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Les liaisons dangereuses.

Publicado sob a(s) categoria(s) Philosophy em 31 de May de 2010

descartes-metitatione

Este semestre estou cursando uma matéria de filosofia moderna na UFF (não que eu me atraia pela filosofia desta época, mas é uma daquelas obrigatórias a ser cursada), e lendo pela primeira vez as Meditações Metafísicas, do Descartes. Nada muito interessante, ou que me fizesse pular da cadeira com uma descoberta. Parece-me que o français dá volta e mais voltas sem chegar a lugar algum, todo o tema da dúvida, por exemplo, pode bem ser encontrado no darśana nyāya sem aquele psicologismo todo, e, portanto, sem ego.

Mas duas coisas intrigaram-me ao pesquisar o filósofo francês, dois de seus insights. O primeiro não se encontra nas Meditações, mas em sua obra Princípios da Filosofia (em sua Carta-Prefácio); trata-se de sua famosa metáfora da árvore. O que me intrigou é que ela pode ser encontrada (bem parecida) na bhagavad gītā, na estrofe 1 do capítulo 15.

ऊर्ध्वमूलम्  अधशाखम् अश्वत्थं प्राहुर् अव्ययम

छन्दांसि यस्य पर्णानि  यस् तं वेद स वेदवित्

ūrdhvamūlam adhaśākham aśvatthaṁ prāhur avyayam

chandāṁsi yasya parṇāni yas taṁ veda sa vedavit

Eles dizem da eterna aśvattha, (com sua) raiz para cima e seu ramo para baixo,

cujas folhas (são) os hinos (védicos), (que) quem a conhece, é conhecedor do Veda.

(OBS: A árvore  aśvattha é da família das figueiras, em português significa “lugar de cavalo”, isso por conta de suas folhas fazerem boa sombra e servir de descanço para os animais, é tida como sagrada, inclusive por causa da gītā, e aqui no Rio de Janeiro é possível encontrá-la em alguns lugares, como ao redor da praça Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, ou beirando o canal do Leblon.)

René Descartes (Princípios da Filosofia):

“Ainsi toute la philosophie est comme un arbre, dont les racines sont la métaphysique, le tronc est la physique et les branches qui sortent de ce tronc sont toutes les autres sciences qui se réduisent à trois principales, à savoir la médecine, la mécanique et la morale (…).”

As raízes estão para cima, porque é de cima (de um plano metafísico, portanto, falamos de um conhecimento metafísico) que o ramo (o conhecimento físico, deste mundo) tem sua nutrição (sua base), e lá, na gītā, as folhas são os hinos védicos, ou seja, os diversos tipos de conhecimento; sendo que a gītā vai além, ao dizer que “quem a conhece” é um “conhecedor do Veda” (que pode ser usado aqui genericamente como “conhecimento”).

É uma metáfora importante que vem nos dar um símbolo para a idéia de conhecimento, e de como ele se dá neste mundo, qual sua fonte, onde se nutre.

Já o segundo insight é da obra Meditações, está relacionado às falsas ilusões, e se parece bastante com um adágio do śaṅkara:

ब्रह्म सत्यम् जगन् मिथ्या  जीवो ब्रह्मैव नापरः

brahma satyam jagan mithyā  jīvo brahmaiva nāparaḥ

O Absoluto (é) verdadeiro, o mundo (é) falso; a alma e o Absoluto não (são) opostos.

O filósofo francês nos diz que:

“Je penserai que le ciel, l’air, la terre, les couleurs, les figures, les sons et toutes les choses extérieures que nous voyons, ne sont que des illusions et tromperies, (…)”

“Pensarei que o céu, o ar, a terra, as cores, as figuras, os sons e todas as coisas exteriores que vemos não passam de ilusões e enganos, (…)”

(Meditação Primeira [12], trad. Maria Ermantina Galvão, ed. Martins Fontes)

Não que eu concorde com o jaganmithyā (o mundo é falso), mas é um ponto de vista de śaṅkara, e, portanto, comum à tradição vedantina.

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Pequena oração natalina.

Publicado sob a(s) categoria(s) Notices em 23 de December de 2009

alcorao

Não sou muçulmano, mas neste Natal farei da oração atribuída ao profeta Mohammed a minha oração. Em tempos cada vez mais dissimulados, minha oração de Natal é:

Ó meu Deus, mostra-me as coisas tais como são.

Feliz Natal a todos.

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De Anima. (explicandum est)

Publicado sob a(s) categoria(s) Philosophy,Vedanta em 24 de October de 2009

alma-ponto-luz

Então, vamos à explicação da alma referente às três palavras colocadas no post abaixo.

Começarei a explicação a partir do vedānta sūtra, que é a principal obra desta tradição, e chamada também de nyāya prasthāna, ou o método lógico. Este assunto é recorrente nesta obra, mas aparece explicitamente no capítulo, seção e sūtra 2.3.16-53, onde pode ser encontrada a exposição da natureza da alma e sua relação com o Absoluto. Aqui eu usarei os sūtra que tiverem as mesmas palavras expostas.

A palavra jīva aparece na primeira parte do sūtra 31, da seção 1, do capítulo 1:

जीवमुख्यप्राणलिङ्गान्नेति चेत्

jīvamukhyaprāṇaliṅgānneti cet

Assim, não se percebe (como igual) a face da alma e a característica do Espírito.

(Traduzo aqui prāṇa como “Espírito”, porque dois sūtra antes, esta palavra se referiu a brahman, e a palavra original para “espírito” é spiritus, em latim, cuja acepção original é a mesma da palavra prāṇa, ‘hálito’, ‘respiração’, ‘sopro’.)

Já falei que a relação entre alma e Deus, no vedānta, é dada como igual e diferente. No sūtra acima vemos a evidência dessa diferença. A alma não é o Absoluto. E se ela não é o Absoluto, o que ela é? É vida. E aí chegamos na explicação da primeira palavra:

  • jīva, da raiz jīv, “viver”. Esta palavra unida à śakti, significa o ato de vida que é injetado na matéria. O que chamamos de alma, é aquilo que dá vida, ou anima, a matéria; e nós somos esse ato de vida.

Bem, com esta palavra, temos a função da alma, que é dar vida à matéria. Agora, onde a bendita alma (que somos nós) se localiza? Numa perspectiva metafísica, onde ela está?

Entra aí a segunda palavra para designar a alma. E como já falei, esta palavra é um tanto diferente das outras duas; ela é mais encontrada na literatura sânscrita clássica.

  • taṭastha, (taṭa – margem; stha – situada) “situada à margem”. Esta palavra define sua localização em relação ao mundo e ao Absoluto. Estar à margem significa que ela não é nem a matéria nem o Absoluto, e também que ela se relaciona com ambos. Quando se relaciona com a matéria é masculina, ela a fertiliza (v.s. 2.3.33); já quando se relaciona com o Absoluto é feminina (v.s. 2.3.41).

Desta palavra seguimos para a próxima:

  • ātmā, (da raiz at – mover; ou an – respirar) “alma”. Ao analisarmos os textos vemos que esta palavra diz respeito à alma quando ela já está no mundo, já corporificada.

Vejam isso (v.s. 4.4.3):

आत्मा  प्रकरणात्

ātmā prakaraṇāt

A alma (vem) do Todo.

Vir do Todo, não é ser o Todo. Participar do Todo, não é ser o Todo. Temos a matéria passiva de depender da alma, e a alma passiva de depender do Absoluto. Sendo Este o único com verdadeira independência.

Sei que isso fere o princípio aristotélico da não-contradição, mas para o vedānta, toda a perspectiva metafísica pode ser “auto-contraditória” porque é… metafísica. Por isso uma relação do tipo: Deus-alma-alma-Deus pode ser dada como igual e diferente. Mas não a relação do tipo: alma-matéria-matéria-alma; porque a segunda parte (matéria-alma) dessa relação não é possível acontecer, a não ser com a alma iludida pela matéria. (Ou seja, quase sempre…)

Estas três palavrinhas nos dizem o seguinte:

A alma é um princípio individual (aṁśa) que vem de Deus e dá vida à matéria; ela está situada à margem por participar tanto do Absoluto quanto da matéria; uma vez dentro e animando, ou ela se deixa levar (des-conscientiza-se) pela força da matéria, que sendo o princípio feminino aí, a seduz; ou se deixa levar (conscientiza-se) pela força original de sua natureza, que é o contato constante com o Absoluto, sendo feminina para com Ele, e seu contato masculinamente constante com a matéria.

Usamos, então: jīva, para quando queremos falar da alma como princípio ou ‘substância’ (śakti); ātmā, para quando nos referimos à alma, mas corporificada, já no mundo; e taṭastha, quando a referência for tanto para princípio como para determinar sua localização perante as duas outras śakti.

OBS: É lógico que este assunto não pára por aqui, sua explicação não se restringe só a esta.

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De Anima.

Publicado sob a(s) categoria(s) Linguistics,Philosophy,Vedanta em 29 de September de 2009

dalma

Parece que não só eu estou às voltas com o problema da alma.

Este foi sempre um assunto recorrente em minhas pesquisas, até porque no vedānta ele é um daqueles três assuntos que não se pode prescindir. Saibam vocês que até mesmo o vedānta possui a discussão, em certo nível, se a alma caiu ou não “do Paraíso”. E nem estou falando de uma discussão esdrúxula, não; quatro das cinco escolas desta tradição se veem às avessas com este tema. Mas não é (ainda) o que eu quero tratar aqui.

O nosso amigo Estagirita, o Aristóteles, dedicou um tratado à alma, o Peri Psykhês, e é nele que o filósofo grego expõe sua doutrina acerca da alma. Não escreverei aqui sobre sua visão, até porque ainda me resta dúvida da relação que ele faz entre psykhê (‘alma’) e ousía (‘substância’); a relação existe, certamente, mas não descobri ainda qual é.

Partamos, então, para a visão vedantina.

Logo de cara posso falar que, na tradição vedānta, é como se “alma” e “substância” (na linguagem aristotélica) fossem a mesma coisa, só que a alma sendo apenas uma das três repartições dessa ‘substância’ (ou śakti).

O conceito de “alma” nos textos védicos veio mudando ao longo do tempo. Não digo a noção filosófica, mas a linguística mesmo. Encontramos três palavras principais para se referir à alma. Mas é importante que se diga que a alma é um dos aspectos da realidade. Uma realidade que sempre é relacionada como igual e diferente (bhedābheda). E não só um “conceito” para tratar de algo “abstrato”.

(Um adendo: na filosofia vedānta não existe essa progressão da noção de alma, como é possível observar nos gregos, de Homero a Aristóteles.)

Três são as principais palavras usadas para descrever  a “alma”:

  • taṭastha.

(taṭa – margem; stha – partícula usada para expressar a ideia de lugar, de “situado”.)

Esta palavra tem um sentido mais filosófico que as demais, serve somente para definir a alma enquanto junta dos outros dois termos que comecei a explicar em post abaixo. Termo usado mais na literatura clássica, embora já apareça nos upaniṣad.

  • ātmā (ou ātman).

(pode derivar de duas raízes: an – respirar; at – mover). Esta palavra pode aparecer, no período védico da língua sânscrita, como um pronome reflexivo (já falei disso aqui). E faz com que uma mesma palavra, como ātmārāma, tenha dois significados:

  • ātmārāma = “auto-satisfeito”
  • ātmārāma = “que se satisfaz (em) alma”

A palavra ātmā já aparece no vedānta sūtra como alma.

E agora, não tão a mais famosa, mas talvez a mais especial:

  • jīva.

(da raiz – viver)

Mais especial porque é esta palavra a única que permite o uso de todas as acepções e noções filosóficas em torno do tema. Ela aparece em vários textos védicos e clássicos. E seu significado (na maioria das vezes) não pode ser apenas “vida”, ou algo do tipo.

Por enquanto, ficamos aqui. Com as três palavras mais (diretamente) usadas para definir a noção de alma. Mas saibam que podem existir outras palavras para se referir à alma.

Depois venho com a explicação filosófica. Referente às três palavras.

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No Liceu.

Publicado sob a(s) categoria(s) Linguistics,Philosophy em 23 de September de 2009

aristoteles

Importante.

Quando traduzi a palavra śakti por “potência”, esqueci de dar uma explicação necessária para não criarmos confusão. O termo “potência” não pode ser confundido aqui com seu homônimo aristotélico. Não de imediato. A palavra “potência”, contraponto de “ato”, na filosofia do Estagirita, tem a mesma acepção da palavra “matéria”, enquanto para “ato” a palavra “forma”. Ambos, “potência” e “ato”, estão para o ser (eidos); temos, então, o “ser-em-potência” e o “ser-em-ato”, embora Aristóteles muitas vezes lide com o “ser-em-potência” como um “não-ser”, chegando a dizer que “nada do que é em potência é eterno“. Aí vemos o que o vedānta chama de śakti, jamais poderia ser “potência” numa acepção aristotélica, porque todas as três śakti são eternas. Para Aristóteles as substâncias são as realidades primeiras, por isso, posso chamar śakti de substância (ousía), porque este é o papel que o vedānta lhe confere: realidades primeiras.

E o que é o vedānta senão o estudo das realidades primeiras?!

Olha. Já ia me esquecendo: ousía e eidos são muitas vezes termos sinônimos em Aristóteles.

Voltarei a este assunto, certamente. Aguardem.

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O homem é imitação. Portanto, ele é poesia.

Publicado sob a(s) categoria(s) Philosophy em 20 de September de 2009

tres-folhas-potencias

1.

Estava hoje numa aula de Estética – não lecionada, mas assistida por mim – quando, ao tocarmos num assunto da Poética de Aristóteles, particularmente o livro IV, onde nos é passada a idéia da ‘origem da poesia’, saí de sala, fui embora da UFF, porque ao definir o que gera a poesia, a proposição do filósofo, desta vez, batera-me como nunca antes. O Estagirita expõe ali duas causas, uma delas a imitação (mímesis). E é quando ele nos diz que “o imitar é congênito no homem ([…], por imitação, apreende as primeiras noções), e os homens se comprazem no imitado”, que me lembrei desta passagem com referência aos estudos metafísicos (não, não é loucura minha dizer que um assunto tratado tanto na Poética quanto na Física, de modo diferente, claro, mas ainda com a mesma definição, está ligado, na verdade, à sua Metafísica; isso já foi referendado por estudiosos). Porém, ao fazer a referência aos estudos metafísicos, nem pensei na parte onde o filósofo trata a questão da ‘apreensão das primeiras noções’, ou mesmo do ‘aprender que nos apraz’, na qual estaria a relação entre a Poética e a Metafísica, mas na abordagem dessa imitação e o imitar ser congênito no homem. Pois sendo congênito, está intrínseco à sua natureza, e assim, em sua essência; ou seja, antes do homem (ser) ser feito como homem (sínolo).

Acho que todos, sendo cristão ou não, já nos deparamos com a noção de homem “como imagem e semelhança de Deus” (imago Dei). Ora, não falamos que semelhança também é “cópia”,”imitação”? E não está intrínseco, tanto na idéia de semelhança como na idéia de imitação, um certo desprendimento? Dizer que algo é semelhante, ou imitação, não é dizer também que este algo tem independência àquilo com que ele se assemelha? Senão não teríamos dois algo(s), mas apenas um. Também é necessário que haja características no imitado, ou assemelhado, que existam antes em sua origem. (Pensem em quando um pintor, diante de um pôr-do-sol, pinta este acontecimento em sua tela…) E se Ari nos diz que imitar é congênito no homem, sendo o homem, para o filósofo, um sínolo (sýnolon), um todo concreto de ‘forma’ e ‘matéria’, é possível que esta “característica nata” para a imitação, já seja parte intrínseca de sua natureza (ou essência).

Agora, guardem isso.

2.

Saio dos gregos… e vou para os védicos…

Mas antes um parênteses. (Tenho tido orgasmos ao descobrir, na Metafísica do Ari, uma grande parte, semelhante!, do conhecimento que há anos estudo pelos textos védicos, no caso, principalmente os adotados pela tradição vedānta. E com isso não quero dizer que Aristóteles tenha ido a Índia, ou que tenha se esbarrado com os Vedas, nada disso, não é a proposta com que trabalho. Para mim, ele apenas (apenas?!) intuiu o mesmo conteúdo dos Vedas; e por que eu posso suspeitar disso? Onde me baseio para possibilitar a tal da intuição? Bem, primeiro porque sendo os Vedas considerados apauruṣeya, não-humano e revelados, faz com que seu conteúdo possa ser intuído por qualquer um que contemple os mesmos assuntos; segundo, pensar assim é respaldar-se na teoria do conhecimento da qual os textos védicos falam, ou pramāṇa (fontes válidas), e especificamente em śabda (intuição, som, textos); isso explica meu entusiasmo por esta leitura.)

Aos védicos…

Na tradição vedānta existe essa mesma idéia do homem ser semelhante a Deus. Ele é na verdade igual e diferente (bhedābheda) a/de Deus. E como isso se dá? Poiesis. Naquela acepção dada pelo Aristóteles: poesia é imitação. Tudo bem. Voltemos aos védicos. Nos textos como os upaniṣad encontramos referências de como isto se dá, é como se fosse a passagem do leite para a coalhada (guardemos essa imagem), mas sem que houvesse um prejuízo para o leite, como se depois de coalhar você pudesse separar a coalhada e ainda assim existir o leite ali, intacto e puro. (Uso esta analogia pois ela aparece nos textos.) E é aí que fica ainda melhor…

A invocação da obra īśa upaniṣad aborda, ainda indiretamente, a questão da imitação; a estrofe, ‘brincando’ com a palavra pūrṇa (“completo, perfeito”), descreve o processo de causa e efeito dessa semelhança, o porquê dessa imitação (imago).

*****

oṁ pūrṇam adaḥ pūrṇam idaṁ pūrṇāt pūrṇam udacyate

pūrṇasya pūrṇam ādāya pūrṇam evāvaśiṣyate

(D)aquele Completo (vem) este completo. Do Completo, o completo é produzido.

Tendo tirado o completo do Completo. Ainda assim, permanece Completo.

*****

(Coloquei a letra maiúscula em uma palavra “completo” para facilitar a leitura, e para os outros “completos” as idéias de mundo e homem são equivalentes.)

A idéia de imagem e semelhança de Deus vem de outra idéia: a de características, ou até naturezas (qüididade), semelhantes. (Só para deixar claro.) Para o vedānta, entre Deus e o homem existe a mesma essência (eînai; essentia), ou śakti, “potência”, “energia” e até “capacidade”, da raiz śak, “ser capaz de”(um detalhe importante, já que estou fazendo a  relação do vedānta com Aristóteles: posso relacionar o termo em sânscrito com o termo ousía em Aristóteles, usado na acepção de hypokeímenon, “sub-jacente”, “sujeito”, em sua Metafísica, Livro V, 8, 1017b, 23-26).

*****

Para a tradição vedānta existem três śakti:

  • antaraṅga śakti (‘potência’ ou ‘subjacência’ interna)
  • taṭastha śakti (‘potência’ ou ‘subjacência’ marginal)
  • bahiraṅga śakti (‘potência’ ou ‘subjacência’ externa)

*****

Daí temos a concepção de Deus (Absoluto), homem (alma) e mundo (matéria), e assim a idéia de mesma qüididade entre as primeira e segunda ‘subjacências’ (com a segunda delas estando ‘na margem’, portanto, participando tanto da primeira quanto da terceira ‘subjacência’). Quanto mais a segunda ‘subjacência’ se ‘purifica’ (a alma), mais ela se assemelha à primeira ‘subjacência’ (Absoluto); quanto mais permanece ‘impura’, mais imita a terceira ‘subjacência’ (matéria). E ainda sai muito coelho dessa cartola… É claro que voltarei ao assunto.

*****

Só para puxar a barba do Aristóteles mais uma vez. Em sua Metafísica encontramos, no Livro IV, a seguinte declaração para aquilo que o vedānta chama de śakti (que, como já falei, pode fazer referência à palavra ousía, embora (saiba você) esta palavra em Ari não é assunto muito fácil de se estudar; por exemplo, aqui ela aparece no ‘sinônimo’ ón, que se tornou a latina ens. Vamos à proposição aristotélica:

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  • Metafísica (Livro IV, 2, 1003b, 33-34).

tò dé ón légetai mén pollakhôs, alla prós èn kaì mían tina phýsin kaí oukh homonúmos all’

O ser se diz de múltiplos sentidos, mas em referência a uma unidade e à natureza única.

*****

Bem, se o ser se diz de muito sentidos, ele pode se referir às três ‘potências’ logo ali em cima, e afirmar que estas ‘potências’ são unidades e têm, cada uma, natureza única.

E não é assim que o upaniṣad nos afirma a mesma coisa? Que cada ser é completo? Em sua natureza única, ou seja, sua característica própria (interna, marginal e externa).

3.

Ao definir poesia como imitação, e ao dizer que este “imitar é congênito no homem”, e portanto, intrínseco à sua natureza, diríamos também que, para Aristóteles e o vedānta, a idéia de semelhança, ou imitação, a/de Deus está, sim, intrínseca no homem. Sendo o homem, portanto, poesia; e poesia de Deus (de poiesis, “criação”, “ação”).

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A idéia que fazemos de poesia como um texto idiossincrático, ainda me torna viva outra idéia, a do homem como idiossincrasia de Deus, como sua poesia, sua criação. Sem afetá-Lo em nada, logicamente (Ele “permanece pūrṇam“).

Desculpem-me pela prosa um tanto rançosa, mas é que ainda estudo o assunto.

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Ontem, 19/09/09, foi Rosh Hashaná, e pelo judaísmo entramos no ano 5770. Este tempo coincide com a contagem de ano na cosmologia védica.

E que tenhamos todos uma linda Primavera! Entra no dia 22, lua crescente, sol em Libra.

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E agora, para espairecer, fiquem com o jazz metafísico do Coltrane:

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