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Novos afluentes.

Publicado sob a(s) categoria(s) Literatura em 09 de setembro de 2009

baudelaire-manet

Continuando o raciocínio do post abaixo, estou cismado com o plural de Ganges (Des Ganges…) nessa estrofe do poema Rêve Parisien; será que o bardo francês sabia ainda mais? Com esse plural aí, desconfio até que o Baudelaire sabia dos quatro afluentes do Ganges: sītā, alankanānda, cakṣu e bhadrā. Eles saem do monte meru, que fica em brahmapurī (ou, o lugar de Brahmā), em direção ao oceano de água salgada.

Uma das versões de toda essa história está no Bhāgavata Purāṇa.

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Só para lembrar: hoje é dia 09.09.09. O número 9 é símbolo de Deus.

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Os rios de Baudelaire.

Publicado sob a(s) categoria(s) Literatura em 03 de setembro de 2009

baudelaire-courbet

Insouciants et taciturnes,

Des Ganges, dans le firmament,

Versaient le trésor de leurs urnes

Dans des gouffres de diamant.

(Rêve Parisien, Les Fleurs du Mal)

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विष्णोर्विक्रमतो  वामपादाङ्गुष्ठनख  निर्भिन्नोर्ध्वाण्डकटाहविवरेणान्तः  प्रविष्टा  या  बाह्यजलधार (…) (5.17.1)

viṣṇorvikramato  vāmapādāṅguṣṭhanakha  nirbhinnordhvāṇḍakaṭāhavivareṇāntaḥ  praviṣṭā  yā  bāhyajaladhāra (…) (Bh. Purāṇa, 5.17.1)

Um passo de Viṣṇu, de pé esquerdo, com a unha do dedão, perfurou a cobertura superior da redoma (ou, do universo), pela fissura, a reserva de água (veio) abaixo, (e) entrou.

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Calma, não enganei vocês quando disse que não conhecia um texto sânscrito em prosa de antes do século XIV, este aí (em prosa) é do bhāgavata purāṇa, certamente de bem antes do século descrito. Mas seu texto em prosa é uma exceção, ele “é todo poesia”, de uma sofisticação incrível, ao todo são 18.000 estrofes, a maioria dísticos, com diferentes tipos de metrificação, inclusive a não-metrificação, como aí em cima; sua divisão é feita em 12 ‘cantos’, ou skandha, com cada ‘canto’ contendo pequenos e vários capítulos, ou adhyāya (então, a numeração acima é: o ‘canto’ 5, o ‘capítulo’ 17 e a ‘estrofe’ 1).

Ainda escreverei bastante sobre o bhāgavata purāṇa, essa importante obra para quem  estuda o vedānta. E sendo assim, sempre uma excelente referência.

Mas o que tem a ver Baudelaire com isso tudo?

Já leio Les Fleurs du Mal desde que fui a França, ano passado, e estou sempre voltando aos seus poemas; fica ali na cabeceira, e aos poucos vou me embrenhando. Gosto de ler poesia procurando decorar os poemas, às vezes nem os decoro por inteiro, mas fico com um, dois ou mais versos ressoando de (em) cor. Numa dessas leituras, parei na estrofe aí do Rêve Parisien, onde o bardo, ao fazer uma suposta ‘analogia’ do Ganges com o rio Sena (poderia um ’sonho parisiense’ passar sem a figura, no caso: mítica, de um rio?), faz uma descrição exata de parte da história desse mitológico rio indiano. Não deu outra, lá fui eu consultar os purāṇa para conferir essa história novamente; daí decidi colocar no post parte de uma das principais “não-estrofes” (é prosa!) do capítulo.

Vamos à estrofe do poeta francês:

  • Ele começa a estrofe com duas qualidades: “indiferente” e “taciturno”, por suas águas e por sua natureza. Em seguida, além do nome, escreve que sua origem não é aqui, mas no “firmamento”, isso quer dizer que suas águas vêm de cima da cobertura superior da redoma, e assim, pela fissura, “deitam o tesouro de suas urnas” (ou ‘de suas águas’), “nos abismos de diamante”, aqui poderia ser uma referência aos três universos (uma ressalva: Baudelaire usa bastante essa imagem de gouffre ao longo de seus poemas).

E agora à prosa do purāṇa:

  • Aqui temos uma das descrições da origem do Ganges na literatura sânscrita. Nas estrofes desse capítulo, a primeira coisa a ser descrita é como esta origem se deu e como o “rio” chegou até a Terra. É emblemático aqui o nome de Viṣṇu, que na verdade, nesta ocasião, estava “arquetipado” como vāmana ou trivikrama, um nome (o segundo) que significa “três passos” porque foi com três passos que Ele percorreu os três universos, furando assim, com seu dedão do pé esquerdo, o que o texto coloca como “cobertura superior da redoma” (traduzo como “universo” a expressão que logo depois será cunhada com a palavra exata: jagat). Com este furo, entra nos três universos as águas do chamado Oceano Causal, o oceano que estaria na origem da criação, que uma vez dentro, teriam sido amortecidas pelo tão conhecido semideus śiva, através de seu coque de cabelo, onde ficou reservada a água até cair sobre os três universos, um deles o nosso. Por isso, alguns acabam se referindo à sua origem de modo abençoado, por suas águas terem chegado até nós pelos pés do Senhor (creio que vocês sabem a importância da tradição de “lavar os pés” no Oriente).

E não é que o Charles Baudelaire, mesmo por volta do século XIX, nem precisou de uma novela para saber com exatidão parte da origem mitológica desse rio tão famoso…

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Fios de ouro.

Publicado sob a(s) categoria(s) Aplicativo, Sutra em 26 de agosto de 2009

fios-de-ouro

No primeiro post deste site cheguei a comentar por alto que existem seis tipos de sūtra, este gênero literário muito comum para as filosofias orientais, e muitas vezes traduzido por aforismo, embora sua tradução correta seja simplesmente “fio”. O propósito de sua brevidade é mnemônico, ou seja, ser retido na memória, uma prática constante para um estudante de tradições orientais. São mais famosos quando ligados à filosofia, mas, por exemplo, a gramática tradicional do sânscrito encontra-se neste gênero, e muitas outras obras de origem diferente. Sua história (sim, ele tem uma historinha) remonta os idos da chamada kali yuga (que chamarei, por enquanto, de “a última das quatro eras”, para não entrar em detalhes cosmológicos), esta era que tendo os humanos uma vida mais curta e uma memória ineficaz, precisariam de um gênero textual fácil de reter e levar para onde quisessem ir e debater. Mas um detalhe, e o que torna o sūtra ainda mais interessante: o gênero textual que conhecemos como prosa não existia na literatura sânscrita talvez até o século XIV (digo ‘talvez’ por já ter lido um texto em prosa desta época e ainda não ter conhecido nada neste gênero antes disso; se alguém aí souber de outra época, avise-me), isso quer dizer que praticamente tudo (deem-me a permissão da dúvida…) escrito nela é poesia. (Em outra hora, em outro post, falarei da importância do estudo da linguagem e, particularmente, da poesia nesta literatura.)

Então, vamos aos seis tipos de sūtra:

  • saṁjñā - uma ‘definição’.
  • paribhāṣā - uma ‘chave para interpretação’.
  • vidhi - uma ‘regra geral’. 
  • niyam - uma ‘regra restritiva’.
  • adhikāra - uma ‘regra primeira’ ou ‘governante’.
  • atideśa - uma ‘extensa aplicação por analogia’.

Lembrando que as palavras sânscritas acima correspondem a termos técnicos, por isso seus significados não são necessariamente literais. Isso é comum no sânscrito.

Como escreveu Shakespeare, em Hamletbrevity is the soul of wit.

Alguém aí já suspeita que tipos de sūtra temos no post anterior?

OBS: Este post dá início à categoria ‘Aplicativo’, para assuntos estruturais, de método.

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