Gramática, Comunicação, Propaganda & Publicidade.

Education,Linguistics -- 22 / March / 2012

Ainda venho com o Steve Jobs. Já terminei de ler a biografia, e recomendo.

 

Todos que conhecem a Apple, conhecem seu moto: “pense diferente”.

 

Leiam aqui como ele nasceu:

 

“Debateram a questão gramatical. Se “diferente” modificava o verbo “pense”, talvez fosse advérbio, como em “pense diferentemente”. Mas Jobs insistia em usar “diferente” como substantivo, a exemplo de “pense vitória” ou “pense beleza”. Além disso, refletia o uso coloquial, como na frase “pense grande”. Como ele explicaria mais tarde: “Discutimos se estava correto antes de levarmos ao ar. É uma construção gramatical, quando se pensa no que queremos dizer. Não é pense o mesmo, é pense diferente. Pense um pouco diferente, pense muito diferente, pense diferente, ‘Pense diferentemente’, para mim, não alcançaria o sentido”. (Steve Jobs, W. Isaacson; Companhia das Letras)

 

Agora vamos à filosofia da gramática:

 

(Neste caso, a reflexão serve tanto para o português quanto para o inglês.)

 

Primeiro vamos à análise do “diferente”. Esta palavra, na verdade, é uma forma nominal do verbo “diferir”, um particípio presente latino chegado à língua portuguesa (formando palavras em  ente, para a 2ª conjugação; temos ainda em ante, 1ª, e em inte, 3ª) sem seu valor participial, portanto, assumindo valores de adjetivo ou substantivo. Diferente é adjetivo, neste caso. Mas o Jobs insistia em usá-lo (different) como substantivo! Pois é, ele estava certo. O que ele usou, não à toa, é chamado de intercâmbio taxionômico, i.e., ele pegou uma palavra de uma classe e passou para outra classe, de adjetivo para substantivo.

 

E por que usar um advérbio (diferentemente, differently) não fazia sentido?

 

Pensemos, pois. Ora, o que um advérbio faz? Modifica o verbo. E por quê? Porque este verbo não tem força suficiente de “andar” sozinho, ou melhor, de se expressar sozinho. Se Jobs colocasse “pense diferentemente”, este advérbio modificaria o verbo “pense”, tão importante para a publicidade da marca Apple, e ao mesmo tempo, o “diferente” já expressaria um valor coadjuvante. Mas Jobs queria “pense” e “diferente” em papéis principais. Seu moto dependia disso, sua publicidade também.

 

Daí observamos o quanto o conhecimento gramatical (sem gramatiquices) pode ajudar à Comunicação de uma marca.

 

Pense nisso!

 

OBS: O intercâmbio taxionômico de adjetivo para substantivo seria entendido pelo uso genérico da nomenclatura latina: nomen. Para nomen substantivum, nomen adjectivum. Ambos, portanto, são nomen.

Uma resposta

Uma resposta para “Gramática, Comunicação, Propaganda & Publicidade.”

  1. claudio borrelli says:

    Excelente seu texto. Realmente muito bom. Parabéns!

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