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Les français, português, saṁskṛtam.

Publicado sob a(s) categoria(s) Education,Linguistics em 11 de July de 2011

sanskrit-francais

Recentemente traduzi a carta do padre jesuíta francês Jean François Pons, considerada o primeiro documento formal que atesta a estrutura da língua sânscrita pelos europeus. É a carta direcionada ao padre jesuíta du Halde, de 1740. Antes achávamos que um primeiro documento formal dos estudos sânscritos pelos europeus teria sido o famoso discurso de William Jones, em 1788, depois de ter escrito, em 1786, seu The Sanskrit Language. No entanto, recentemente foi descoberta uma gramática de sânscrito escrita em latim, chamada Grammaticca Linguae Sanscretanae Brachmanum Indiae Orientalis, de 1660, de autoria do também padre jesuíta Heinrich Roth (encontrada por Arnulf Camps, e hoje preservada na Biblioteca Nazionale Centrale, Roma). Ou seja, logo após a descoberta da carta de Pons, descobriram a gramática de Roth. Mas a carta de Pons menciona ini, e a gramática de Roth, não.

Esta tradução estou editando para ser publicada em alguma revista especializada. Mas este trabalho me fez refletir sobre algo importante, e que – parece-me – faz com que os franceses tenham uma ‘consciência linguística’ melhor do que a nossa. Veja lá, a carta é de 1740. E sabe qual a dificuldade que eu, um brasileiro que lê francês, tive para lê-la?

Modéstia à parte, nenhuma. Nem para traduzi-la.

Bem, se eu consigo lê-la, imagina um garoto de um lycée francês…

E veja, peguei até um romance em francês mais atual, Le travail de l’huître, do escritor canadense Jean Barbe, e comparei-o com a carta de 1740, olhei todas as formas verbais de uma e de outro, as preposições, a sintaxe etc. Tudo igual. Quer dizer, temos a mesma sintaxe, tanto na carta de 1740, quanto no roman de 2008. O ponto ao qual quero chegar é o de tentar entender por que aqui no Brasil temos essa “gana” da inovação. E pior, por inovação entende-se, às vezes, reduzir a linguagem ao seu pior. Sim, porque linguagem pode não lidar com certo e errado, mas lida com melhor e pior. A linguagem é uma teknè, uma arte, um conhecimento que pode ser aprendido e ensinado.

E por que na França não vejo inovação da linguagem? Ou reduzirem-na ao seu pior?

Talvez porque os franceses tenham esta consciência de que a língua, sendo uma técnica, e esta técnica chegada ao seu patamar mais alto, deve ser preservada. Não como em um museu, preservada em formol, mas usada no dia a dia em sua forma mais excelsa.

Talvez por falta dessa consciência é que muitos aqui “empacam” ou chiam quando hoje se debruçam num texto machadiano, com toda aquela beleza sintática. Ou pior, quando exaltam como “língua da elite” o uso de uma língua mais cuidada, melhor construída, utilizando todos os recursos técnicos que sua tradição linguística pode nos dar.

Se não nos conscientizarmos, em bem pouco tempo, Machado não será conhecido pelos seus textos, nem Manuel pela sua poesia, e olha que nem falo de uma língua de 1740.

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Les liaisons dangereuses.

Publicado sob a(s) categoria(s) Philosophy em 31 de May de 2010

descartes-metitatione

Este semestre estou cursando uma matéria de filosofia moderna na UFF (não que eu me atraia pela filosofia desta época, mas é uma daquelas obrigatórias a ser cursada), e lendo pela primeira vez as Meditações Metafísicas, do Descartes. Nada muito interessante, ou que me fizesse pular da cadeira com uma descoberta. Parece-me que o français dá volta e mais voltas sem chegar a lugar algum, todo o tema da dúvida, por exemplo, pode bem ser encontrado no darśana nyāya sem aquele psicologismo todo, e, portanto, sem ego.

Mas duas coisas intrigaram-me ao pesquisar o filósofo francês, dois de seus insights. O primeiro não se encontra nas Meditações, mas em sua obra Princípios da Filosofia (em sua Carta-Prefácio); trata-se de sua famosa metáfora da árvore. O que me intrigou é que ela pode ser encontrada (bem parecida) na bhagavad gītā, na estrofe 1 do capítulo 15.

ऊर्ध्वमूलम्  अधशाखम् अश्वत्थं प्राहुर् अव्ययम

छन्दांसि यस्य पर्णानि  यस् तं वेद स वेदवित्

ūrdhvamūlam adhaśākham aśvatthaṁ prāhur avyayam

chandāṁsi yasya parṇāni yas taṁ veda sa vedavit

Eles dizem da eterna aśvattha, (com sua) raiz para cima e seu ramo para baixo,

cujas folhas (são) os hinos (védicos), (que) quem a conhece, é conhecedor do Veda.

(OBS: A árvore  aśvattha é da família das figueiras, em português significa “lugar de cavalo”, isso por conta de suas folhas fazerem boa sombra e servir de descanço para os animais, é tida como sagrada, inclusive por causa da gītā, e aqui no Rio de Janeiro é possível encontrá-la em alguns lugares, como ao redor da praça Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, ou beirando o canal do Leblon.)

René Descartes (Princípios da Filosofia):

“Ainsi toute la philosophie est comme un arbre, dont les racines sont la métaphysique, le tronc est la physique et les branches qui sortent de ce tronc sont toutes les autres sciences qui se réduisent à trois principales, à savoir la médecine, la mécanique et la morale (…).”

As raízes estão para cima, porque é de cima (de um plano metafísico, portanto, falamos de um conhecimento metafísico) que o ramo (o conhecimento físico, deste mundo) tem sua nutrição (sua base), e lá, na gītā, as folhas são os hinos védicos, ou seja, os diversos tipos de conhecimento; sendo que a gītā vai além, ao dizer que “quem a conhece” é um “conhecedor do Veda” (que pode ser usado aqui genericamente como “conhecimento”).

É uma metáfora importante que vem nos dar um símbolo para a idéia de conhecimento, e de como ele se dá neste mundo, qual sua fonte, onde se nutre.

Já o segundo insight é da obra Meditações, está relacionado às falsas ilusões, e se parece bastante com um adágio do śaṅkara:

ब्रह्म सत्यम् जगन् मिथ्या  जीवो ब्रह्मैव नापरः

brahma satyam jagan mithyā  jīvo brahmaiva nāparaḥ

O Absoluto (é) verdadeiro, o mundo (é) falso; a alma e o Absoluto não (são) opostos.

O filósofo francês nos diz que:

“Je penserai que le ciel, l’air, la terre, les couleurs, les figures, les sons et toutes les choses extérieures que nous voyons, ne sont que des illusions et tromperies, (…)”

“Pensarei que o céu, o ar, a terra, as cores, as figuras, os sons e todas as coisas exteriores que vemos não passam de ilusões e enganos, (…)”

(Meditação Primeira [12], trad. Maria Ermantina Galvão, ed. Martins Fontes)

Não que eu concorde com o jaganmithyā (o mundo é falso), mas é um ponto de vista de śaṅkara, e, portanto, comum à tradição vedantina.

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