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Inteligência & Realidade.

Publicado sob a(s) categoria(s) Filosofia, Sânscrito em 11 de agosto de 2010

inteligencia

Esta semana passei por mais uma etapa da edição do śiva sūtra.

E revisando um dos sūtra, fiquei tentado a comentá-lo, como se faz tradicionalmente.

Na terceira e última parte da obra, encontramos:

धीवशात् सत्त्वसिद्धिः

dhīvaśāt sattvasiddhiḥ

Do inteligente, a perfeição da realidade. (3.12)

dhīvaśāt (m. abl. sing. √dhī + vat ‘perceber’, ‘refletir’) - do inteligente.

sattva (n.) - existência, realidade.

siddhiḥ (f. nom. sing. √sidh ’ser consumado, consolidado’) - consumação, perfeição.

1.

Traduzi a palavra siddhi aqui como perfeição porque denota um objetivo consolidado e estágio final de qualquer processo - isso falando de forma geral. Já especificamente, um significado bastante adotado (e verdadeiro) é poder místico, devido a associação àqueles que se dedicam a uma vida ascética. Mas lembrando: esses ‘poderes’ não constituem um legado espiritual propriamente dito, pois trata-se de ‘poderes místicos’ sobre a matéria.

2.

A palavra acima não vem sozinha, está em composição com outra palavra: sattva. E por sua formação temos o significado existência ou realidade. Temos sat + tva; na primeira um particípio presente da raiz (dhātu) √as (cl.2.), ou ’ser, existir’, por isso existente, na segunda um sufixo usado para formar nomes abstratos, e por isso o significado acima. E preferi priorizar realidade por causa do teor filosófico da palavra sânscrita - já explico.

3.

E por último a primeira palavra do sūtra, dhīvat, cuja raiz significa refletir, perceber. E seu significado completo “aquele que possui o ato de refletir, perceber, inteligir”.

Explicação:

Como falei, optei pela palavra realidade para traduzir sattva, porque a existência em si tem três qualidades (guṇa), e dessas qualidades, a sattva tem um efeito ascensional, ou seja, de elevação, e, portanto, de um “estágio” em que é possível entender a existência e suas nuances de forma mais completa. Só que o sūtra vai ainda mais longe, ele não fala só dessa realidade, fala de uma perfeição, ou, dos poderes gerados a partir deste guṇa.

Só que (e agora o detalhe mais importante do sūtra) esta perfeição só é alcançada pelos inteligentes, por aqueles que refletem, percebem, e não por qualquer um. Só o inteligente é capaz de perceber a perfeição da realidade.

***

Com este post estréio minha participação (à convite do maestro Leandro Oliveira) no site Ocidentalismo

… que espero que tenha muitos anos de vida!

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O que uma tradução mal feita faz. (yoga vs. união – Segunda Parte)

Publicado sob a(s) categoria(s) Língua, Sânscrito, Yoga em 23 de julho de 2010

maos-dadas

Minha proposta aqui é o de rever a tradução de uma palavra em sânscrito (yoga) que gerou uma idéia filosófica diferente da que deveria gerar. Não tenho pretensão que ela seja aceita ou trocada pela que é adotada hoje, mas só a de acrescentar um significado mais exato, e que transpareça sua idéia filosófica original.

O significado comumente dado à palavra yoga é união. Não é isso?

Yoga, para muitos, é unir.

Mas o que é união? Já pensaram nisso?

Num dos tratados mais antigos de etimologia (em sânscrito), o Nirukta, é dito que:

नामान्याख्यातजानीति

nāmānyākhyātajānīti (1.12)

Os nomes derivam dos verbos.

Então, levando esta frase em conta, mesmo para o português, vamos ao verbo.

União = unir. O dicionário Aurélio coloca como primeira acepção para o verbo unir:

“Tornar em um só; unificar.”

Já no dicionário Houaiss a primeira acepção para unir é:

“Aproximar, formando um todo.”

E parece-me que o significado para unir mais aceito é este mesmo:

“formar um todo, tornar um só.”

Mas ambos os dicionários também colocam como acepção o verbo juntar.

Se formos lá no latim, encontraremos:

Unir vem de unire.

Juntar vem de jungir, que vem de jungere.

O conhecido Julius Pokorny, e seu Indogermanisches Etymologisches Wörterbuch, ou Dicionário Etimológico Indo-europeu, de 1959, definiu a diferença de significado dos dois verbos, e daí deduzimos que, originalmente, unir e juntar não significam a mesma coisa. Vejam como Pokorny classifica-os a partir do indo-europeu:

  1. i̯eu-, i̯eu̯ə-, i̯eu-g- > jungo, jungere, junxi, junctus - ‘jungir , juntar, atar junto’.
  2. oi-no-, oi-u̯o- >  unio, unīre - ‘unir, ser um’.

E aqui entra minha explicação etimológico-filosófica para a palavra yoga:

Yoga vem da raiz yuj (dhātu), que significa jungir, atar, juntar, originalmente.

Se traduzimos yoga como unir, união, falamos de duas coisas que se tornam uma só, e, portanto, perdem sua individualidade, perdem o “princípio” que as faz serem quem são.

Se a traduzimos como jungir, juntar, junção, falamos de duas coisas que se aproximam sem perder sua individualidade, sem perder esse “princípio”.

OBS:

A primeira acepção em inglês do dicionário Monier Williams para a raiz yuj é:

“to yoke”.

E no Dhātupāṭhaḥ (listagem das raízes verbais do sânscrito) sua única acepção é:

yoge“.

Percebem a semelhança? A única mudança foi a da letra gutural “k” pela gutural “g”.   

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O que uma tradução mal feita faz. (yoga vs. ioga – Primeira Parte)

Publicado sob a(s) categoria(s) Língua, Sânscrito, Yoga em 14 de julho de 2010

yoga-devanagari

Sempre quando começo meus cursos de sânscrito, uma das primeiras questões que os alunos pedem para eu explicar é a palavra ioga. É ioga ou yoga - perguntam.

Geralmente perguntam em relação à pronúncia. E a explicação é simples: quando esta palavra for pronunciada em sua origem sânscrita, pronuncia-se com “o” fechado, pois no sânscrito não existe vogal aberta (”ó” ou “é”); e quanto a grafia, grafamos com “y” quando também é sânscrito, porque na transliteração oficial usamos esta letra latina - que foi adotada pelo alfabeto latino (do alfabeto grego) a partir da conquista da Grécia (I a.C) - para grafar a letra correspondente ao seu som (fonema) no alfabeto devanāgari, adotado pelo sânscrito.

O mesmo fenômeno que aconteceu com inúmeras palavras de outras origens que foram adotadas pela língua portuguesa, aconteceu com a palavra ioga. Por que não se escreve esta palavra com o “y” original da transliteração oficial se a temos no alfabeto latino?

Questão histórica. No Brasil, a letra “y” foi abolida do Formulário Ortográfico de 1943, e restaurada só no Acordo Ortográfico de 1990, que só entrou em vigor em 2009. Todas as palavras previamente grafadas com “i” no lugar de “y” continuaram como estavam.

E quando ela veio para o português como ioga, a pronúncia certa é com “o” aberto, pois há um fenômeno na língua conhecido como altura vocálica feita para diferenciar silabas tônicas de átonas ( i - o - ga ), e como é uma paroxítona (terminada em “a”), não se usa o acento gráfico. Portanto, grafias esdrúxulas como “yôga” estão erradas porque nem no sânscrito há acento gráfico, nem em português coloca-se acento em paroxítona com “a” final. Assim, tanto ioga (com “o” aberto), quanto yoga (com “o” fechado) estão corretas se falamos da primeira como português, e da segunda como sânscrito.

Mas o que me incomoda com a palavra yoga não é a pronúncia “errada”, e sim o significado comumente aceito.

Já volto para explicar o porquê deste incômodo.

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Les liaisons dangereuses.

Publicado sob a(s) categoria(s) Filosofia em 31 de maio de 2010

descartes-metitatione

Este semestre estou cursando uma matéria de filosofia moderna na UFF (não que eu me atraia pela filosofia desta época, mas é uma daquelas obrigatórias a ser cursada), e lendo pela primeira vez as Meditações Metafísicas, do Descartes. Nada muito interessante, ou que me fizesse pular da cadeira com uma descoberta. Parece-me que o français dá volta e mais voltas sem chegar a lugar algum, todo o tema da dúvida, por exemplo, pode bem ser encontrado no darśana nyāya sem aquele psicologismo todo, e, portanto, sem ego.

Mas duas coisas intrigaram-me ao pesquisar o filósofo francês, dois de seus insights. O primeiro não se encontra nas Meditações, mas em sua obra Princípios da Filosofia (em sua Carta-Prefácio); trata-se de sua famosa metáfora da árvore. O que me intrigou é que ela pode ser encontrada (bem parecida) na bhagavad gītā, na estrofe 1 do capítulo 15.

ऊर्ध्वमूलम्  अधशाखम् अश्वत्थं प्राहुर् अव्ययम

छन्दांसि यस्य पर्णानि  यस् तं वेद स वेदवित्

ūrdhvamūlam adhaśākham aśvatthaṁ prāhur avyayam

chandāṁsi yasya parṇāni yas taṁ veda sa vedavit

Eles dizem da eterna aśvattha, (com sua) raiz para cima e seu ramo para baixo,

cujas folhas (são) os hinos (védicos), (que) quem a conhece, é conhecedor do Veda.

(OBS: A árvore  aśvattha é da família das figueiras, em português significa “lugar de cavalo”, isso por conta de suas folhas fazerem boa sombra e servir de descanço para os animais, é tida como sagrada, inclusive por causa da gītā, e aqui no Rio de Janeiro é possível encontrá-la em alguns lugares, como ao redor da praça Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, ou beirando o canal do Leblon.)

René Descartes (Princípios da Filosofia):

“Ainsi toute la philosophie est comme un arbre, dont les racines sont la métaphysique, le tronc est la physique et les branches qui sortent de ce tronc sont toutes les autres sciences qui se réduisent à trois principales, à savoir la médecine, la mécanique et la morale (…).”

As raízes estão para cima, porque é de cima (de um plano metafísico, portanto, falamos de um conhecimento metafísico) que o ramo (o conhecimento físico, deste mundo) tem sua nutrição (sua base), e lá, na gītā, as folhas são os hinos védicos, ou seja, os diversos tipos de conhecimento; sendo que a gītā vai além, ao dizer que “quem a conhece” é um “conhecedor do Veda” (que pode ser usado aqui genericamente como “conhecimento”).

É uma metáfora importante que vem nos dar um símbolo para a idéia de conhecimento, e de como ele se dá neste mundo, qual sua fonte, onde se nutre.

Já o segundo insight é da obra Meditações, está relacionado às falsas ilusões, e se parece bastante com um adágio do śaṅkara:

ब्रह्म सत्यम् जगन् मिथ्या  जीवो ब्रह्मैव नापरः

brahma satyam jagan mithyā  jīvo brahmaiva nāparaḥ

O Absoluto (é) verdadeiro, o mundo (é) falso; a alma e o Absoluto não (são) opostos.

O filósofo francês nos diz que:

“Je penserai que le ciel, l’air, la terre, les couleurs, les figures, les sons et toutes les choses extérieures que nous voyons, ne sont que des illusions et tromperies, (…)”

“Pensarei que o céu, o ar, a terra, as cores, as figuras, os sons e todas as coisas exteriores que vemos não passam de ilusões e enganos, (…)”

(Meditação Primeira [12], trad. Maria Ermantina Galvão, ed. Martins Fontes)

Não que eu concorde com o jaganmithyā (o mundo é falso), mas é um ponto de vista de śaṅkara, e, portanto, comum à tradição vedantina.

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Durezza nel core.

Publicado sob a(s) categoria(s) Filosofia, Língua em 06 de maio de 2010

coracao-na-mao

Tenho andado bem ocupado, por isso não tenho colocado nada aqui.

Mas tenho meditado numa palavra em sânscrito, que por sua vez leva-me ao verso 15 do capítulo 15 da bhagavad gītā:

A palavra é hṛdaya, ou ‘coração’. Podemos analisá-la assim:

hṛdaya > hṛd > hṛ = tirar, oferecer, suportar.

Minha meditação tem sido em cima destas três acepções da raiz (dhātu) aí acima.

Pensem nelas e em como o coração está ligado (metaforicamente) às acepções!

Toda palavra (nome) em sânscrito vem de uma raiz (dhātu), que é responsável por um dos significados (o mais profundo) da palavra em questão. No sânscrito, a filosofia da linguagem não é uma especulação mental, tipo a encontrada em Wittgenstein, não, ela vem da própria palavra, de sua raiz. É daí que extraímos o significado profundo de um objeto que a palavra (a escrita) denomina.

Já o verso (śloka) diz assim:

सर्वस्य  चाहं  हृदि  संनिविष्टो

sarvasya cāhaṁ hṛdi saṁniviṣṭo

E Eu estou adentrado no coração de todos.

É o que Kṛṣṇa diz a Arjuna numa das estrofes mais lindas da gītā.

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Educação, liberdade & sânscrito.

Publicado sob a(s) categoria(s) Educação, Sânscrito em 23 de fevereiro de 2010

lapis-de-cor

Ao ler o texto do Pedro Sette, que se refere, por sua vez, a outros dois artigos, ambos muito bons também; um dos temas abordados: liberdade, me fez lembrar mais uma vez da educação. E não foi a abordagem dos três textos, mais política, que gritou uníssona em meus ouvidos, não, foi o simples fato de comprovar again o quanto a tão vilipendiada liberdade é importante para o amadurecimento individual e social.

Parece-me que aqui no Brasil, quando os políticos (i.e. governo) falam de educação, o conhecimento e a liberdade não estão inclusos. Após ler a reportagem sobre a escola de Londres que adotou o sânscrito compulsoriamente em seu currículo, imaginei se por aqui seria possível tal empreendimento. Não seria. Talvez não pela má vontade, mas pelo excesso de burocracia para empreender algo semelhante quando fora do ciclo básico de disciplinas. O detalhe maior deste exemplo de Londres é não se tratar de uma escola hindu ou com características orientais. É uma escola inglesa típica e  tradicional. Que adotou o sânscrito por uma comprovação do quanto esta língua ajuda na apreensão de outros conhecimentos, e outro detalhe, que não os védicos.

Não tenho nada contra o Estado proporcionar educação e escolher o currículo que quiser para suas escolas. Mas que ele faça isso para todas as escolas fora do âmbito público já é um absurdo, uma forma de simplificar (tornar simplista) um processo tão rico e tão importante. Paremos para pensar: aqui no Brasil só há um tipo de escola, sem a menor possibilidade de haver outro, porque um tal de Parâmetros do Currículo Nacional não só diz o que você tem de aprender, mas como tem de aprender. E se todos aprendem as mesmas disciplinas de um único modo, não há como aquela disciplina se desenvolver, não há como o indivíduo ter a real experiência daquilo que supostamente aprende, porque educação é bem parecido a um processo alquímico: você tem de se transformar naquilo que conhece, nem que seja em poucos minutos, só para ter a experiência cognitiva do assunto.

E convenhamos, na escola brasileira de hoje isso é impossível, salvo raríssimas exceções.

*****

É por essas e outras que se eu fosse propor alguma campanha na Educação, proporia uma assim:

Educação livre, educadores livres!

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Os números cantam.

Publicado sob a(s) categoria(s) Língua, Sutra, Sânscrito em 24 de janeiro de 2010

math-music

Eu nunca fui bom em matemática, pegava o básico fácil, mas as equações e problemas mais complicados eu praticamente decorava (tenho uma memória ótima) para passar.

Mas confesso: de longe, ela sempre me fascinou.

E agora, depois de anos, volto à matemática através do sânscrito. Traduzo, no momento, os 16 sūtra vindos do atharva veda (portanto, tão antigos quanto esta obra) e redescobertos por Bharati Krishna Tirthaji; estes sūtra são a base da Matemática Védica. Nunca foram traduzidos diretamente para a língua portuguesa.

Todo sūtra é acompanhado por outro que complementa a regra. Este aqui é o primeiro:

एकाधिकेन पूर्वेन

ekādhikena pūrvena

Por um a mais ao antecedente.

eka-adhikena - por um ‘a mais’, adicional; pūrvena - por antecedente, anterior, prévio.

OBS: O um aí é logicamente o numeral, o sânscrito não possui artigo indefinido.

आनुरूप्येण

ānurūpyeṇa

Por conformidade.

ānu-rūpa - com-forma

Esta regra serve para tudo o que se pode contar, o tempo inclusive, que, aliás, também age por conformidade, por proporcionalidade tanto quanto os números, chamados naturais.

E esta conformidade não é só numérica; percebam os eventos mais básicos da natureza!

*****

Depois de traduzidos, quero ver se consigo publicar em alguma revista de matemática. Seria muito legal…

Update - notas linguísticas & filosóficas + links

As três palavras dos sūtra acima estão no 3º caso (os casos declináveis em sânscrito são nomeados por números ordinais do primeiro ao oitavo), chamado de Instrumental.

Sendo assim, a melhor preposição para acompanhá-lo é o por. No entanto, ao traduzir a palavra pūrvena, usei a preposição a em composição ao artigo o (que neste caso não tem tanta importância) ao invés do por habitual. É óbvio que o por ali seria bem forçado, e o em contraido ao artigo (no) eu forçaria o sânscrito, já que esta preposição é mais usada para o 7º caso, ou Locativo. A escolha do a veio com o sentido de “movimento do um para o anterior” (1+1, 2+1, 3+1, etc.), o numeral é sempre o mesmo, um, e a quantidade, portanto, também. Esse detalhe é importante? É, e muito.

Vejam. E aqui entro num ponto mais filosófico.

A natureza do um sempre é a mesma. Já a natureza do “antecedente” é deixada de lado:

… o 1 vira 2 ao ser somado ao 1, o 2 vira 3, e assim sussessivamente.

Temos aí o movimento do 1 para o “antecedente”, e não o contrário. Resumindo:

A natureza de um número muda logo quando 1 é acrescentado a ele, já a natureza do 1 só muda uma vez, quando ele é apenas o primeiro desses “antecedentes”, que somado ao 1, vira 2.

Por isso, só o 1 (eka) se movimenta. E assim temos a acepção da preposição a indicada.

OBS:

1) Esta explicação é aplicável somente ao sūtra com a palavra em questão.

2) E vejam que no mesmo sūtra há outro caso do mesmo caso, por assim dizer.

*****

Você poderá saber mais sobre Matemática Védica aqui. E uma explicação matemática da maioria dos 16 sūtra aqui. Agora, se quiser mandar ver, compre este livro. Ou leia um resumo dele aqui.

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Uma outra gramática.

Publicado sob a(s) categoria(s) Filosofia, Língua em 20 de dezembro de 2009

livro-sanscrito

कवर्गादिषु  माहेश्वर्याद्याः पशुमातरः

kavargādiṣu māheśvaryādyāḥ paśumātaraḥ

Māheśvarī e etc., mães das criaturas, estão nas consoantes.   (śiva sūtra, 3.20)

kavargādiṣu - nas consoantes (da letra “k” em diante);

māheśvaryādyāḥ - Māheśvarī e etc.;

paśumātaraḥ - mães das criaturas.

Este é o sūtra 20 da terceira parte do śiva sūtra.

Assim como em outras línguas, o sânscrito também tem um simbolismo em suas letras e alfabeto, na forma como se apresentam, na estrutura, na ordenação das palavras, em sua gramática. A chamada vyakāraṇa, ou gramática, é uma das três disciplinas dedicadas à língua (as outras: śikṣā, fonética; e nirukta, etimologia) da educação tradicional védica, ou vedāṅga (que se parece, nesta parte, com a educação do trivium na época medieval - creio eu: hoje mais atual e necessária do que nunca).

*****

Quando comecei meus estudos de sânscrito seriamente em 1998 (já conhecia a língua e era fascinado por ela desde 95), depois de ter sido alfabetizado por Arthur Perez, fui me embrenhar na gramática tradicional. Na época, como o Arthur ensinava através de uma gramática ocidentalizada (e boa) de um padre jesuíta (gramática conhecida do estudante indiano, A Sanskrit Manual, de R. Antoine, S.J.), eu saí da pequena turma e fui procurar estudar da forma como há anos se estudava o sânscrito, do modo tradicional. Foi aí que eu tive a tremenda sorte (!) de receber dois conselhos; o primeiro, veio antes mesmo de começar: de estudar o sânscrito tradicionalmente; o segundo, veio logo depois que eu comecei: me dedicar a cada etapa como se fosse a mais importante. Ambos os conselhos vieram respectivamente do Swami Purushatraya e do Yadu Dasa Brahmachari, todos os dois responsáveis pela tradução e comentários da vyakāraṇa de Jīva Gosvāmī - trabalho de um primor inigualável e inédito (para a língua inglesa) até aquele momento (1996). Um deles, o Yadu, é praticamente um vyakāraṇa acārya (mestre de gramática), e fala o sânscrito fluentemente.

Ambos foram meus mestres. Se estudasse por uma gramática ocidental, acabaria por ter a dificuldade de depois estudar a tradicional, algo que normalmente acontece.

Dados biográficos à parte. Isso é para dizer que a vyakāraṇa de Jīva Gosvāmī se inicia  com um dado “histórico-teológico-metafísico” interessante:

नारायणाद्  उद्भूतो  ऽयं  वर्णक्रमः

nārāyaṇād udbhūto ‘yaṁ varṇakramaḥ (h.v.1.1)

Esta ordem das letras (alfabeto) manifestou-se de Deus (Nārāyaṇa).

O interessante desta gramática é que sua nomenclatura é toda composta pelos nomes de Deus; é chamada, assim, de Harināmāmṛta (”O Néctar dos Nomes de Hari“).

Depois de anos estudando a gramática de Jīva Gosvāmī, fui estudar a famosa gramática de Pāṇini (que inclusive é tema para meu futuro mestrado, já que sua obra influenciou a maior parte dos estudos lingüísticos no Ocidente, de língua portuguesa inclusos), tratado que também começa com um dado interessante: sua concepção fonética do alfabeto; que acredita-se revelada por Shiva, e portanto, chamada também de śiva sūtra.

Toda a língua sânscrita é permeada por esta concepção filosófico-metafísica.

Dois livros fantásticos para isso:

  • The Philosophy of Sanskrit Grammar, de Apurba Chandra Barthakuria.
  • The Philosophy of Sanskrit Grammar, de P.C. Chakravarti.

(Embora o nome seja o mesmo, as análises são diferentes.)

Até mesmo em língua portuguesa houve um estudioso que procurasse esta ‘outra gramática’ e trouxesse uma concepção fonética e metafísica dela. Falo de António Telmo, com sua Gramática Secreta da Língua Portuguesa, onde ele vai buscar em Aristóteles e também na árvore dos sephiroth toda aquela riqueza (o noús poiêtikos) que estamos a perder.

E olhe só…

O nosso Dom Pedro II, que não foi bobo, estudou sânscrito sob a orientação de C.F. Seybold.

*****

Hoje o estudo da gramática de uma língua se tornou chato, e muitos dos que ensinam as línguas não sabem e nunca procuraram esta concepção mais filosófica da linguagem, de sua gramática. Até o início do século XX, as gramáticas mais usadas nas escolas aqui do Brasil, as de Julio Ribeiro, Maximino Maciel, Ernesto Carneiro Ribeiro etc., todas eram influenciadas pela concepção filosófica da gramática, muitas vezes advindas do próprio sânscrito, mediante os primeiros estudiosos europeus da língua, como Max Müller e uns outros tantos. É este estudo, não só do sânscrito mas de língua portuguesa, que eu venho perseguindo há poucos anos; na verdade, até a relação entre estas duas línguas e o modo de estudá-las e ensiná-las sob esta concepção. Que confesso, acho mais interessante. Por essas e outras tem gente aí ‘jogando o bebê fora junto com a água do banho’ e deixando de lado a importância dos estudos gramaticais. Hoje mais necessários do que nunca.

E estudar gramática não é só estudar regrinhas de uma língua qualquer!

*****

Eu ainda volto este ano. Aguardem.

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De Anima.

Publicado sob a(s) categoria(s) Filosofia, Língua, Vedanta em 29 de setembro de 2009

dalma

Parece que não só eu estou às voltas com o problema da alma.

Este foi sempre um assunto recorrente em minhas pesquisas, até porque no vedānta ele é um daqueles três assuntos que não se pode prescindir. Saibam vocês que até mesmo o vedānta possui a discussão, em certo nível, se a alma caiu ou não “do Paraíso”. E nem estou falando de uma discussão esdrúxula, não; quatro das cinco escolas desta tradição se veem às avessas com este tema. Mas não é (ainda) o que eu quero tratar aqui.

O nosso amigo Estagirita, o Aristóteles, dedicou um tratado à alma, o Peri Psykhês, e é nele que o filósofo grego expõe sua doutrina acerca da alma. Não escreverei aqui sobre sua visão, até porque ainda me resta dúvida da relação que ele faz entre psykhê (’alma’) e ousía (’substância’); a relação existe, certamente, mas não descobri ainda qual é.

Partamos, então, para a visão vedantina.

Logo de cara posso falar que, na tradição vedānta, é como se “alma” e “substância” (na linguagem aristotélica) fossem a mesma coisa, só que a alma sendo apenas uma das três repartições dessa ’substância’ (ou śakti).

O conceito de “alma” nos textos védicos veio mudando ao longo do tempo. Não digo a noção filosófica, mas a linguística mesmo. Encontramos três palavras principais para se referir à alma. Mas é importante que se diga que a alma é um dos aspectos da realidade. Uma realidade que sempre é relacionada como igual e diferente (bhedābheda). E não só um “conceito” para tratar de algo “abstrato”.

(Um adendo: na filosofia vedānta não existe essa progressão da noção de alma, como é possível observar nos gregos, de Homero a Aristóteles.)

Três são as principais palavras usadas para descrever  a “alma”:

  • taṭastha.

(taṭa - margem; stha - partícula usada para expressar a ideia de lugar, de “situado”.)

Esta palavra tem um sentido mais filosófico que as demais, serve somente para definir a alma enquanto junta dos outros dois termos que comecei a explicar em post abaixo. Termo usado mais na literatura clássica, embora já apareça nos upaniṣad.

  • ātmā (ou ātman).

(pode derivar de duas raízes: an - respirar; at - mover). Esta palavra pode aparecer, no período védico da língua sânscrita, como um pronome reflexivo (já falei disso aqui). E faz com que uma mesma palavra, como ātmārāma, tenha dois significados:

  • ātmārāma = “auto-satisfeito”
  • ātmārāma = “que se satisfaz (em) alma”

A palavra ātmā já aparece no vedānta sūtra como alma.

E agora, não tão a mais famosa, mas talvez a mais especial:

  • jīva.

(da raiz - viver)

Mais especial porque é esta palavra a única que permite o uso de todas as acepções e noções filosóficas em torno do tema. Ela aparece em vários textos védicos e clássicos. E seu significado (na maioria das vezes) não pode ser apenas “vida”, ou algo do tipo.

Por enquanto, ficamos aqui. Com as três palavras mais (diretamente) usadas para definir a noção de alma. Mas saibam que podem existir outras palavras para se referir à alma.

Depois venho com a explicação filosófica. Referente às três palavras.

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Os rios de Baudelaire.

Publicado sob a(s) categoria(s) Literatura em 03 de setembro de 2009

baudelaire-courbet

Insouciants et taciturnes,

Des Ganges, dans le firmament,

Versaient le trésor de leurs urnes

Dans des gouffres de diamant.

(Rêve Parisien, Les Fleurs du Mal)

*****

विष्णोर्विक्रमतो  वामपादाङ्गुष्ठनख  निर्भिन्नोर्ध्वाण्डकटाहविवरेणान्तः  प्रविष्टा  या  बाह्यजलधार (…) (5.17.1)

viṣṇorvikramato  vāmapādāṅguṣṭhanakha  nirbhinnordhvāṇḍakaṭāhavivareṇāntaḥ  praviṣṭā  yā  bāhyajaladhāra (…) (Bh. Purāṇa, 5.17.1)

Um passo de Viṣṇu, de pé esquerdo, com a unha do dedão, perfurou a cobertura superior da redoma (ou, do universo), pela fissura, a reserva de água (veio) abaixo, (e) entrou.

*****

Calma, não enganei vocês quando disse que não conhecia um texto sânscrito em prosa de antes do século XIV, este aí (em prosa) é do bhāgavata purāṇa, certamente de bem antes do século descrito. Mas seu texto em prosa é uma exceção, ele “é todo poesia”, de uma sofisticação incrível, ao todo são 18.000 estrofes, a maioria dísticos, com diferentes tipos de metrificação, inclusive a não-metrificação, como aí em cima; sua divisão é feita em 12 ‘cantos’, ou skandha, com cada ‘canto’ contendo pequenos e vários capítulos, ou adhyāya (então, a numeração acima é: o ‘canto’ 5, o ‘capítulo’ 17 e a ‘estrofe’ 1).

Ainda escreverei bastante sobre o bhāgavata purāṇa, essa importante obra para quem  estuda o vedānta. E sendo assim, sempre uma excelente referência.

Mas o que tem a ver Baudelaire com isso tudo?

Já leio Les Fleurs du Mal desde que fui a França, ano passado, e estou sempre voltando aos seus poemas; fica ali na cabeceira, e aos poucos vou me embrenhando. Gosto de ler poesia procurando decorar os poemas, às vezes nem os decoro por inteiro, mas fico com um, dois ou mais versos ressoando de (em) cor. Numa dessas leituras, parei na estrofe aí do Rêve Parisien, onde o bardo, ao fazer uma suposta ‘analogia’ do Ganges com o rio Sena (poderia um ’sonho parisiense’ passar sem a figura, no caso: mítica, de um rio?), faz uma descrição exata de parte da história desse mitológico rio indiano. Não deu outra, lá fui eu consultar os purāṇa para conferir essa história novamente; daí decidi colocar no post parte de uma das principais “não-estrofes” (é prosa!) do capítulo.

Vamos à estrofe do poeta francês:

  • Ele começa a estrofe com duas qualidades: “indiferente” e “taciturno”, por suas águas e por sua natureza. Em seguida, além do nome, escreve que sua origem não é aqui, mas no “firmamento”, isso quer dizer que suas águas vêm de cima da cobertura superior da redoma, e assim, pela fissura, “deitam o tesouro de suas urnas” (ou ‘de suas águas’), “nos abismos de diamante”, aqui poderia ser uma referência aos três universos (uma ressalva: Baudelaire usa bastante essa imagem de gouffre ao longo de seus poemas).

E agora à prosa do purāṇa:

  • Aqui temos uma das descrições da origem do Ganges na literatura sânscrita. Nas estrofes desse capítulo, a primeira coisa a ser descrita é como esta origem se deu e como o “rio” chegou até a Terra. É emblemático aqui o nome de Viṣṇu, que na verdade, nesta ocasião, estava “arquetipado” como vāmana ou trivikrama, um nome (o segundo) que significa “três passos” porque foi com três passos que Ele percorreu os três universos, furando assim, com seu dedão do pé esquerdo, o que o texto coloca como “cobertura superior da redoma” (traduzo como “universo” a expressão que logo depois será cunhada com a palavra exata: jagat). Com este furo, entra nos três universos as águas do chamado Oceano Causal, o oceano que estaria na origem da criação, que uma vez dentro, teriam sido amortecidas pelo tão conhecido semideus śiva, através de seu coque de cabelo, onde ficou reservada a água até cair sobre os três universos, um deles o nosso. Por isso, alguns acabam se referindo à sua origem de modo abençoado, por suas águas terem chegado até nós pelos pés do Senhor (creio que vocês sabem a importância da tradição de “lavar os pés” no Oriente).

E não é que o Charles Baudelaire, mesmo por volta do século XIX, nem precisou de uma novela para saber com exatidão parte da origem mitológica desse rio tão famoso…

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