Perceber as duas ações – política a partir do Bhagavad Gītā.

Philosophy -- 20 / October / 2011

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Política é como o homem age na cidade. E a cidade é seu cosmos.

Em um período que todos vão às ruas protestar, é importante saber a natureza dessas ações.

Se o Bhagavad Gītā trata (também) de ação, necessariamente trata de política.

Cito aqui o śloka 18 do capítulo 4 para analisarmos a ação. Vejamos:

कर्मण्यकर्म यः पश्येत्  अकर्मणि च कर्म यः

स बुद्धिमान् मनुष्येषु  स युक्तः कृत्स्नकर्मकृत्


karmaṇyakarma yaḥ paśyet  akarmaṇi ca karma yaḥ

sa buddhimān manuṣyeṣu  sa yuktaḥ kṛtsnakarmakṛt

Quem percebe inação na ação e ação na inação,

é o inteligente entre os homens, ele está conectado e executa todas as ações.

Um esclarecimento anterior:

1) O verbo paśyet (potencial, 3ª pessoa do sing. < dṛś> , ver) é central, porque aqui ele determina um sādhana (uma prática). A importância de perceber nossas ações torna-se uma prática; o homem inteligente é aquele que percebe suas ações, e uma vez conhecida a natureza de ambas as ações (ou seja, conectado), ele executa (realmente) as ações.

2) Aqui a palavra karma não tem o significado de lei (ação-reação) diretamente, ainda que possamos deduzir essa lei a partir de uma conotação. (Outro dia explico esta lei.)

Agora, vamos lá.

Para facilitar o entendimento dos dois tipos de ação propostos no śloka, trago dois dos conceitos mais usados para determinar tipos de ação segundo a política moderna.

São eles: ação reacionária e ação revolucionária.

Antes esclareço a diferença (uma das possíveis):

Ação reacionária:

É aquela que alguém adota, diante de uma ação anterior que o desagrade, sem impor esta sua ação aos demais.

Ação revolucionária:

É aquela que alguém adota, diante de uma situação que o desagrade, impondo esta sua ação aos demais.

OBS: Esqueçam os termos “direita” e “esquerda” para a análise que faço.

Mas antes, simplifico ainda mais:

O reacionário se opõe a uma fórmula certa e exata para todas as ações.

O revolucionário impõe uma fórmula (sua) certa e exata para todas as ações.

O primeiro descreve uma ação passada, o segundo prescreve uma ação futura.

Agora vamos ao śloka.

a) inação na ação: uma ação será inação quando for movida por desejo, kāma, e neste caso, um desejo (determinado pela mente, uma vez a serviço do ego) leva a um modelo de futuro, que, como sabemos, é sempre incerto. Uma ação que se fundamenta em uma idéia de futuro; portanto, revolucionária.

OBS: esta ação, por levar a um modelo de futuro, reivindica a igualdade.

b) ação na inação: uma inação será uma ação quando for movida por uma ausência de desejo, niṣkāma, e neste caso, esta ausência o leva à análise da ação anterior, que será, por sua vez, sempre passível de análise. Uma ação que se fundamenta em uma idéia de passado; portanto, reacionária (de reação mesmo).

OBS: já esta, por reagir a uma ação passada, reivindica a liberdade.

A primeira ação é determinada pelo ego (ahaṅkāra).

A segunda pela inteligência (buddhi).

*****

Coletivamente só deveríamos praticar a ação reacionária, pois sempre implica em dar consideração à ação anterior. A revolucionária já está mais afeita ao indivíduo, pois seus desejos determinarão sua própria vida sem se importar com um passado ou a imposição de um modelo (que será seu e único).

Portanto, quem percebe realmente as ações (o inteligente) se conecta com a natureza de cada ação, e pode executar todas elas, sabendo que ação praticar, e em que momento.

Agora vão aqui, e leiam este excelente texto do poeta Fernando Pessoa. Que diz algo bem parecido.

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