramaticais, visto que a obra a ser pesquisada é ainda base para uma das últimas teorias linguísticas, no caso a gramática gerativa, e de grande importância para os estudos históricos e descritivos da linguagem.

3. Objetivo.

Numa época onde os estudos descritivos se focam mais nas descobertas recentes da linguística, distanciando-se aos poucos de suas bases, nossa pesquisa vem suprir a necessidade de colocar em vista estas bases e sua relação com todo o tipo de estudo descritivo e histórico da linguagem. Nossos objetivos específicos são: primeiro, a análise da obra paniniana (métodos e concepções); segundo, mostrar sua influência nos estudos gramaticais e linguísticos do português; terceiro, sua relação com as últimas teorias linguísticas.[6] Destes três objetivos principais, surgem dois outros, mais secundários, de mostrar como seria a descrição da gramática de língua portuguesa nos moldes paninianos, e a tradução do sânscrito das principais sentenças da obra estudada.


[1] Educação comparada ao trivium do Ocidente Medieval.

[2] “As descrições de Pāṇini compreendem a separação e a identificação de raízes e afixos, o que direta-mente inspirou o conceito de morfema da análise gramatical hodierna.” (Robins, p.117)

[3] Seu ensaio On Some Rules of Panini (1927). “Considera-se que o trabalho de Bloomfield Menomini morphophonemics foi buscar na obra de Pāṇini sua metodologia e inspiração.” (Robins, p.117)

[4] “De fato, minha tese de graduação foi uma gramática no estilo de Pāṇini, feita 2.500 anos antes (…)” (Noam Chomsky, entrevista, Mana vol.3 n.2 Rio de Janeiro Out. 1997).

[5] A pesquisa insere-se dentro das áreas de estudos descritivos da língua portuguesa e de historiografia da linguística, esta tanto geral quanto portuguesa.

[6] Nos objetivos específicos está implícito uma metodologia proposta pelo próprio Mattoso Camara, antes pesquisamos os métodos e concepções da obra de Pāṇini, depois sua influência nos estudos portugueses e por fim a relação com as teorias linguísticas, principalmente Sausurre, Bloomfield e Chomsky.

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O que uma tradução mal feita faz. (yoga vs. união – Segunda Parte)

Publicado sob a(s) categoria(s) Linguistics,Sanskrit,Yoga em 23 de July de 2010

maos-dadas

Minha proposta aqui é o de rever a tradução de uma palavra em sânscrito (yoga) que gerou uma idéia filosófica diferente da que deveria gerar. Não tenho pretensão que ela seja aceita ou trocada pela que é adotada hoje, mas só a de acrescentar um significado mais exato, e que transpareça sua idéia filosófica original.

O significado comumente dado à palavra yoga é união. Não é isso?

Yoga, para muitos, é unir.

Mas o que é união? Já pensaram nisso?

Num dos tratados mais antigos de etimologia (em sânscrito), o Nirukta, é dito que:

नामान्याख्यातजानीति

nāmānyākhyātajānīti (1.12)

Os nomes derivam dos verbos.

Então, levando esta frase em conta, mesmo para o português, vamos ao verbo.

União = unir. O dicionário Aurélio coloca como primeira acepção para o verbo unir:

“Tornar em um só; unificar.”

Já no dicionário Houaiss a primeira acepção para unir é:

“Aproximar, formando um todo.”

E parece-me que o significado para unir mais aceito é este mesmo:

“formar um todo, tornar um só.”

Mas ambos os dicionários também colocam como acepção o verbo juntar.

Se formos lá no latim, encontraremos:

Unir vem de unire.

Juntar vem de jungir, que vem de jungere.

O conhecido Julius Pokorny, e seu Indogermanisches Etymologisches Wörterbuch, ou Dicionário Etimológico Indo-europeu, de 1959, definiu a diferença de significado dos dois verbos, e daí deduzimos que, originalmente, unir e juntar não significam a mesma coisa. Vejam como Pokorny classifica-os a partir do indo-europeu:

  1. i̯eu-, i̯eu̯ə-, i̯eu-g– > jungo, jungere, junxi, junctus – ‘jungir , juntar, atar junto’.
  2. oi-no-, oi-u̯o– >  unio, unīre – ‘unir, ser um’.

E aqui entra minha explicação etimológico-filosófica para a palavra yoga:

Yoga vem da raiz yuj (dhātu), que significa jungir, atar, juntar, originalmente.

Se traduzimos yoga como unir, união, falamos de duas coisas que se tornam uma só, e, portanto, perdem sua individualidade, perdem o “princípio” que as faz serem quem são.

Se a traduzimos como jungir, juntar, junção, falamos de duas coisas que se aproximam sem perder sua individualidade, sem perder esse “princípio”.

OBS:

A primeira acepção em inglês do dicionário Monier Williams para a raiz yuj é:

“to yoke”.

E no Dhātupāṭhaḥ (listagem das raízes verbais do sânscrito) sua única acepção é:

yoge“.

Percebem a semelhança? A única mudança foi a da letra gutural “k” pela gutural “g”.   

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O que uma tradução mal feita faz. (yoga vs. ioga – Primeira Parte)

Publicado sob a(s) categoria(s) Linguistics,Sanskrit,Yoga em 14 de July de 2010

yoga-devanagari

Sempre quando começo meus cursos de sânscrito, uma das primeiras questões que os alunos pedem para eu explicar é a palavra ioga. É ioga ou yoga – perguntam.

Geralmente perguntam em relação à pronúncia. E a explicação é simples: quando esta palavra for pronunciada em sua origem sânscrita, pronuncia-se com “o” fechado, pois no sânscrito não existe vogal aberta (“ó” ou “é”); e quanto a grafia, grafamos com “y” quando também é sânscrito, porque na transliteração oficial usamos esta letra latina – que foi adotada pelo alfabeto latino (do alfabeto grego) a partir da conquista da Grécia (I a.C) – para grafar a letra correspondente ao seu som (fonema) no alfabeto devanāgari, adotado pelo sânscrito.

O mesmo fenômeno que aconteceu com inúmeras palavras de outras origens que foram adotadas pela língua portuguesa, aconteceu com a palavra ioga. Por que não se escreve esta palavra com o “y” original da transliteração oficial se a temos no alfabeto latino?

Questão histórica. No Brasil, a letra “y” foi abolida do Formulário Ortográfico de 1943, e restaurada só no Acordo Ortográfico de 1990, que só entrou em vigor em 2009. Todas as palavras previamente grafadas com “i” no lugar de “y” continuaram como estavam.

E quando ela veio para o português como ioga, a pronúncia certa é com “o” aberto, pois há um fenômeno na língua conhecido como altura vocálica feita para diferenciar silabas tônicas de átonas ( i – o – ga ), e como é uma paroxítona (terminada em “a”), não se usa o acento gráfico. Portanto, grafias esdrúxulas como “yôga” estão erradas porque nem no sânscrito há acento gráfico, nem em português coloca-se acento em paroxítona com “a” final. Assim, tanto ioga (com “o” aberto), quanto yoga (com “o” fechado) estão corretas se falamos da primeira como português, e da segunda como sânscrito.

Mas o que me incomoda com a palavra yoga não é a pronúncia “errada”, e sim o significado comumente aceito.

Já volto para explicar o porquê deste incômodo.

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Durezza nel core.

Publicado sob a(s) categoria(s) Linguistics,Philosophy em 06 de May de 2010

coracao-na-mao

Tenho andado bem ocupado, por isso não tenho colocado nada aqui.

Mas tenho meditado numa palavra em sânscrito, que por sua vez leva-me ao verso 15 do capítulo 15 da bhagavad gītā:

A palavra é hṛdaya, ou ‘coração’. Podemos analisá-la assim:

hṛdaya > hṛd > hṛ = tirar, oferecer, suportar.

Minha meditação tem sido em cima destas três acepções da raiz (dhātu) aí acima.

Pensem nelas e em como o coração está ligado (metaforicamente) às acepções!

Toda palavra (nome) em sânscrito vem de uma raiz (dhātu), que é responsável por um dos significados (o mais profundo) da palavra em questão. No sânscrito, a filosofia da linguagem não é uma especulação mental, tipo a encontrada em Wittgenstein, não, ela vem da própria palavra, de sua raiz. É daí que extraímos o significado profundo de um objeto que a palavra (a escrita) denomina.

Já o verso (śloka) diz assim:

सर्वस्य  चाहं  हृदि  संनिविष्टो

sarvasya cāhaṁ hṛdi saṁniviṣṭo

E Eu estou adentrado no coração de todos.

É o que Kṛṣṇa diz a Arjuna numa das estrofes mais lindas da gītā.

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Língua culta, politicamente incorreta.

Publicado sob a(s) categoria(s) Education,Linguistics em 18 de March de 2010

surdo-palavras

Leio o Segundo Caderno d’O GLOBO de hoje e me deparo com a matéria sobre uma Exposição em SP que “retrata a língua corrente e sua relação com a gramática”. Mais uma vez colocaram a língua culta em xeque. O curador da exposição, Eduardo Bucci, doutor em Lingüística pela USP, é mais um daqueles que afirmam a inexistência de uma forma correta e outra incorreta da língua, que essa coisa de “língua correta” não passa de um estigma criado por gramáticos, e “tudo é uma questão de saber em que situação usar uma e outra forma”. Santa ignorância!

Os que acompanham este site, sabem que condeno a forma como a gramática hoje vem sendo ensinada. A prioridade da nomenclatura em detrimento do entendimento. Os alunos saem das escolas sabendo listar uma gama desses nomes gramaticais, mas quase sempre sem saber usá-los corretamente. O ensino da chamada gramática geral já foi há tempos perdida, e muita coisa das raízes latina e grega já não é mais identificável por nossos estudantes.

O empobrecimento da língua está em curso, e esses doutores são os precursores de uma onda que vem invadindo a praia faz tempo. Todo esse movimento “coitadinho” para um consenso da língua inculta e errada, não é nada mais que uma forma do politicamente correto na abordagem da língua. É assim: um sujeito fala probrema e menas e todo mundo bate palma, os doutores vêm logo defender a “causa justa de um mal falar”  porque em suas visões é como se esses senhoritos estivessem negando anos de colonialismo gramatical. Quanta autenticidade!

Sem entrar em questões teóricas, por que os doutores não ensinam a forma correta para esses “coitadinhos”? Por que quando escrevem seus livros teóricos abordando o quanto a língua deve ser “livre” e sem ordem, que o povo deve falar como quer, eles não escrevem como o povo fala ou escreve?

É mais fácil ser policamente correto em relação à língua. Para quê consultar a gramática? Continue acreditando que o dicionário é o pai dos burros. Se um dia todos falarem errado, não existirá mais erro. Mas ficaremos mal fadados à linguagem do cotidiano, e só. Sem falar na incompreensão alheia e no aumento de castas lingüísticas. Assim como a perda de um significado mais profundo das palavras e tudo o que se escreve com elas.

Vejam bem, não é o fato de negar o quanto a língua é viva, mas sim de resguardar suas formas mais nobres e significativas. E torná-la compreensível por todos em sua estatura mais alta.

Portanto, leitores, também em matéria de língua e lingüística, estou cada vez mais politicamente incorreto.

Update – com atraso.

PS: O Pedro Sette-Câmara escreveu um belo post sobre assunto parecido aqui.

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Os números cantam.

Publicado sob a(s) categoria(s) Linguistics,Sanskrit em 24 de January de 2010

math-music

Eu nunca fui bom em matemática, pegava o básico fácil, mas as equações e problemas mais complicados eu praticamente decorava (tenho uma memória ótima) para passar.

Mas confesso: de longe, ela sempre me fascinou.

E agora, depois de anos, volto à matemática através do sânscrito. Traduzo, no momento, os 16 sūtra vindos do atharva veda (portanto, tão antigos quanto esta obra) e redescobertos por Bharati Krishna Tirthaji; estes sūtra são a base da Matemática Védica. Nunca foram traduzidos diretamente para a língua portuguesa.

Todo sūtra é acompanhado por outro que complementa a regra. Este aqui é o primeiro:

एकाधिकेन पूर्वेन

ekādhikena pūrvena

Por um a mais ao antecedente.

ekaadhikena – por um ‘a mais’, adicional; pūrvena – por antecedente, anterior, prévio.

OBS: O um aí é logicamente o numeral, o sânscrito não possui artigo indefinido.

आनुरूप्येण

ānurūpyeṇa

Por conformidade.

ānurūpa – com-forma

Esta regra serve para tudo o que se pode contar, o tempo inclusive, que, aliás, também age por conformidade, por proporcionalidade tanto quanto os números, chamados naturais.

E esta conformidade não é só numérica; percebam os eventos mais básicos da natureza!

*****

Depois de traduzidos, quero ver se consigo publicar em alguma revista de matemática. Seria muito legal…

Update – notas linguísticas & filosóficas + links

As três palavras dos sūtra acima estão no 3º caso (os casos declináveis em sânscrito são nomeados por números ordinais do primeiro ao oitavo), chamado de Instrumental.

Sendo assim, a melhor preposição para acompanhá-lo é o por. No entanto, ao traduzir a palavra pūrvena, usei a preposição a em composição ao artigo o (que neste caso não tem tanta importância) ao invés do por habitual. É óbvio que o por ali seria bem forçado, e o em contraido ao artigo (no) eu forçaria o sânscrito, já que esta preposição é mais usada para o 7º caso, ou Locativo. A escolha do a veio com o sentido de “movimento do um para o anterior” (1+1, 2+1, 3+1, etc.), o numeral é sempre o mesmo, um, e a quantidade, portanto, também. Esse detalhe é importante? É, e muito.

Vejam. E aqui entro num ponto mais filosófico.

A natureza do um sempre é a mesma. Já a natureza do “antecedente” é deixada de lado:

… o 1 vira 2 ao ser somado ao 1, o 2 vira 3, e assim sussessivamente.

Temos aí o movimento do 1 para o “antecedente”, e não o contrário. Resumindo:

A natureza de um número muda logo quando 1 é acrescentado a ele, já a natureza do 1 só muda uma vez, quando ele é apenas o primeiro desses “antecedentes”, que somado ao 1, vira 2.

Por isso, só o 1 (eka) se movimenta. E assim temos a acepção da preposição a indicada.

OBS:

1) Esta explicação é aplicável somente ao sūtra com a palavra em questão.

2) E vejam que no mesmo sūtra há outro caso do mesmo caso, por assim dizer.

*****

Você poderá saber mais sobre Matemática Védica aqui. E uma explicação matemática da maioria dos 16 sūtra aqui. Agora, se quiser mandar ver, compre este livro. Ou leia um resumo dele aqui.

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Uma outra gramática.

Publicado sob a(s) categoria(s) Linguistics,Philosophy em 20 de December de 2009

livro-sanscrito

कवर्गादिषु  माहेश्वर्याद्याः पशुमातरः

kavargādiṣu māheśvaryādyāḥ paśumātaraḥ

Māheśvarī e etc., mães das criaturas, estão nas consoantes.   (śiva sūtra, 3.20)

kavargādiṣu – nas consoantes (da letra “k” em diante);

māheśvaryādyāḥMāheśvarī e etc.;

paśumātaraḥ – mães das criaturas.

Este é o sūtra 20 da terceira parte do śiva sūtra.

Assim como em outras línguas, o sânscrito também tem um simbolismo em suas letras e alfabeto, na forma como se apresentam, na estrutura, na ordenação das palavras, em sua gramática. A chamada vyakāraṇa, ou gramática, é uma das três disciplinas dedicadas à língua (as outras: śikṣā, fonética; e nirukta, etimologia) da educação tradicional védica, ou vedāṅga (que se parece, nesta parte, com a educação do trivium na época medieval – creio eu: hoje mais atual e necessária do que nunca).

*****

Quando comecei meus estudos de sânscrito seriamente em 1998 (já conhecia a língua e era fascinado por ela desde 95), depois de ter sido alfabetizado por Arthur Perez, fui me embrenhar na gramática tradicional. Na época, como o Arthur ensinava através de uma gramática ocidentalizada (e boa) de um padre jesuíta (gramática conhecida do estudante indiano, A Sanskrit Manual, de R. Antoine, S.J.), eu saí da pequena turma e fui procurar estudar da forma como há anos se estudava o sânscrito, do modo tradicional. Foi aí que eu tive a tremenda sorte (!) de receber dois conselhos; o primeiro, veio antes mesmo de começar: de estudar o sânscrito tradicionalmente; o segundo, veio logo depois que eu comecei: me dedicar a cada etapa como se fosse a mais importante. Ambos os conselhos vieram respectivamente do Swami Purushatraya e do Yadu Dasa Brahmachari, todos os dois responsáveis pela tradução e comentários da vyakāraṇa de Jīva Gosvāmī – trabalho de um primor inigualável e inédito (para a língua inglesa) até aquele momento (1996). Um deles, o Yadu, é praticamente um vyakāraṇa acārya (mestre de gramática), e fala o sânscrito fluentemente.

Ambos foram meus mestres. Se estudasse por uma gramática ocidental, acabaria por ter a dificuldade de depois estudar a tradicional, algo que normalmente acontece.

Dados biográficos à parte. Isso é para dizer que a vyakāraṇa de Jīva Gosvāmī se inicia  com um dado “histórico-teológico-metafísico” interessante:

नारायणाद्  उद्भूतो  ऽयं  वर्णक्रमः

nārāyaṇād udbhūto ‘yaṁ varṇakramaḥ (h.v.1.1)

Esta ordem das letras (alfabeto) manifestou-se de Deus (Nārāyaṇa).

O interessante desta gramática é que sua nomenclatura é toda composta pelos nomes de Deus; é chamada, assim, de Harināmāmṛta (“O Néctar dos Nomes de Hari“).

Depois de anos estudando a gramática de Jīva Gosvāmī, fui estudar a famosa gramática de Pāṇini (que inclusive é tema para meu futuro mestrado, já que sua obra influenciou a maior parte dos estudos lingüísticos no Ocidente, de língua portuguesa inclusos), tratado que também começa com um dado interessante: sua concepção fonética do alfabeto; que acredita-se revelada por Shiva, e portanto, chamada também de śiva sūtra.

Toda a língua sânscrita é permeada por esta concepção filosófico-metafísica.

Dois livros fantásticos para isso:

  • The Philosophy of Sanskrit Grammar, de Apurba Chandra Barthakuria.
  • The Philosophy of Sanskrit Grammar, de P.C. Chakravarti.

(Embora o nome seja o mesmo, as análises são diferentes.)

Até mesmo em língua portuguesa houve um estudioso que procurasse esta ‘outra gramática’ e trouxesse uma concepção fonética e metafísica dela. Falo de António Telmo, com sua Gramática Secreta da Língua Portuguesa, onde ele vai buscar em Aristóteles e também na árvore dos sephiroth toda aquela riqueza (o noús poiêtikos) que estamos a perder.

E olhe só…

O nosso Dom Pedro II, que não foi bobo, estudou sânscrito sob a orientação de C.F. Seybold.

*****

Hoje o estudo da gramática de uma língua se tornou chato, e muitos dos que ensinam as línguas não sabem e nunca procuraram esta concepção mais filosófica da linguagem, de sua gramática. Até o início do século XX, as gramáticas mais usadas nas escolas aqui do Brasil, as de Julio Ribeiro, Maximino Maciel, Ernesto Carneiro Ribeiro etc., todas eram influenciadas pela concepção filosófica da gramática, muitas vezes advindas do próprio sânscrito, mediante os primeiros estudiosos europeus da língua, como Max Müller e uns outros tantos. É este estudo, não só do sânscrito mas de língua portuguesa, que eu venho perseguindo há poucos anos; na verdade, até a relação entre estas duas línguas e o modo de estudá-las e ensiná-las sob esta concepção. Que confesso, acho mais interessante. Por essas e outras tem gente aí ‘jogando o bebê fora junto com a água do banho’ e deixando de lado a importância dos estudos gramaticais. Hoje mais necessários do que nunca.

E estudar gramática não é só estudar regrinhas de uma língua qualquer!

*****

Eu ainda volto este ano. Aguardem.

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De Anima.

Publicado sob a(s) categoria(s) Linguistics,Philosophy,Vedanta em 29 de September de 2009

dalma

Parece que não só eu estou às voltas com o problema da alma.

Este foi sempre um assunto recorrente em minhas pesquisas, até porque no vedānta ele é um daqueles três assuntos que não se pode prescindir. Saibam vocês que até mesmo o vedānta possui a discussão, em certo nível, se a alma caiu ou não “do Paraíso”. E nem estou falando de uma discussão esdrúxula, não; quatro das cinco escolas desta tradição se veem às avessas com este tema. Mas não é (ainda) o que eu quero tratar aqui.

O nosso amigo Estagirita, o Aristóteles, dedicou um tratado à alma, o Peri Psykhês, e é nele que o filósofo grego expõe sua doutrina acerca da alma. Não escreverei aqui sobre sua visão, até porque ainda me resta dúvida da relação que ele faz entre psykhê (‘alma’) e ousía (‘substância’); a relação existe, certamente, mas não descobri ainda qual é.

Partamos, então, para a visão vedantina.

Logo de cara posso falar que, na tradição vedānta, é como se “alma” e “substância” (na linguagem aristotélica) fossem a mesma coisa, só que a alma sendo apenas uma das três repartições dessa ‘substância’ (ou śakti).

O conceito de “alma” nos textos védicos veio mudando ao longo do tempo. Não digo a noção filosófica, mas a linguística mesmo. Encontramos três palavras principais para se referir à alma. Mas é importante que se diga que a alma é um dos aspectos da realidade. Uma realidade que sempre é relacionada como igual e diferente (bhedābheda). E não só um “conceito” para tratar de algo “abstrato”.

(Um adendo: na filosofia vedānta não existe essa progressão da noção de alma, como é possível observar nos gregos, de Homero a Aristóteles.)

Três são as principais palavras usadas para descrever  a “alma”:

  • taṭastha.

(taṭa – margem; stha – partícula usada para expressar a ideia de lugar, de “situado”.)

Esta palavra tem um sentido mais filosófico que as demais, serve somente para definir a alma enquanto junta dos outros dois termos que comecei a explicar em post abaixo. Termo usado mais na literatura clássica, embora já apareça nos upaniṣad.

  • ātmā (ou ātman).

(pode derivar de duas raízes: an – respirar; at – mover). Esta palavra pode aparecer, no período védico da língua sânscrita, como um pronome reflexivo (já falei disso aqui). E faz com que uma mesma palavra, como ātmārāma, tenha dois significados:

  • ātmārāma = “auto-satisfeito”
  • ātmārāma = “que se satisfaz (em) alma”

A palavra ātmā já aparece no vedānta sūtra como alma.

E agora, não tão a mais famosa, mas talvez a mais especial:

  • jīva.

(da raiz – viver)

Mais especial porque é esta palavra a única que permite o uso de todas as acepções e noções filosóficas em torno do tema. Ela aparece em vários textos védicos e clássicos. E seu significado (na maioria das vezes) não pode ser apenas “vida”, ou algo do tipo.

Por enquanto, ficamos aqui. Com as três palavras mais (diretamente) usadas para definir a noção de alma. Mas saibam que podem existir outras palavras para se referir à alma.

Depois venho com a explicação filosófica. Referente às três palavras.

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No Liceu.

Publicado sob a(s) categoria(s) Linguistics,Philosophy em 23 de September de 2009

aristoteles

Importante.

Quando traduzi a palavra śakti por “potência”, esqueci de dar uma explicação necessária para não criarmos confusão. O termo “potência” não pode ser confundido aqui com seu homônimo aristotélico. Não de imediato. A palavra “potência”, contraponto de “ato”, na filosofia do Estagirita, tem a mesma acepção da palavra “matéria”, enquanto para “ato” a palavra “forma”. Ambos, “potência” e “ato”, estão para o ser (eidos); temos, então, o “ser-em-potência” e o “ser-em-ato”, embora Aristóteles muitas vezes lide com o “ser-em-potência” como um “não-ser”, chegando a dizer que “nada do que é em potência é eterno“. Aí vemos o que o vedānta chama de śakti, jamais poderia ser “potência” numa acepção aristotélica, porque todas as três śakti são eternas. Para Aristóteles as substâncias são as realidades primeiras, por isso, posso chamar śakti de substância (ousía), porque este é o papel que o vedānta lhe confere: realidades primeiras.

E o que é o vedānta senão o estudo das realidades primeiras?!

Olha. Já ia me esquecendo: ousía e eidos são muitas vezes termos sinônimos em Aristóteles.

Voltarei a este assunto, certamente. Aguardem.

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