0 = Sânscrito. (De onde vem o zero?)

Terminei de traduzir o śulba sūtra, mais conhecido como “aforismos da matemática védica”, que já falei num post anterior.
Muitos sabem que o número (ou ‘não-número’) zero veio dos hindus, mas poucos sabem de onde propriamente. E eis que venho para lhes dizer de onde: o śulba sūtra está encravado no atharva veda, e é considerado, por muitos estudiosos, o primeiro texto onde se faz menção aos cálculos matemáticos, e portanto, ao zero ( 0 ).
Logo, o número 0 (śūnya), assim como todos os cálculos da obra que traduzi, estão no Veda original, primário. Um tipo de literatura conhecida como śruti.
Para quem acredita que o conhecimento dos Veda é sobre-humano (apauruśeya), como eu acredito, está aí não só a origem da matemática, mas do 0 também.
Aqui vai o primeiro sūtra em que aparece, pela primeira vez, a menção ao zero ( 0 ):
शून्यं साम्यसमुच्चये
śūnyaṁ sāmyasamuccaye ( 5 )
Na soma do equivalente, zero.
śūnyaṁ - zero, vazio; sāmya - igual, equivalente; samuccaye- soma, coleção.
Um exemplo para ficar mais “fácil” o sūtra:
A equação 7x + 3x = 4x + 5x tem o mesmo fator ‘x’ em todos os termos. Portanto, pelo sūtra ele é zero, i.e., x = 0.
Assim, temos de trabalhar deste jeito:
7x + 3x = 4x + 5x
10x = 9x
10x - 9x = 0
x = 0
E isto não é só aplicado ao ‘x’, mas a qualquer quantidade que se queira.
Outro exemplo?
Aqui está:
5(x+1) = 3(x+1)
Não é preciso proceder como:
5x + 5 = 3x + 3
5x - 3x = 3 - 5
2x = -2 ou x = -2 ÷ 2 = -1
Simplesmente pense no contexto do sūtra.
( x + 1 )
x + 1 = 0 cujo resultado é x = -1
Desta vez, diferente do exemplo acima, interpretamos seu uso como produto de termos independentes, como na expressão: (x+a) (x+b).
Matemáticos, consertem-me caso esteja errado!
Agora, deixemos a matemática para quem sabe ou quer aprender…
… e vamos para o aspecto filosófico do sūtra:
O interessante destes sūtra é que eles ficaram por muito tempo na berlinda. O que eu quero dizer? Por muito tempo duvidaram que eles se tratavam de aforismos, fórmulas matemáticas. Não conseguiam ver nada além de sentenças filosóficas. Bem, e isso é o mais engraçado, porque aqui nesta obra vemos como a abstração matemática se une à abstração filosófica, como elas se confundem, no caso. A ponto de confundirem todos os estudiosos que a estudaram até Bharati Krishna Tirthaji redescobri-la como fórmulas matemáticas de fato.
A idéia filosófica que a palavra śūnyaṁ nos traz é a do Nada, do Vazio. Daí deduz-se que “na coleção dos iguais, Nada”. Mas o que isso quer dizer? Digamos que a palavra sāmya, “iguais”, refere-se aos indivíduos de mesma natureza metafísica, e que o Nada na verdade é o Todo (o Absoluto), uma vez “em coleção”, uma vez “reunidos”, estes iguais tendem ao Todo; mas vejam, não quero dizer que são incompletos e necessitam se reunir todos para tenderem ao Todo, não; a “reunião”, “coleção”, aqui, pode estar referido a cada um individualmente.
Ou não. E aí estaríamos falando de uma visão mais impessoal da “alma” e do “Todo”. E esta visão mais “impessoal” na verdade tem um nome: śūnya vāda, ou ‘teoria do vazio’.



