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O que uma tradução mal feita faz. (yoga vs. ioga – Primeira Parte)

Publicado sob a(s) categoria(s) Linguistics,Sanskrit,Yoga em 14 de July de 2010

yoga-devanagari

Sempre quando começo meus cursos de sânscrito, uma das primeiras questões que os alunos pedem para eu explicar é a palavra ioga. É ioga ou yoga – perguntam.

Geralmente perguntam em relação à pronúncia. E a explicação é simples: quando esta palavra for pronunciada em sua origem sânscrita, pronuncia-se com “o” fechado, pois no sânscrito não existe vogal aberta (“ó” ou “é”); e quanto a grafia, grafamos com “y” quando também é sânscrito, porque na transliteração oficial usamos esta letra latina – que foi adotada pelo alfabeto latino (do alfabeto grego) a partir da conquista da Grécia (I a.C) – para grafar a letra correspondente ao seu som (fonema) no alfabeto devanāgari, adotado pelo sânscrito.

O mesmo fenômeno que aconteceu com inúmeras palavras de outras origens que foram adotadas pela língua portuguesa, aconteceu com a palavra ioga. Por que não se escreve esta palavra com o “y” original da transliteração oficial se a temos no alfabeto latino?

Questão histórica. No Brasil, a letra “y” foi abolida do Formulário Ortográfico de 1943, e restaurada só no Acordo Ortográfico de 1990, que só entrou em vigor em 2009. Todas as palavras previamente grafadas com “i” no lugar de “y” continuaram como estavam.

E quando ela veio para o português como ioga, a pronúncia certa é com “o” aberto, pois há um fenômeno na língua conhecido como altura vocálica feita para diferenciar silabas tônicas de átonas ( i – o – ga ), e como é uma paroxítona (terminada em “a”), não se usa o acento gráfico. Portanto, grafias esdrúxulas como “yôga” estão erradas porque nem no sânscrito há acento gráfico, nem em português coloca-se acento em paroxítona com “a” final. Assim, tanto ioga (com “o” aberto), quanto yoga (com “o” fechado) estão corretas se falamos da primeira como português, e da segunda como sânscrito.

Mas o que me incomoda com a palavra yoga não é a pronúncia “errada”, e sim o significado comumente aceito.

Já volto para explicar o porquê deste incômodo.

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Durezza nel core.

Publicado sob a(s) categoria(s) Linguistics,Philosophy em 06 de May de 2010

coracao-na-mao

Tenho andado bem ocupado, por isso não tenho colocado nada aqui.

Mas tenho meditado numa palavra em sânscrito, que por sua vez leva-me ao verso 15 do capítulo 15 da bhagavad gītā:

A palavra é hṛdaya, ou ‘coração’. Podemos analisá-la assim:

hṛdaya > hṛd > hṛ = tirar, oferecer, suportar.

Minha meditação tem sido em cima destas três acepções da raiz (dhātu) aí acima.

Pensem nelas e em como o coração está ligado (metaforicamente) às acepções!

Toda palavra (nome) em sânscrito vem de uma raiz (dhātu), que é responsável por um dos significados (o mais profundo) da palavra em questão. No sânscrito, a filosofia da linguagem não é uma especulação mental, tipo a encontrada em Wittgenstein, não, ela vem da própria palavra, de sua raiz. É daí que extraímos o significado profundo de um objeto que a palavra (a escrita) denomina.

Já o verso (śloka) diz assim:

सर्वस्य  चाहं  हृदि  संनिविष्टो

sarvasya cāhaṁ hṛdi saṁniviṣṭo

E Eu estou adentrado no coração de todos.

É o que Kṛṣṇa diz a Arjuna numa das estrofes mais lindas da gītā.

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Língua culta, politicamente incorreta.

Publicado sob a(s) categoria(s) Education,Linguistics em 18 de March de 2010

surdo-palavras

Leio o Segundo Caderno d’O GLOBO de hoje e me deparo com a matéria sobre uma Exposição em SP que “retrata a língua corrente e sua relação com a gramática”. Mais uma vez colocaram a língua culta em xeque. O curador da exposição, Eduardo Bucci, doutor em Lingüística pela USP, é mais um daqueles que afirmam a inexistência de uma forma correta e outra incorreta da língua, que essa coisa de “língua correta” não passa de um estigma criado por gramáticos, e “tudo é uma questão de saber em que situação usar uma e outra forma”. Santa ignorância!

Os que acompanham este site, sabem que condeno a forma como a gramática hoje vem sendo ensinada. A prioridade da nomenclatura em detrimento do entendimento. Os alunos saem das escolas sabendo listar uma gama desses nomes gramaticais, mas quase sempre sem saber usá-los corretamente. O ensino da chamada gramática geral já foi há tempos perdida, e muita coisa das raízes latina e grega já não é mais identificável por nossos estudantes.

O empobrecimento da língua está em curso, e esses doutores são os precursores de uma onda que vem invadindo a praia faz tempo. Todo esse movimento “coitadinho” para um consenso da língua inculta e errada, não é nada mais que uma forma do politicamente correto na abordagem da língua. É assim: um sujeito fala probrema e menas e todo mundo bate palma, os doutores vêm logo defender a “causa justa de um mal falar”  porque em suas visões é como se esses senhoritos estivessem negando anos de colonialismo gramatical. Quanta autenticidade!

Sem entrar em questões teóricas, por que os doutores não ensinam a forma correta para esses “coitadinhos”? Por que quando escrevem seus livros teóricos abordando o quanto a língua deve ser “livre” e sem ordem, que o povo deve falar como quer, eles não escrevem como o povo fala ou escreve?

É mais fácil ser policamente correto em relação à língua. Para quê consultar a gramática? Continue acreditando que o dicionário é o pai dos burros. Se um dia todos falarem errado, não existirá mais erro. Mas ficaremos mal fadados à linguagem do cotidiano, e só. Sem falar na incompreensão alheia e no aumento de castas lingüísticas. Assim como a perda de um significado mais profundo das palavras e tudo o que se escreve com elas.

Vejam bem, não é o fato de negar o quanto a língua é viva, mas sim de resguardar suas formas mais nobres e significativas. E torná-la compreensível por todos em sua estatura mais alta.

Portanto, leitores, também em matéria de língua e lingüística, estou cada vez mais politicamente incorreto.

Update – com atraso.

PS: O Pedro Sette-Câmara escreveu um belo post sobre assunto parecido aqui.

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Uma outra gramática.

Publicado sob a(s) categoria(s) Linguistics,Philosophy em 20 de December de 2009

livro-sanscrito

कवर्गादिषु  माहेश्वर्याद्याः पशुमातरः

kavargādiṣu māheśvaryādyāḥ paśumātaraḥ

Māheśvarī e etc., mães das criaturas, estão nas consoantes.   (śiva sūtra, 3.20)

kavargādiṣu – nas consoantes (da letra “k” em diante);

māheśvaryādyāḥMāheśvarī e etc.;

paśumātaraḥ – mães das criaturas.

Este é o sūtra 20 da terceira parte do śiva sūtra.

Assim como em outras línguas, o sânscrito também tem um simbolismo em suas letras e alfabeto, na forma como se apresentam, na estrutura, na ordenação das palavras, em sua gramática. A chamada vyakāraṇa, ou gramática, é uma das três disciplinas dedicadas à língua (as outras: śikṣā, fonética; e nirukta, etimologia) da educação tradicional védica, ou vedāṅga (que se parece, nesta parte, com a educação do trivium na época medieval – creio eu: hoje mais atual e necessária do que nunca).

*****

Quando comecei meus estudos de sânscrito seriamente em 1998 (já conhecia a língua e era fascinado por ela desde 95), depois de ter sido alfabetizado por Arthur Perez, fui me embrenhar na gramática tradicional. Na época, como o Arthur ensinava através de uma gramática ocidentalizada (e boa) de um padre jesuíta (gramática conhecida do estudante indiano, A Sanskrit Manual, de R. Antoine, S.J.), eu saí da pequena turma e fui procurar estudar da forma como há anos se estudava o sânscrito, do modo tradicional. Foi aí que eu tive a tremenda sorte (!) de receber dois conselhos; o primeiro, veio antes mesmo de começar: de estudar o sânscrito tradicionalmente; o segundo, veio logo depois que eu comecei: me dedicar a cada etapa como se fosse a mais importante. Ambos os conselhos vieram respectivamente do Swami Purushatraya e do Yadu Dasa Brahmachari, todos os dois responsáveis pela tradução e comentários da vyakāraṇa de Jīva Gosvāmī – trabalho de um primor inigualável e inédito (para a língua inglesa) até aquele momento (1996). Um deles, o Yadu, é praticamente um vyakāraṇa acārya (mestre de gramática), e fala o sânscrito fluentemente.

Ambos foram meus mestres. Se estudasse por uma gramática ocidental, acabaria por ter a dificuldade de depois estudar a tradicional, algo que normalmente acontece.

Dados biográficos à parte. Isso é para dizer que a vyakāraṇa de Jīva Gosvāmī se inicia  com um dado “histórico-teológico-metafísico” interessante:

नारायणाद्  उद्भूतो  ऽयं  वर्णक्रमः

nārāyaṇād udbhūto ‘yaṁ varṇakramaḥ (h.v.1.1)

Esta ordem das letras (alfabeto) manifestou-se de Deus (Nārāyaṇa).

O interessante desta gramática é que sua nomenclatura é toda composta pelos nomes de Deus; é chamada, assim, de Harināmāmṛta (“O Néctar dos Nomes de Hari“).

Depois de anos estudando a gramática de Jīva Gosvāmī, fui estudar a famosa gramática de Pāṇini (que inclusive é tema para meu futuro mestrado, já que sua obra influenciou a maior parte dos estudos lingüísticos no Ocidente, de língua portuguesa inclusos), tratado que também começa com um dado interessante: sua concepção fonética do alfabeto; que acredita-se revelada por Shiva, e portanto, chamada também de śiva sūtra.

Toda a língua sânscrita é permeada por esta concepção filosófico-metafísica.

Dois livros fantásticos para isso:

  • The Philosophy of Sanskrit Grammar, de Apurba Chandra Barthakuria.
  • The Philosophy of Sanskrit Grammar, de P.C. Chakravarti.

(Embora o nome seja o mesmo, as análises são diferentes.)

Até mesmo em língua portuguesa houve um estudioso que procurasse esta ‘outra gramática’ e trouxesse uma concepção fonética e metafísica dela. Falo de António Telmo, com sua Gramática Secreta da Língua Portuguesa, onde ele vai buscar em Aristóteles e também na árvore dos sephiroth toda aquela riqueza (o noús poiêtikos) que estamos a perder.

E olhe só…

O nosso Dom Pedro II, que não foi bobo, estudou sânscrito sob a orientação de C.F. Seybold.

*****

Hoje o estudo da gramática de uma língua se tornou chato, e muitos dos que ensinam as línguas não sabem e nunca procuraram esta concepção mais filosófica da linguagem, de sua gramática. Até o início do século XX, as gramáticas mais usadas nas escolas aqui do Brasil, as de Julio Ribeiro, Maximino Maciel, Ernesto Carneiro Ribeiro etc., todas eram influenciadas pela concepção filosófica da gramática, muitas vezes advindas do próprio sânscrito, mediante os primeiros estudiosos europeus da língua, como Max Müller e uns outros tantos. É este estudo, não só do sânscrito mas de língua portuguesa, que eu venho perseguindo há poucos anos; na verdade, até a relação entre estas duas línguas e o modo de estudá-las e ensiná-las sob esta concepção. Que confesso, acho mais interessante. Por essas e outras tem gente aí ‘jogando o bebê fora junto com a água do banho’ e deixando de lado a importância dos estudos gramaticais. Hoje mais necessários do que nunca.

E estudar gramática não é só estudar regrinhas de uma língua qualquer!

*****

Eu ainda volto este ano. Aguardem.

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De Anima.

Publicado sob a(s) categoria(s) Linguistics,Philosophy,Vedanta em 29 de September de 2009

dalma

Parece que não só eu estou às voltas com o problema da alma.

Este foi sempre um assunto recorrente em minhas pesquisas, até porque no vedānta ele é um daqueles três assuntos que não se pode prescindir. Saibam vocês que até mesmo o vedānta possui a discussão, em certo nível, se a alma caiu ou não “do Paraíso”. E nem estou falando de uma discussão esdrúxula, não; quatro das cinco escolas desta tradição se veem às avessas com este tema. Mas não é (ainda) o que eu quero tratar aqui.

O nosso amigo Estagirita, o Aristóteles, dedicou um tratado à alma, o Peri Psykhês, e é nele que o filósofo grego expõe sua doutrina acerca da alma. Não escreverei aqui sobre sua visão, até porque ainda me resta dúvida da relação que ele faz entre psykhê (‘alma’) e ousía (‘substância’); a relação existe, certamente, mas não descobri ainda qual é.

Partamos, então, para a visão vedantina.

Logo de cara posso falar que, na tradição vedānta, é como se “alma” e “substância” (na linguagem aristotélica) fossem a mesma coisa, só que a alma sendo apenas uma das três repartições dessa ‘substância’ (ou śakti).

O conceito de “alma” nos textos védicos veio mudando ao longo do tempo. Não digo a noção filosófica, mas a linguística mesmo. Encontramos três palavras principais para se referir à alma. Mas é importante que se diga que a alma é um dos aspectos da realidade. Uma realidade que sempre é relacionada como igual e diferente (bhedābheda). E não só um “conceito” para tratar de algo “abstrato”.

(Um adendo: na filosofia vedānta não existe essa progressão da noção de alma, como é possível observar nos gregos, de Homero a Aristóteles.)

Três são as principais palavras usadas para descrever  a “alma”:

  • taṭastha.

(taṭa – margem; stha – partícula usada para expressar a ideia de lugar, de “situado”.)

Esta palavra tem um sentido mais filosófico que as demais, serve somente para definir a alma enquanto junta dos outros dois termos que comecei a explicar em post abaixo. Termo usado mais na literatura clássica, embora já apareça nos upaniṣad.

  • ātmā (ou ātman).

(pode derivar de duas raízes: an – respirar; at – mover). Esta palavra pode aparecer, no período védico da língua sânscrita, como um pronome reflexivo (já falei disso aqui). E faz com que uma mesma palavra, como ātmārāma, tenha dois significados:

  • ātmārāma = “auto-satisfeito”
  • ātmārāma = “que se satisfaz (em) alma”

A palavra ātmā já aparece no vedānta sūtra como alma.

E agora, não tão a mais famosa, mas talvez a mais especial:

  • jīva.

(da raiz – viver)

Mais especial porque é esta palavra a única que permite o uso de todas as acepções e noções filosóficas em torno do tema. Ela aparece em vários textos védicos e clássicos. E seu significado (na maioria das vezes) não pode ser apenas “vida”, ou algo do tipo.

Por enquanto, ficamos aqui. Com as três palavras mais (diretamente) usadas para definir a noção de alma. Mas saibam que podem existir outras palavras para se referir à alma.

Depois venho com a explicação filosófica. Referente às três palavras.

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No Liceu.

Publicado sob a(s) categoria(s) Linguistics,Philosophy em 23 de September de 2009

aristoteles

Importante.

Quando traduzi a palavra śakti por “potência”, esqueci de dar uma explicação necessária para não criarmos confusão. O termo “potência” não pode ser confundido aqui com seu homônimo aristotélico. Não de imediato. A palavra “potência”, contraponto de “ato”, na filosofia do Estagirita, tem a mesma acepção da palavra “matéria”, enquanto para “ato” a palavra “forma”. Ambos, “potência” e “ato”, estão para o ser (eidos); temos, então, o “ser-em-potência” e o “ser-em-ato”, embora Aristóteles muitas vezes lide com o “ser-em-potência” como um “não-ser”, chegando a dizer que “nada do que é em potência é eterno“. Aí vemos o que o vedānta chama de śakti, jamais poderia ser “potência” numa acepção aristotélica, porque todas as três śakti são eternas. Para Aristóteles as substâncias são as realidades primeiras, por isso, posso chamar śakti de substância (ousía), porque este é o papel que o vedānta lhe confere: realidades primeiras.

E o que é o vedānta senão o estudo das realidades primeiras?!

Olha. Já ia me esquecendo: ousía e eidos são muitas vezes termos sinônimos em Aristóteles.

Voltarei a este assunto, certamente. Aguardem.

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Fios de ouro.

Publicado sob a(s) categoria(s) Apps em 26 de August de 2009

fios-de-ouro

No primeiro post deste site cheguei a comentar por alto que existem seis tipos de sūtra, este gênero literário muito comum para as filosofias orientais, e muitas vezes traduzido por aforismo, embora sua tradução correta seja simplesmente “fio”. O propósito de sua brevidade é mnemônico, ou seja, ser retido na memória, uma prática constante para um estudante de tradições orientais. São mais famosos quando ligados à filosofia, mas, por exemplo, a gramática tradicional do sânscrito encontra-se neste gênero, e muitas outras obras de origem diferente. Sua história (sim, ele tem uma historinha) remonta os idos da chamada kali yuga (que chamarei, por enquanto, de “a última das quatro eras”, para não entrar em detalhes cosmológicos), esta era que tendo os humanos uma vida mais curta e uma memória ineficaz, precisariam de um gênero textual fácil de reter e levar para onde quisessem ir e debater. Mas um detalhe, e o que torna o sūtra ainda mais interessante: o gênero textual que conhecemos como prosa não existia na literatura sânscrita talvez até o século XIV (digo ‘talvez’ por já ter lido um texto em prosa desta época e ainda não ter conhecido nada neste gênero antes disso; se alguém aí souber de outra época, avise-me), isso quer dizer que praticamente tudo (deem-me a permissão da dúvida…) escrito nela é poesia. (Em outra hora, em outro post, falarei da importância do estudo da linguagem e, particularmente, da poesia nesta literatura.)

Então, vamos aos seis tipos de sūtra:

  • saṁjñā – uma ‘definição’.
  • paribhāṣā – uma ‘chave para interpretação’.
  • vidhi – uma ‘regra geral’. 
  • niyam – uma ‘regra restritiva’.
  • adhikāra – uma ‘regra primeira’ ou ‘governante’.
  • atideśa – uma ‘extensa aplicação por analogia’.

Lembrando que as palavras sânscritas acima correspondem a termos técnicos, por isso seus significados não são necessariamente literais. Isso é comum no sânscrito.

Como escreveu Shakespeare, em Hamletbrevity is the soul of wit.

Alguém aí já suspeita que tipos de sūtra temos no post anterior?

OBS: Este post dá início à categoria ‘Aplicativo’, para assuntos estruturais, de método.

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Ato Primeiro. Cena I.

Publicado sob a(s) categoria(s) Philosophy,Vedanta em 07 de June de 2009

sanskrit21

अथातो ब्रह्मजिज्ञासा

athāto brahmajijñāsā 1.1.1

Agora, portanto, (esteja) desejoso por conhecer o Absoluto.

atha: agora, assim; ataḥ: portanto;  brahmajijñāsā: desejoso por conhecer o Absoluto (examinar, indagar ‘sobre’ Brahman)

É assim que começa o vedānta-sūtra. Um dos principais tratados da filosofia vedānta.

Algumas características sobre o sūtra e a língua:

  • este sūtra é (dos seis tipos) chamado de adhikāra, que dá uma ‘regra primeira’ ou ‘governante’ (que introduz um assunto).
  • a palavra que dá início ao sutra: atha (‘agora’), geralmente é responsável por iniciar uma dissertação. É comum a literatura em sūtra começar desta forma.
  • o ‘verbo de ligação’ encontra-se implícito, como é comum encontrá-lo.
  • a palavra ataḥ, ‘portanto’, é bem peculiar: significa que o que foi dito antes, de certa forma, leva ao ponto principal deste sūtra , e desta obra.
  • a palavra brahman vem da raiz verbal bṛh, que significa ‘expandir’, e pode ser traduzida por ‘Absoluto’ (não Deus, depois explico o porquê). Ela está composta de outra palavra (jijñāsā), cuja raiz jñā significa ‘conhecer’, e aqui está no desiderativo, portanto: ‘desejo de conhecer’.

Temos também na palavra jijñāsā a ideia de ‘indagar’, e no sūtra como todo, uma ideia de busca ‘pela questão primeira’, porque uma vez que se conheça o ‘princípio das coisas’, conhece-se tudo o mais. Esta é a exortação aqui.

Embora a ideia de ‘alma’ não se encontre tão explícita quanto a de ‘Absoluto’, podemos deduzir seu aparecimento devido a natureza do verbo ‘conhecer’, pois quem ‘conhece’ é a alma, e quem ‘deseja’ também é a alma; então, na palavra desiderativa temos a alma.

Temos aí dois atributos da alma: desejar e conhecer. E sua relação com o Absoluto.

OBS: O interessante é que na Metafísica de Aristóteles, na primeira frase está explícita duas ideias deste sūtra: “o homem por natureza deseja saber” (eidénai orégontai).

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