Arquivo para o  marcador' Bhagavad Gita'

A jewel.

Publicado sob a(s) categoria(s) Sanskrit,Science em 26 de May de 2013

From Bhagavad Gīta (7.7).

 

मयि सर्वम् इदं प्रोतं सूत्रे मणिगणा इव

mayi sarvam idaṃ protaṃ sūtre maṇigaṇā iva

On me all this universe is strung like clusters of jewels on a string.

It’s a beautiful line of poetry. A metaphor, of course. Lives inside life.

But perhaps we can even see the string theory on it.

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Palavras para 2013.

Publicado sob a(s) categoria(s) Philosophy,Sanskrit em 20 de December de 2012

 

श्रद्धावाँल् लभते ज्ञानं

śraddhāvām̐l labhate jñānaṃ

Possuindo fé, ele alcança o conhecimento.

 

 

Esta é a primeira oração (aqui, no sentido gramatical) da estrofe 39 do capítulo 4 do Bhagavad Gītā.

 

Embora ela já tenha sido um farol para mim ao longo de 2012, em 2013 este farol será ainda mais luminoso.

Em 2013 apresento à banca a minha dissertação de mestrado e sigo, se Deus quiser, para um doutorado (em Praga).

Estarei totalmente imerso na obra de Pāṇini, este gênio que seduziu minha mente desde que comecei a estudá-lo, em 2000.

 

De lá para cá são 12 anos em que não passo um único dia sem revisar mentalmente um sūtra de sua gramática (sim, sou um fanático, rs), isso fez com que ao longo destes anos eu saiba de cor 1150 sūtra(s).

Como costumo dizer: uma bela brincadeira de adulto.

 

É o que desejo aos demais também, porque a única coisa que eu sei (cada vez mais), é que só o Conhecimento salva.

E sem fé (sobretudo em Deus) o Conhecimento não pode ser alcançado.

Um Feliz Natal e um 2013 de grandes realizações a todos!

 

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Perceber as duas ações – política a partir do Bhagavad Gītā.

Publicado sob a(s) categoria(s) Philosophy em 20 de October de 2011

realidade-nao-parece

Política é como o homem age na cidade. E a cidade é seu cosmos.

Em um período que todos vão às ruas protestar, é importante saber a natureza dessas ações.

Se o Bhagavad Gītā trata (também) de ação, necessariamente trata de política.

Cito aqui o śloka 18 do capítulo 4 para analisarmos a ação. Vejamos:

कर्मण्यकर्म यः पश्येत्  अकर्मणि च कर्म यः

स बुद्धिमान् मनुष्येषु  स युक्तः कृत्स्नकर्मकृत्


karmaṇyakarma yaḥ paśyet  akarmaṇi ca karma yaḥ

sa buddhimān manuṣyeṣu  sa yuktaḥ kṛtsnakarmakṛt

Quem percebe inação na ação e ação na inação,

é o inteligente entre os homens, ele está conectado e executa todas as ações.

Um esclarecimento anterior:

1) O verbo paśyet (potencial, 3ª pessoa do sing. < dṛś> , ver) é central, porque aqui ele determina um sādhana (uma prática). A importância de perceber nossas ações torna-se uma prática; o homem inteligente é aquele que percebe suas ações, e uma vez conhecida a natureza de ambas as ações (ou seja, conectado), ele executa (realmente) as ações.

2) Aqui a palavra karma não tem o significado de lei (ação-reação) diretamente, ainda que possamos deduzir essa lei a partir de uma conotação. (Outro dia explico esta lei.)

Agora, vamos lá.

Para facilitar o entendimento dos dois tipos de ação propostos no śloka, trago dois dos conceitos mais usados para determinar tipos de ação segundo a política moderna.

São eles: ação reacionária e ação revolucionária.

Antes esclareço a diferença (uma das possíveis):

Ação reacionária:

É aquela que alguém adota, diante de uma ação anterior que o desagrade, sem impor esta sua ação aos demais.

Ação revolucionária:

É aquela que alguém adota, diante de uma situação que o desagrade, impondo esta sua ação aos demais.

OBS: Esqueçam os termos “direita” e “esquerda” para a análise que faço.

Mas antes, simplifico ainda mais:

O reacionário se opõe a uma fórmula certa e exata para todas as ações.

O revolucionário impõe uma fórmula (sua) certa e exata para todas as ações.

O primeiro descreve uma ação passada, o segundo prescreve uma ação futura.

Agora vamos ao śloka.

a) inação na ação: uma ação será inação quando for movida por desejo, kāma, e neste caso, um desejo (determinado pela mente, uma vez a serviço do ego) leva a um modelo de futuro, que, como sabemos, é sempre incerto. Uma ação que se fundamenta em uma idéia de futuro; portanto, revolucionária.

OBS: esta ação, por levar a um modelo de futuro, reivindica a igualdade.

b) ação na inação: uma inação será uma ação quando for movida por uma ausência de desejo, niṣkāma, e neste caso, esta ausência o leva à análise da ação anterior, que será, por sua vez, sempre passível de análise. Uma ação que se fundamenta em uma idéia de passado; portanto, reacionária (de reação mesmo).

OBS: já esta, por reagir a uma ação passada, reivindica a liberdade.

A primeira ação é determinada pelo ego (ahaṅkāra).

A segunda pela inteligência (buddhi).

*****

Coletivamente só deveríamos praticar a ação reacionária, pois sempre implica em dar consideração à ação anterior. A revolucionária já está mais afeita ao indivíduo, pois seus desejos determinarão sua própria vida sem se importar com um passado ou a imposição de um modelo (que será seu e único).

Portanto, quem percebe realmente as ações (o inteligente) se conecta com a natureza de cada ação, e pode executar todas elas, sabendo que ação praticar, e em que momento.

Agora vão aqui, e leiam este excelente texto do poeta Fernando Pessoa. Que diz algo bem parecido.

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Ex machina – o gadget humano.

Publicado sob a(s) categoria(s) Philosophy,Sanskrit,Vedanta em 25 de May de 2011

inteligencia

Hoje falamos da tecnologia ser uma possível extensão do homem. Reflitamos…

No Bhagavad Gītā (18.61) é dito que estamos fixos numa tecnologia. Que ela é (só) parte do que somos, e por estarmos imersos em medidas, pouco nos damos conta.

ईश्वरः सर्वभूतानां  हृद्देशेऽर्जुन तिष्ठति

भ्रामयन् सर्वभूतानि यन्त्रारूधानि मायया

īśvaraḥ sarvabhūtānāṁ hṛddeśe’rjuna tiṣṭhati

bhrāmayan sarvabhūtāni  yantrārūdhāni māyayā

O Senhor situa-se no coração de todos os seres, Arjuna;

e movimenta os seres fixos numa máquina por medição (ilusão).

Vamos fazer um esquema inverso ao śloka:

māyā + yantra + hṛd < bhūta < īśvara

agora assim:

hardware < app. / softwares < Software


Existem pontos filosóficos bem interessantes neste śloka, vejamos:

A palavra māyā, vem da raiz , significa ‘medir’, e aborda dois temas:

a)      como medida para ‘mundo’, físico, o ‘reino das medidas’;

b)      como medida para ‘estreito’, limitado psicologicamente, ‘medidas da mente’.

OBS: É a partir do segundo significado que acabam traduzindo por ilusão.

A palavra yantra, vem da raiz yam, significa ‘suportar’, ‘sustentar’, ou:

É o suporte, é a máquina, sem ela não há lugar para o coração, nem para o ser. Esta máquina é causada pelas medidas (elementos) materiais, e também é quem causa as medidas psicológicas (ilusórias), quando o ser identifica-se com ela.

Temos assim:

Software (īśvara) > app. / software (bhūta) > hardware (yantra)

O app. (alma) vai sempre depender do Software (Senhor) para poder ser, e do hardware (máquina) para poder existir.

Portanto, nós estamos numa máquina, e fazemos parte de um sistema.

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Les liaisons dangereuses.

Publicado sob a(s) categoria(s) Philosophy em 31 de May de 2010

descartes-metitatione

Este semestre estou cursando uma matéria de filosofia moderna na UFF (não que eu me atraia pela filosofia desta época, mas é uma daquelas obrigatórias a ser cursada), e lendo pela primeira vez as Meditações Metafísicas, do Descartes. Nada muito interessante, ou que me fizesse pular da cadeira com uma descoberta. Parece-me que o français dá volta e mais voltas sem chegar a lugar algum, todo o tema da dúvida, por exemplo, pode bem ser encontrado no darśana nyāya sem aquele psicologismo todo, e, portanto, sem ego.

Mas duas coisas intrigaram-me ao pesquisar o filósofo francês, dois de seus insights. O primeiro não se encontra nas Meditações, mas em sua obra Princípios da Filosofia (em sua Carta-Prefácio); trata-se de sua famosa metáfora da árvore. O que me intrigou é que ela pode ser encontrada (bem parecida) na bhagavad gītā, na estrofe 1 do capítulo 15.

ऊर्ध्वमूलम्  अधशाखम् अश्वत्थं प्राहुर् अव्ययम

छन्दांसि यस्य पर्णानि  यस् तं वेद स वेदवित्

ūrdhvamūlam adhaśākham aśvatthaṁ prāhur avyayam

chandāṁsi yasya parṇāni yas taṁ veda sa vedavit

Eles dizem da eterna aśvattha, (com sua) raiz para cima e seu ramo para baixo,

cujas folhas (são) os hinos (védicos), (que) quem a conhece, é conhecedor do Veda.

(OBS: A árvore  aśvattha é da família das figueiras, em português significa “lugar de cavalo”, isso por conta de suas folhas fazerem boa sombra e servir de descanço para os animais, é tida como sagrada, inclusive por causa da gītā, e aqui no Rio de Janeiro é possível encontrá-la em alguns lugares, como ao redor da praça Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, ou beirando o canal do Leblon.)

René Descartes (Princípios da Filosofia):

“Ainsi toute la philosophie est comme un arbre, dont les racines sont la métaphysique, le tronc est la physique et les branches qui sortent de ce tronc sont toutes les autres sciences qui se réduisent à trois principales, à savoir la médecine, la mécanique et la morale (…).”

As raízes estão para cima, porque é de cima (de um plano metafísico, portanto, falamos de um conhecimento metafísico) que o ramo (o conhecimento físico, deste mundo) tem sua nutrição (sua base), e lá, na gītā, as folhas são os hinos védicos, ou seja, os diversos tipos de conhecimento; sendo que a gītā vai além, ao dizer que “quem a conhece” é um “conhecedor do Veda” (que pode ser usado aqui genericamente como “conhecimento”).

É uma metáfora importante que vem nos dar um símbolo para a idéia de conhecimento, e de como ele se dá neste mundo, qual sua fonte, onde se nutre.

Já o segundo insight é da obra Meditações, está relacionado às falsas ilusões, e se parece bastante com um adágio do śaṅkara:

ब्रह्म सत्यम् जगन् मिथ्या  जीवो ब्रह्मैव नापरः

brahma satyam jagan mithyā  jīvo brahmaiva nāparaḥ

O Absoluto (é) verdadeiro, o mundo (é) falso; a alma e o Absoluto não (são) opostos.

O filósofo francês nos diz que:

“Je penserai que le ciel, l’air, la terre, les couleurs, les figures, les sons et toutes les choses extérieures que nous voyons, ne sont que des illusions et tromperies, (…)”

“Pensarei que o céu, o ar, a terra, as cores, as figuras, os sons e todas as coisas exteriores que vemos não passam de ilusões e enganos, (…)”

(Meditação Primeira [12], trad. Maria Ermantina Galvão, ed. Martins Fontes)

Não que eu concorde com o jaganmithyā (o mundo é falso), mas é um ponto de vista de śaṅkara, e, portanto, comum à tradição vedantina.

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A origem em xeque? (ou vedānta pelos poros…)

Publicado sob a(s) categoria(s) Philosophy,Vedanta em 21 de April de 2010

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A tradição vedantina também é conhecida por uttara mīmāṃsā (última investigação), a parte mais filosófica dos Vedas. Isso quer dizer que antes do vedānta ser uma escola de filosofia ou “ponto de vista filosófico” (darśana), já existia como noção de fim do Veda, relacionado diretamente com a parte chamada upaniṣad.

Cada Veda é composto por 4 tomos: mantra / brāhmaṇa / āraṇyaka / upaniṣad.

  • mantra (ou saṁhitā) – orações, fórmulas e hinos para serem recitados em ritos;
  • brāhmaṇa – tratados para explicar como esses ritos deveriam ser executados;
  • āraṇyaka– interpretação filosófica e alegoria para os ritos e meditações;
  • upaniṣad – parte filosófica para explicitar o que está implícito no mantra.

Os dois primeiros tomos são chamados de karmakāṇḍa (parte ligada aos trabalhos e às questões mais práticas da vida), os outros dois são chamados de jñānakāṇḍa (parte dos ‘conhecimentos filosóficos e metafísicos’).

Os Vedas foram compilados (ou editados) por Vyāsadeva (Kṛṣṇa Dvaipāyana Vyāsa), o autor das obras mahābhārata e bhāgavata purāa.

*****

O vedānta referido como fim do Veda está inteiramente ligado às upaniṣad, o último tomo e o mais filosófico deles (lembrando que cada um dos Vedas tem os quatro tomos e uma variação de assuntos de um para outro). Então sabemos que a origem do vedānta é o Veda, mais especificamente sua parte filosófica.

Mas a tradição como uma escola de filosofia (darśana) origina-se só depois de todas as outras escolas, nove no total, três heterodoxas (nāstika) e seis ortodoxas (āstika). Estas são chamadas assim por aceitarem os Vedas como parte integrante de sua tradição. Já as outras não aceitam o conhecimento védico, por exemplo, a escola bauddha (budismo). Podemos ter esta avaliação através da obra vedānta sūtra, que de certa forma procura refutar as idéias de todas as anteriores e colocar o vedānta como a filosofia superior a elas. E daí surge a dúvida sobre a questão da autoria e fundação da escola, que gira em torno do vedānta sūtra, e de seu autor, Badarayaṇa.

Alguns dizem que o autor desta obra é o mesmo autor que compilou os Vedas, escreveu o mahābhārata e o bhāgavata purāa. Mas quando colocamos em termo histórico e tentamos datar estas obras com o vedānta sūtra, não encontramos relação nenhuma.

Historiadores indianos têm opiniões diferentes, uns mais afeitos à visão ocidental, e uns outros mais à oriental, e portanto, à visão dos próprios textos tradicionais. Os ocidentais, ávidos por colocarem tudo em termo histórico, passam direto por um aspecto importante da tradição vedantina (e mesmo das outras seis ortodoxas): a referência dessas escrituras (śāstra) como um meio válido de conhecimento (pramāṇa), ou śabda pramāṇa (um pouco mais aqui). Ou seja, só a especulação mental e a datação histórica não valem.

A tradição vedānta tem como seus textos principais:

  • upaniṣad – parte ligada à revelação, ao que foi ouvido (śruti);
  • bhagavad gītā – parte ligada à lembrança (smṛti);
  • vedānta sūtra – parte ligada à discriminação racional (nyāya).

Juntos são conhecidos como prasthāna traya (ou os ‘três cânones’).

O Vyāsa dos Vedas (upaniṣad) seria o mesmo Badarayaṇa do vedānta sūtra?

Provavelmente não a mesma pessoa. O Kṛṣṇa Dvaipāyana Vyāsa viveu no fim da era (yuga) dvāpara, a última antes da kali yuga, a nossa era, que teria começado, segundo cálculos encontrados nos purāa, em 3102 A.C. Já o Badarayaṇa viveu em nossa era, a sua obra vedānta sūtra refere-se e refuta muitas filosofias posteriores aos Vedas, com isso, ele não poderia ser colocado históricamente antes do século 10 A.C.

Isso muda alguma coisa em relação à origem da tradição? E sobre o comentário original do qual falei aqui? Se o Badarayaṇa foi o escritor do vedānta sūtra, uma obra como o bhāgavata purāa poderia ser de autoria do Vyāsa?

A resposta está no que a tradição chama de śabda pramāṇa, a evidência dos textos ou a intuição a partir desses textos.

OBS: Depois virei com estas evidências escriturais. Ok?

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