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Sanskrit Phonetics and Devanāgarī literacy (a course).

Publicado sob a(s) categoria(s) Linguistics,Sanskrit em 23 de September de 2013

SANSKRIT2

I would like to invite you to the course on Sanskrit I will teach in this school year at Charles University, Prague. The course is an opportunity for everyone who wants to learn this language. The examples will come mostly from Yoga ancient texts and the course is very useful for those who practice Yoga or have any interest in the Sanskrit culture. It is also an opportunity to see and deal with a very scientific alphabet, in the same way which all the ancient grammars and scholars have been teaching it since thousand years. The course will be taught in English.

 

The course will start at October 3rd. Every Thursday at 9:10 am, in the room 102.

The address:

Charles University, Institute of Comparative Linguistics

Celetná 20

116 42 Prague 1

 

Here is the course description:

 

The aim of this course is to learn the Sanskrit phonetics in its two modalities, Vedic and Classic, by three traditional works: Taittirīya-prātiśākhya (Vedic), Aṣṭādhyāyī of Pāṇini (V B.C., Classic) and Harinamāmṛta Vyākaraṇa of Jīva Gosvāmi (XIV A.C., Classic). The course will make you learn the traditional alphabet as well. By the end of the course you will be able to recognize all the phonemes, write and pronounce exactly the Sanskrit words in the devanāgarī script.

 

Course plan:

1)    Sounds of Vedic Sanskrit and differences between Vedic and Classic.

2)    The characteristics and differences among the three works.

3)    Simple vowels, in its script (devanāgarī).

4)    Diphthongs.

5)    Consonants, first group.

6)    Consonants, second group.

7)    Consonants, third group.

8)    Consonants, fourth group.

9)    Consonants, fifth group.

10) The Pāṇini’s alphabet.

11)  Peculiarities of the Sanskrit sounds (Phonology and Indo-European studies).

12)  Some euphonic combinations (sandhi technician).

 

Activities:

Written activities with one written test at the end.

 

Bibliography:

MACDONELL, A.A. A Vedic Grammar for Students. Delhi, D.K.Printworld’s, 2005 (1916).

DAHIYA, Yajanveer. Panini as a Linguist: ideas and patterns. Delhi, Eastern Book, 1995.

WHITNEY, W.D. The Taittiriya Pratisakhya. Delhi, Motilal Banarsidass, 1973 (1871).

VASU, S.Ch. The Ashtadhyayi of Panini. Delhi, Motilal Banarsidass, 1997 (1891).

GOSVAMI, Jiva. Tr. Swami Purushatraya and Yadu Dasa. Harinamamrta Vyakarana. (non-published).

2 respostas

A jewel.

Publicado sob a(s) categoria(s) Sanskrit,Science em 26 de May de 2013

From Bhagavad Gīta (7.7).

 

मयि सर्वम् इदं प्रोतं सूत्रे मणिगणा इव

mayi sarvam idaṃ protaṃ sūtre maṇigaṇā iva

On me all this universe is strung like clusters of jewels on a string.

It’s a beautiful line of poetry. A metaphor, of course. Lives inside life.

But perhaps we can even see the string theory on it.

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Palavras para 2013.

Publicado sob a(s) categoria(s) Philosophy,Sanskrit em 20 de December de 2012

 

श्रद्धावाँल् लभते ज्ञानं

śraddhāvām̐l labhate jñānaṃ

Possuindo fé, ele alcança o conhecimento.

 

 

Esta é a primeira oração (aqui, no sentido gramatical) da estrofe 39 do capítulo 4 do Bhagavad Gītā.

 

Embora ela já tenha sido um farol para mim ao longo de 2012, em 2013 este farol será ainda mais luminoso.

Em 2013 apresento à banca a minha dissertação de mestrado e sigo, se Deus quiser, para um doutorado (em Praga).

Estarei totalmente imerso na obra de Pāṇini, este gênio que seduziu minha mente desde que comecei a estudá-lo, em 2000.

 

De lá para cá são 12 anos em que não passo um único dia sem revisar mentalmente um sūtra de sua gramática (sim, sou um fanático, rs), isso fez com que ao longo destes anos eu saiba de cor 1150 sūtra(s).

Como costumo dizer: uma bela brincadeira de adulto.

 

É o que desejo aos demais também, porque a única coisa que eu sei (cada vez mais), é que só o Conhecimento salva.

E sem fé (sobretudo em Deus) o Conhecimento não pode ser alcançado.

Um Feliz Natal e um 2013 de grandes realizações a todos!

 

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Um jesuíta compreende Pāṇini.

Publicado sob a(s) categoria(s) Linguistics,Sanskrit em 23 de August de 2012

Eis um post bem específico, mas não menos interessante – creio.

 

O estudo da linguagem, até o século XVIII, tinha como modelo as gramáticas do latim e do grego, e as gramáticas vernáculas eram escritas a partir delas. Isso só começa a mudar com as missões jesuíticas no Oriente, uma época muito fértil na descoberta de estudos e novas formas de se observar uma língua. A carta escrita pelo padre jesuíta Jean-François Pons, em 1740, enviada ao amigo du Halde, em Paris, é um excelente exemplo da época áurea destas descobertas. Nela encontramos a primeira menção a Pāṇini (Pania) e uma descrição exata da gramática tradicional do sânscrito; a esta altura, Pons já tinha começado, em 1738, a escrever sua gramática de sânscrito em latim.

 

Esta gramática foi estudada, mais tarde, por grandes filólogos do século XIX, tais como A.L. Chézy (fundador do curso de sânscrito no Collège de France) e Franz Bopp.

 

Eu traduzo e comento esta carta na minha dissertação de mestrado, no primeiro capítulo.

 

Aqui, coloco o terceiro parágrafo adaptado, o mais gramatical deles:

 

Está publicada em Lettres édifiantes Et Curieuses, écrites Des Missions Étrangères, par quelques Missionaires de la Compagnie de Jesus, XXVI, II, pag. 39.

 

Il est étonnant que l’esprit humain ait pu atteindre à la perfection de l’art qui éclate dans ces grammaires. Les auteurs y ont réduit par l’analyse, la plus riche langue du monde, à un petit nombre d’élémens primitifs, qu’on peut regarder comme le caput mortuum de la langue. Ces élémens ne sont par eux-mêmes d’aucun usage, ils ne signifient proprement rien ; ils ont seulement rapport à une idée, par exemple Kru à la idée d’action. Les élémens secondaires qui affectent le primitif, sont les terminaisons qui le fixent à être nom ou verbe ; celles selon lesquelles il doit se décliner ou se conjuguer, un certain nombre de syllabes à placer entre l’élément primitif et les terminaisons, quelques propositions, etc. A l’approche des élémens secondaires le primitif change souvent de figure ; Kru, par exemple, devient, selon ce qui lui est ajoûté, Kar, Kra, Kri, Kir, etc. La synthése réunit et combine tous ces élémens, et en forme une variété infinie de termes d’usage.

 

 

É espantoso como o espírito humano pôde atingir a perfeição da arte que começou nestas gramáticas. Os autores reduziram a análise, da mais rica língua do mundo, a um pequeno número de elementos primitivos, que pode se considerar como a caput mortuum da língua. Estes elementos não são de nenhum uso, eles não significam propriamente nada, eles só relatam uma idéia, por exemplo Kru à idéia de ação. Os elementos secundários que afetam o primitivo são as terminações que o fixam em ser nome ou verbo, aquelas segundo as quais ele deve se declinar ou se conjugar, um certo número de sílabas para empregar entre o elemento primitivo e as terminações, algumas orações e etc. Com a aproximação dos elementos secundários, o primitivo muda muitas vezes de figura; Kru, por exemplo, devem, segundo este que lhe é acrescentado, Kar, Kra, Kri, Kir, etc. A síntese reúne e combina todos estes elementos e os forma uma variedade infinita de termos de uso.

 

 

Este é o parágrafo mais gramatical, onde Pons mostra que realmente conhecia a língua que descrevia em sua carta. Ele descreve aqui os élémens primitifs, ou dhātu, as raizes verbais, de onde se origina toda palavra declinada ou conjugada do sânscrito. O modo como descreve a estrutura da língua é exato. Estas raizes são, de fato, o caput mortuum da língua, o elemento da língua que não pode ser reduzido, que traz a ideia primária (e mais profunda). As raizes não podem ser expostas como palavras sem antes passarem por uma mudança morfológica. Y. Dahiya, em seu Panini as a Linguist, afirma, sobre estas raizes, que “Pāṇini has not defined the dhātu in his treatise. But he has listed 2014 roots under ten groups in an appendix called Dhātupāṭha (pg.100).”

 

Em todo caso, um bom exemplo para ter ideia como Pāṇini expõe estas raizes verbais, é o aforismo (sūtra) um do capítulo três da primeira parte de sua obra:

bhūvādayo dhātavaḥ  (I.3.1)

As raizes verbais [são] de bhū (ser/estar) em diante.

Um outro exemplo parecido, porém mais específico:

 

sanādyantā  dhātavaḥ  (III.1.32)

As raizes verbais [são aquelas com o afixo] san, do começo ao fim.

Ou ainda um outro, mais direto:

dhātoḥ (III. 1. 91)

Da raiz verbal.

Este é um adhikāra sūtra, um tipo de aforismo que “governa”, “lidera” outros.

 

Uso o próprio exemplo de Pons para expor, mais descritivamente, o que ele trata.

 

a) Peguemos a raiz verbal kṛ (Kru), que traz a ideia de ‘fazer’, ‘agir’.

b) Apliquemos a ela a estrutura morfológica que ele descreve no fim do parágrafo:

 

b.1) Substantivo:

kṛ > kar + ma + n > karman + 0 > karma =  as ações, as atividades (nominativo, singular)

 

b.2) Verbo:

kṛ > kar + o > karo + ti > karoti = ele faz, ele age (terceira pessoa, presente)

 

Das dez classes de raizes verbais sânscritas, que se encontram no Dhātupāṭha (coleção de raizes) da obra de Pāṇini, a raiz kṛ aparece nas classes primeira, sexta e oitava. Ela, portanto, sofre uma mudança (kṛ > kar) morfológica (na verdade, morfofonêmica) que é descrita como (as regras) vṛddhi e guṇa, colocadas no primeiro e segundo aforismos da obra Aṣṭādhyāyī – para vermos o grau de importância. Na última frase do parágrafo, Pons descreve a tecnologia da gramática sânscrita pela qual as raizes verbais, mediante a transformação morfofonêmica e estrutural correspondentes, dão origem a um número infinito de palavras – inclusive atuais. Uma tecnologia procurada por Willem von Humboldt no século XIX, e, mais tarde, por Noam Chomsky.

 

Quando Pons fica espantado com a perfection de l’art desses gramáticos, sendo Pāṇini o primeiro com uma obra escrita, podemos entender a diferença entre a gramática latina e sânscrita, assim como a importância desta para os estudos linguísticos.

 

 

 

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Ex machina – o gadget humano.

Publicado sob a(s) categoria(s) Philosophy,Sanskrit,Vedanta em 25 de May de 2011

inteligencia

Hoje falamos da tecnologia ser uma possível extensão do homem. Reflitamos…

No Bhagavad Gītā (18.61) é dito que estamos fixos numa tecnologia. Que ela é (só) parte do que somos, e por estarmos imersos em medidas, pouco nos damos conta.

ईश्वरः सर्वभूतानां  हृद्देशेऽर्जुन तिष्ठति

भ्रामयन् सर्वभूतानि यन्त्रारूधानि मायया

īśvaraḥ sarvabhūtānāṁ hṛddeśe’rjuna tiṣṭhati

bhrāmayan sarvabhūtāni  yantrārūdhāni māyayā

O Senhor situa-se no coração de todos os seres, Arjuna;

e movimenta os seres fixos numa máquina por medição (ilusão).

Vamos fazer um esquema inverso ao śloka:

māyā + yantra + hṛd < bhūta < īśvara

agora assim:

hardware < app. / softwares < Software


Existem pontos filosóficos bem interessantes neste śloka, vejamos:

A palavra māyā, vem da raiz , significa ‘medir’, e aborda dois temas:

a)      como medida para ‘mundo’, físico, o ‘reino das medidas’;

b)      como medida para ‘estreito’, limitado psicologicamente, ‘medidas da mente’.

OBS: É a partir do segundo significado que acabam traduzindo por ilusão.

A palavra yantra, vem da raiz yam, significa ‘suportar’, ‘sustentar’, ou:

É o suporte, é a máquina, sem ela não há lugar para o coração, nem para o ser. Esta máquina é causada pelas medidas (elementos) materiais, e também é quem causa as medidas psicológicas (ilusórias), quando o ser identifica-se com ela.

Temos assim:

Software (īśvara) > app. / software (bhūta) > hardware (yantra)

O app. (alma) vai sempre depender do Software (Senhor) para poder ser, e do hardware (máquina) para poder existir.

Portanto, nós estamos numa máquina, e fazemos parte de um sistema.

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Ars Grammaticae – o modelo da gramática de Pāṇini.

Publicado sob a(s) categoria(s) Linguistics,Sanskrit em 14 de April de 2011

manuscrito-sanscrito

Antes de Pāṇini (VII a.C.), com a Aṣṭādhyāyī, vem Yāska (IX a.C.) com a Nirukta.

Pāṇini já trazia em sua gramática elementos que hoje reconhecemos em F. de Saussure:

tattvārtha: significado essencial; śabdārtha: significado-significante.

(No caso, se trata da teoria dos signos)

Sua gramática é escrita num sistema de 5 unidades:

varṇa: som;

akṣara: sílaba;

śabda: palavra;

pada: construção morfológica;

vākya: sentença.

Com 4 princípios que convertem elementos unitários em sentenças:

1) de seqüência e ordem;

2) linearidade;

3) controle centrípeto;

4) hierarquia de organização.

A construção morfológica é dada por três maneiras:

1) kāraka (sistema de casos)

2) samānādhikaraṇa (governo de equivalência)

3) anviti (concordância)

As palavras (śabda) no sistema de Pāṇini são divididas em 4 classes:

1) nāma (nomes)

2) ākhyāta (verbo)

3) upasarga (prefixos)

4) nipāta (indeclinável)

Alguns exemplos (Aṣṭādhyāyī):

– Regra Linguística:

स्वं  रूपं  शब्दस्याशब्दसंज्ञा

svaṁ rūpaṁ śabdasyāśabdasaṁjñā (1.1.68)

(Uma) palavra é significado e forma, não um termo técnico (lingüístico).

– Regra morfofonêmica:

जसः शी

jasaḥ  śī (6.1.17)

(Depois de um pronome terminado) em a, ī (é substituído) por as.

– Regra sintática:

सपूर्वायाःप्रथमा विभाष

sapūrvāyāḥ prathamā vibhāṣa (8.1.26)

(Pronome depois) de Nominativo, a substituição é opcional.

– Regra morfológica:

धातुसम्बन्धे  प्रत्ययाः

dhātusambandhe pratyayāḥ (3.4.1)

Afixo (é empregado) em relação ao verbo.

– Regra de sandhi:

एचोऽयवायावः

eco’yavāyāvaḥ (6.1.78)

(As vogais) e, ai, o, au são substituídas por ay, āy, av, āv.

******

OBS: Não esqueci das perguntas do post anterior, mas se liguem na série “Ars Grammaticae”, uma hora eu venho aqui e respondo. Se querem ter uma boa noção dos estudos gramaticais mais recentes, leiam o excelente:

A revolução tecnológica da gramatização, de Sylvain Auroux.

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Magister dixit. (minha pesquisa para o mestrado)

Publicado sob a(s) categoria(s) Education,Linguistics,Sanskrit em 09 de December de 2010

panini-selo

1. Delimitação do tema.

Os historiadores situam a descoberta da língua sânscrita como um dos grandes fatores para o desenvolvimento do estudo da linguagem. A partir desta descoberta temos os estudos filológicos comparativos do indo-europeu, e daí uma ciência geral da linguagem, que se chamaria por fim de linguística; embora alguns tratados antigos de língua já tenham sido estruturados linguisticamente, fazendo com que certas teorias modernas sejam apenas um ‘retorno’ ao conhecimento dos gramáticos antigos. Alguns desses historiadores, como R.H. Robins, consideram o ano de 1786 um marco inicial da ciência linguística contemporânea, onde possivelmente teria se dado a primeira das quatro ‘rupturas’ significativas ocorridas no desenvolvimento do que hoje entendemos por estudos linguísticos. Aconteceu neste ano a famosa declaração no Royal Asiatic Society por William Jones que “o sânscrito, sem levar em conta sua antiguidade, possui uma estrutura maravilhosa: é mais perfeito que o grego, mais rico que o latim e mais extraordinariamente refinado que ambos” (ROBINS, 2004: 106). Aqui no Brasil, o nosso famoso linguista J. Mattoso Camara Jr., dedicou um capítulo de sua História da Lingüística ao sânscrito, dizendo que “os métodos e as concepções da gramática do sânscrito, que se encontravam em Pāṇini e seus seguidores, estimularam o espírito europeu no sentido de uma nova visão da linguagem” (CAMARA JR., 1975: 44).

Esta nova visão não se restringiu somente à linguística histórico-comparativa. O estudo do sânscrito deu origem a muitas análises de linguística sincrônica, já que as gramáticas originais desta língua abordaram praticamente todos os campos deste ramo. Os estudos linguísticos do sânscrito eram divididos em vyākaraṇa (análise linguística), śikṣā (fonética) e nirukta (etimologia), as três faziam parte de uma educação tradicional voltada para a linguagem chamada vedāṅga [1] (conhecimento auxiliar). Estes estudos, de acordo com Robins, podem ser considerados sob três aspectos: teoria linguística geral e semântica; fonética e fonologia; gramática descritiva (ROBINS, 2004: 109). Das obras linguísticas da época, a gramática Aṣṭādhyāyī (Oito Capítulos) de Pāṇini, este conhecido gramático do século IV a.C., foi o primeiro tratado científico de uma língua, e chegou a ser considerada por Bloomfield como “um dos maiores monumentos da inteligência humana” (BLOOMFIELD, 1984: 11). As regras são todas organizadas em pequenas sentenças, sūtra ou “fio”, que surpreendem por tamanha economia com que conseguem formular suas afirmações linguísticas. Da obra de Pāṇini e da vyākaraṇa saíram conceitos como o termo fonológico sandhi (usado por Mattoso Camara Jr. para explicar certos casos do português), o desenvolvimento de processos de formação de palavras, o estudo morfofonêmico[2], e a representação zero de um elemento ou categoria – familiar aos linguistas modernos. O processo descritivo de sua gramática, mais de dois mil anos depois, influenciou as análises que Saussure fez de certas palavras gregas, alguns importantes trabalhos do Bloomfield[3], e também sabe-se que a gramática gerativo-transformacional criada por Chomsky teve sua influência paniniana, porque em seu “trabalho de descrição, as regras são de tal modo ordenadas, que as últimas levam sempre em conta os resultados das primeiras. Isto permite obter maior economia no processo descritivo, o que era um dos objetivos primordiais da obra de Pāṇini” (ROBINS, 2004: 188).[4]

Por aqui, no ambiente de língua portuguesa, as influências não foram poucas e podemos destacar a contribuição dada por Julio Ribeiro (1911) de “inaugurar entre nós o uso do método histórico-comparativo na descrição do vernáculo”. (CAVALIERE, 2000; 52) Este gramático alinha-se aos trabalhos e métodos criados por William Dwight Whitney, de quem, por exemplo, tira a definição que abre sua Grammatica portugueza, “Grammatica é a exposição methodica dos fatos da linguagem”, e propõe, com base nas obras do Whitney, mudanças estruturais: “Em sintonia com essa definição e na esteira da proposta descritiva de Becker e Whitney, Ribeiro subdivide a sintaxe em léxica e lógica, aquela atinente ao estudo das palavras inter-relacionadas na oração, esta ocupada do estudo da estrutura das orações” (CAVALIERE, 2000; 54) Por sua vez, o filólogo e linguista Whitney, reconhecidamente, foi buscar em Pāṇini as bases para fundamentar o seu trabalho, chegou a escrever uma gramática de sânscrito (Sanskrit Grammar) e ainda uma lista das raízes verbais do sânscrito com suas conjugações inspirada claramente na obra Dhātupāṭhaḥ (Reunião das raízes verbais), de Pāṇini; obra de grande envergadura e até hoje muito estudada e difundida. E “o elenco de obras filológicas produzidas a partir do trabalho inaugural de Julio Ribeiro cria os fundamentos da moderna gramática brasileira, nos moldes em que, mutatis mutandis, até hoje se organizam” (CAVALIERE, 2000: 55). Logo depois surgem a Grammatica descriptiva, de Maximino Maciel, “cujo exitoso curso na práxis pedagógica conferiu-lhe onze edições conhecidas, a última em 1931” e uma obra como a Grammatica expositiva, de Eduardo Carlos Pereira, “exemplo típico de um trabalho pautado no método histórico-comparativo com algum legado da escola metafísica de Port Royal” (CAVALIERE, 2000: 57). O primeiro chegou a traçar comentários à obra de Franz Bopp, um dos responsáveis pelo surgimento da gramática comparada e da ciência lingüística, e eminente professor de sânscrito. Esta influência na língua portuguesa não pára por aí, tem o renomado Said Ali, que por sua vez foi colher nas teorias de um Berthold Delbrück, indo-europeísta cujo trabalho Vedic syntax chegou a arrancar elogios de Whitney, os elementos para sua obra; bem como as influências das obras de Max Müller, reconhecido estudioso do sânscrito, nesses gramáticos e linguistas do português. Portanto, temos as influências da obra de Pāṇini, direta ou indiretamente, não somente restritas às citações dos compêndios historiográficos, mas implícitas quase em toda trajetória dos estudos gramaticais e linguísticos do português.

Embora mais relacionada aos estudos histórico-comparativos e filológicos, a obra de Pāṇini já mostrou ter um universo de possibilidades nos estudos sincrônicos. E todos já atestados por grandes nomes da tradição linguística.

Sem deixar de lado a abordagem diacrônica, este projeto de mestrado tem a intenção de estudar “os métodos e as concepções” da gramática paniniana em particular, sua relação com as últimas teorias da Linguística, bem como mostrar as influências que a obra de Pāṇini gerou, direta e indiretamente, nos estudos gramaticais e linguísticos da língua portuguesa. Um projeto de estudos gramaticais, com a singularidade de se referir a uma das primeiras obras científicas da área, estudada sincrônica e diacronicamente, de forma que se possa demonstrar sua ligação com a língua portuguesa.[5] Quando possível, mostrar-se-á esquematicamente como seria e o que compreenderia a descrição da gramática portuguesa nos moldes paninianos, assim como a tradução, direta do sânscrito, das principais sentenças (sūtra) usadas na pesquisa.

2. Justificativa.

Ao longo de mais de dois séculos, desde que foi conhecida pelos europeus, a obra de Pāṇini vem influenciando direta e indiretamente os estudos da Linguística. Por aqui, no Brasil, fomos buscar na obra de J. Mattoso Camara Junior a dica para pesquisar esta relação dos estudos de língua portuguesa com a obra paniniana. Estudar uma obra desta envergadura, unindo-a à lingüística mais moderna e aos estudos de língua portuguesa, é procurarmos a base do que chamam hoje de ciência da linguagem. No caso de desenvolver uma pesquisa como esta na UFF, a maior justificativa seria o fato de empreendermos, pela primeira vez aqui no Rio de Janeiro, um estudo linguístico com esta especificidade e importância, não só para os estudos históricos da linguagem, mas também para as futuras pesquisas e análises teóricas dos estudos gramaticais, visto que a obra a ser pesquisada é ainda base para uma das últimas teorias linguísticas, no caso a gramática gerativa, e de grande importância para os estudos históricos e descritivos da linguagem.

3. Objetivo.

Numa época onde os estudos descritivos se focam mais nas descobertas recentes da linguística, distanciando-se aos poucos de suas bases, nossa pesquisa vem suprir a necessidade de colocar em vista estas bases e sua relação com todo o tipo de estudo descritivo e histórico da linguagem. Nossos objetivos específicos são: primeiro, a análise da obra paniniana (métodos e concepções); segundo, mostrar sua influência nos estudos gramaticais e linguísticos do português; terceiro, sua relação com as últimas teorias linguísticas.[6] Destes três objetivos principais, surgem dois outros, mais secundários, de mostrar como seria a descrição da gramática de língua portuguesa nos moldes paninianos, e a tradução do sânscrito das principais sentenças da obra estudada.


[1] Educação comparada ao trivium do Ocidente Medieval.

[2] “As descrições de Pāṇini compreendem a separação e a identificação de raízes e afixos, o que direta-mente inspirou o conceito de morfema da análise gramatical hodierna.” (Robins, p.117)

[3] Seu ensaio On Some Rules of Panini (1927). “Considera-se que o trabalho de Bloomfield Menomini morphophonemics foi buscar na obra de Pāṇini sua metodologia e inspiração.” (Robins, p.117)

[4] “De fato, minha tese de graduação foi uma gramática no estilo de Pāṇini, feita 2.500 anos antes (…)” (Noam Chomsky, entrevista, Mana vol.3 n.2 Rio de Janeiro Out. 1997).

[5] A pesquisa insere-se dentro das áreas de estudos descritivos da língua portuguesa e de historiografia da linguística, esta tanto geral quanto portuguesa.

[6] Nos objetivos específicos está implícito uma metodologia proposta pelo próprio Mattoso Camara, antes pesquisamos os métodos e concepções da obra de Pāṇini, depois sua influência nos estudos portugueses e por fim a relação com as teorias linguísticas, principalmente Sausurre, Bloomfield e Chomsky.

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Inteligência & Realidade.

Publicado sob a(s) categoria(s) Philosophy,Sanskrit em 11 de August de 2010

inteligencia

Esta semana passei por mais uma etapa da edição do śiva sūtra.

E revisando um dos sūtra, fiquei tentado a comentá-lo, como se faz tradicionalmente.

Na terceira e última parte da obra, encontramos:

धीवशात् सत्त्वसिद्धिः

dhīvaśāt sattvasiddhiḥ

Do inteligente, a perfeição da realidade. (3.12)

dhīvaśāt (m. abl. sing. √dhī + vat ‘perceber’, ‘refletir’) – do inteligente.

sattva (n.) – existência, realidade.

siddhiḥ (f. nom. sing. √sidh ‘ser consumado, consolidado’) – consumação, perfeição.

1.

Traduzi a palavra siddhi aqui como perfeição porque denota um objetivo consolidado e estágio final de qualquer processo – isso falando de forma geral. Já especificamente, um significado bastante adotado (e verdadeiro) é poder místico, devido a associação àqueles que se dedicam a uma vida ascética. Mas lembrando: esses ‘poderes’ não constituem um legado espiritual propriamente dito, pois trata-se de ‘poderes místicos’ sobre a matéria.

2.

A palavra acima não vem sozinha, está em composição com outra palavra: sattva. E por sua formação temos o significado existência ou realidade. Temos sat + tva; na primeira um particípio presente da raiz (dhātu) √as (cl.2.), ou ‘ser, existir’, por isso existente, na segunda um sufixo usado para formar nomes abstratos, e por isso o significado acima. E preferi priorizar realidade por causa do teor filosófico da palavra sânscrita – já explico.

3.

E por último a primeira palavra do sūtra, dhīvat, cuja raiz significa refletir, perceber. E seu significado completo “aquele que possui o ato de refletir, perceber, inteligir”.

Explicação:

Como falei, optei pela palavra realidade para traduzir sattva, porque a existência em si tem três qualidades (guṇa), e dessas qualidades, a sattva tem um efeito ascensional, ou seja, de elevação, e, portanto, de um “estágio” em que é possível entender a existência e suas nuances de forma mais completa. Só que o sūtra vai ainda mais longe, ele não fala só dessa realidade, fala de uma perfeição, ou, dos poderes gerados a partir deste guṇa.

Só que (e agora o detalhe mais importante do sūtra) esta perfeição só é alcançada pelos inteligentes, por aqueles que refletem, percebem, e não por qualquer um. Só o inteligente é capaz de perceber a perfeição da realidade.

***

Com este post estréio minha participação (à convite do maestro Leandro Oliveira) no site Ocidentalismo

… que espero que tenha muitos anos de vida!

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O que uma tradução mal feita faz. (yoga vs. união – Segunda Parte)

Publicado sob a(s) categoria(s) Linguistics,Sanskrit,Yoga em 23 de July de 2010

maos-dadas

Minha proposta aqui é o de rever a tradução de uma palavra em sânscrito (yoga) que gerou uma idéia filosófica diferente da que deveria gerar. Não tenho pretensão que ela seja aceita ou trocada pela que é adotada hoje, mas só a de acrescentar um significado mais exato, e que transpareça sua idéia filosófica original.

O significado comumente dado à palavra yoga é união. Não é isso?

Yoga, para muitos, é unir.

Mas o que é união? Já pensaram nisso?

Num dos tratados mais antigos de etimologia (em sânscrito), o Nirukta, é dito que:

नामान्याख्यातजानीति

nāmānyākhyātajānīti (1.12)

Os nomes derivam dos verbos.

Então, levando esta frase em conta, mesmo para o português, vamos ao verbo.

União = unir. O dicionário Aurélio coloca como primeira acepção para o verbo unir:

“Tornar em um só; unificar.”

Já no dicionário Houaiss a primeira acepção para unir é:

“Aproximar, formando um todo.”

E parece-me que o significado para unir mais aceito é este mesmo:

“formar um todo, tornar um só.”

Mas ambos os dicionários também colocam como acepção o verbo juntar.

Se formos lá no latim, encontraremos:

Unir vem de unire.

Juntar vem de jungir, que vem de jungere.

O conhecido Julius Pokorny, e seu Indogermanisches Etymologisches Wörterbuch, ou Dicionário Etimológico Indo-europeu, de 1959, definiu a diferença de significado dos dois verbos, e daí deduzimos que, originalmente, unir e juntar não significam a mesma coisa. Vejam como Pokorny classifica-os a partir do indo-europeu:

  1. i̯eu-, i̯eu̯ə-, i̯eu-g– > jungo, jungere, junxi, junctus – ‘jungir , juntar, atar junto’.
  2. oi-no-, oi-u̯o– >  unio, unīre – ‘unir, ser um’.

E aqui entra minha explicação etimológico-filosófica para a palavra yoga:

Yoga vem da raiz yuj (dhātu), que significa jungir, atar, juntar, originalmente.

Se traduzimos yoga como unir, união, falamos de duas coisas que se tornam uma só, e, portanto, perdem sua individualidade, perdem o “princípio” que as faz serem quem são.

Se a traduzimos como jungir, juntar, junção, falamos de duas coisas que se aproximam sem perder sua individualidade, sem perder esse “princípio”.

OBS:

A primeira acepção em inglês do dicionário Monier Williams para a raiz yuj é:

“to yoke”.

E no Dhātupāṭhaḥ (listagem das raízes verbais do sânscrito) sua única acepção é:

yoge“.

Percebem a semelhança? A única mudança foi a da letra gutural “k” pela gutural “g”.   

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O que uma tradução mal feita faz. (yoga vs. ioga – Primeira Parte)

Publicado sob a(s) categoria(s) Linguistics,Sanskrit,Yoga em 14 de July de 2010

yoga-devanagari

Sempre quando começo meus cursos de sânscrito, uma das primeiras questões que os alunos pedem para eu explicar é a palavra ioga. É ioga ou yoga – perguntam.

Geralmente perguntam em relação à pronúncia. E a explicação é simples: quando esta palavra for pronunciada em sua origem sânscrita, pronuncia-se com “o” fechado, pois no sânscrito não existe vogal aberta (“ó” ou “é”); e quanto a grafia, grafamos com “y” quando também é sânscrito, porque na transliteração oficial usamos esta letra latina – que foi adotada pelo alfabeto latino (do alfabeto grego) a partir da conquista da Grécia (I a.C) – para grafar a letra correspondente ao seu som (fonema) no alfabeto devanāgari, adotado pelo sânscrito.

O mesmo fenômeno que aconteceu com inúmeras palavras de outras origens que foram adotadas pela língua portuguesa, aconteceu com a palavra ioga. Por que não se escreve esta palavra com o “y” original da transliteração oficial se a temos no alfabeto latino?

Questão histórica. No Brasil, a letra “y” foi abolida do Formulário Ortográfico de 1943, e restaurada só no Acordo Ortográfico de 1990, que só entrou em vigor em 2009. Todas as palavras previamente grafadas com “i” no lugar de “y” continuaram como estavam.

E quando ela veio para o português como ioga, a pronúncia certa é com “o” aberto, pois há um fenômeno na língua conhecido como altura vocálica feita para diferenciar silabas tônicas de átonas ( i – o – ga ), e como é uma paroxítona (terminada em “a”), não se usa o acento gráfico. Portanto, grafias esdrúxulas como “yôga” estão erradas porque nem no sânscrito há acento gráfico, nem em português coloca-se acento em paroxítona com “a” final. Assim, tanto ioga (com “o” aberto), quanto yoga (com “o” fechado) estão corretas se falamos da primeira como português, e da segunda como sânscrito.

Mas o que me incomoda com a palavra yoga não é a pronúncia “errada”, e sim o significado comumente aceito.

Já volto para explicar o porquê deste incômodo.

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