Arquivo para o  marcador' Sanskrit'

Durezza nel core.

Publicado sob a(s) categoria(s) Linguistics,Philosophy em 06 de May de 2010

coracao-na-mao

Tenho andado bem ocupado, por isso não tenho colocado nada aqui.

Mas tenho meditado numa palavra em sânscrito, que por sua vez leva-me ao verso 15 do capítulo 15 da bhagavad gītā:

A palavra é hṛdaya, ou ‘coração’. Podemos analisá-la assim:

hṛdaya > hṛd > hṛ = tirar, oferecer, suportar.

Minha meditação tem sido em cima destas três acepções da raiz (dhātu) aí acima.

Pensem nelas e em como o coração está ligado (metaforicamente) às acepções!

Toda palavra (nome) em sânscrito vem de uma raiz (dhātu), que é responsável por um dos significados (o mais profundo) da palavra em questão. No sânscrito, a filosofia da linguagem não é uma especulação mental, tipo a encontrada em Wittgenstein, não, ela vem da própria palavra, de sua raiz. É daí que extraímos o significado profundo de um objeto que a palavra (a escrita) denomina.

Já o verso (śloka) diz assim:

सर्वस्य  चाहं  हृदि  संनिविष्टो

sarvasya cāhaṁ hṛdi saṁniviṣṭo

E Eu estou adentrado no coração de todos.

É o que Kṛṣṇa diz a Arjuna numa das estrofes mais lindas da gītā.

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Educação, liberdade & sânscrito.

Publicado sob a(s) categoria(s) Education,Sanskrit em 23 de February de 2010

lapis-de-cor

Ao ler o texto do Pedro Sette, que se refere, por sua vez, a outros dois artigos, ambos muito bons também; um dos temas abordados: liberdade, me fez lembrar mais uma vez da educação. E não foi a abordagem dos três textos, mais política, que gritou uníssona em meus ouvidos, não, foi o simples fato de comprovar again o quanto a tão vilipendiada liberdade é importante para o amadurecimento individual e social.

Parece-me que aqui no Brasil, quando os políticos (i.e. governo) falam de educação, o conhecimento e a liberdade não estão inclusos. Após ler a reportagem sobre a escola de Londres que adotou o sânscrito compulsoriamente em seu currículo, imaginei se por aqui seria possível tal empreendimento. Não seria. Talvez não pela má vontade, mas pelo excesso de burocracia para empreender algo semelhante quando fora do ciclo básico de disciplinas. O detalhe maior deste exemplo de Londres é não se tratar de uma escola hindu ou com características orientais. É uma escola inglesa típica e  tradicional. Que adotou o sânscrito por uma comprovação do quanto esta língua ajuda na apreensão de outros conhecimentos, e outro detalhe, que não os védicos.

Não tenho nada contra o Estado proporcionar educação e escolher o currículo que quiser para suas escolas. Mas que ele faça isso para todas as escolas fora do âmbito público já é um absurdo, uma forma de simplificar (tornar simplista) um processo tão rico e tão importante. Paremos para pensar: aqui no Brasil só há um tipo de escola, sem a menor possibilidade de haver outro, porque um tal de Parâmetros do Currículo Nacional não só diz o que você tem de aprender, mas como tem de aprender. E se todos aprendem as mesmas disciplinas de um único modo, não há como aquela disciplina se desenvolver, não há como o indivíduo ter a real experiência daquilo que supostamente aprende, porque educação é bem parecido a um processo alquímico: você tem de se transformar naquilo que conhece, nem que seja em poucos minutos, só para ter a experiência cognitiva do assunto.

E convenhamos, na escola brasileira de hoje isso é impossível, salvo raríssimas exceções.

*****

É por essas e outras que se eu fosse propor alguma campanha na Educação, proporia uma assim:

Educação livre, educadores livres!

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Os números cantam.

Publicado sob a(s) categoria(s) Linguistics,Sanskrit em 24 de January de 2010

math-music

Eu nunca fui bom em matemática, pegava o básico fácil, mas as equações e problemas mais complicados eu praticamente decorava (tenho uma memória ótima) para passar.

Mas confesso: de longe, ela sempre me fascinou.

E agora, depois de anos, volto à matemática através do sânscrito. Traduzo, no momento, os 16 sūtra vindos do atharva veda (portanto, tão antigos quanto esta obra) e redescobertos por Bharati Krishna Tirthaji; estes sūtra são a base da Matemática Védica. Nunca foram traduzidos diretamente para a língua portuguesa.

Todo sūtra é acompanhado por outro que complementa a regra. Este aqui é o primeiro:

एकाधिकेन पूर्वेन

ekādhikena pūrvena

Por um a mais ao antecedente.

ekaadhikena – por um ‘a mais’, adicional; pūrvena – por antecedente, anterior, prévio.

OBS: O um aí é logicamente o numeral, o sânscrito não possui artigo indefinido.

आनुरूप्येण

ānurūpyeṇa

Por conformidade.

ānurūpa – com-forma

Esta regra serve para tudo o que se pode contar, o tempo inclusive, que, aliás, também age por conformidade, por proporcionalidade tanto quanto os números, chamados naturais.

E esta conformidade não é só numérica; percebam os eventos mais básicos da natureza!

*****

Depois de traduzidos, quero ver se consigo publicar em alguma revista de matemática. Seria muito legal…

Update – notas linguísticas & filosóficas + links

As três palavras dos sūtra acima estão no 3º caso (os casos declináveis em sânscrito são nomeados por números ordinais do primeiro ao oitavo), chamado de Instrumental.

Sendo assim, a melhor preposição para acompanhá-lo é o por. No entanto, ao traduzir a palavra pūrvena, usei a preposição a em composição ao artigo o (que neste caso não tem tanta importância) ao invés do por habitual. É óbvio que o por ali seria bem forçado, e o em contraido ao artigo (no) eu forçaria o sânscrito, já que esta preposição é mais usada para o 7º caso, ou Locativo. A escolha do a veio com o sentido de “movimento do um para o anterior” (1+1, 2+1, 3+1, etc.), o numeral é sempre o mesmo, um, e a quantidade, portanto, também. Esse detalhe é importante? É, e muito.

Vejam. E aqui entro num ponto mais filosófico.

A natureza do um sempre é a mesma. Já a natureza do “antecedente” é deixada de lado:

… o 1 vira 2 ao ser somado ao 1, o 2 vira 3, e assim sussessivamente.

Temos aí o movimento do 1 para o “antecedente”, e não o contrário. Resumindo:

A natureza de um número muda logo quando 1 é acrescentado a ele, já a natureza do 1 só muda uma vez, quando ele é apenas o primeiro desses “antecedentes”, que somado ao 1, vira 2.

Por isso, só o 1 (eka) se movimenta. E assim temos a acepção da preposição a indicada.

OBS:

1) Esta explicação é aplicável somente ao sūtra com a palavra em questão.

2) E vejam que no mesmo sūtra há outro caso do mesmo caso, por assim dizer.

*****

Você poderá saber mais sobre Matemática Védica aqui. E uma explicação matemática da maioria dos 16 sūtra aqui. Agora, se quiser mandar ver, compre este livro. Ou leia um resumo dele aqui.

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Uma outra gramática.

Publicado sob a(s) categoria(s) Linguistics,Philosophy em 20 de December de 2009

livro-sanscrito

कवर्गादिषु  माहेश्वर्याद्याः पशुमातरः

kavargādiṣu māheśvaryādyāḥ paśumātaraḥ

Māheśvarī e etc., mães das criaturas, estão nas consoantes.   (śiva sūtra, 3.20)

kavargādiṣu – nas consoantes (da letra “k” em diante);

māheśvaryādyāḥMāheśvarī e etc.;

paśumātaraḥ – mães das criaturas.

Este é o sūtra 20 da terceira parte do śiva sūtra.

Assim como em outras línguas, o sânscrito também tem um simbolismo em suas letras e alfabeto, na forma como se apresentam, na estrutura, na ordenação das palavras, em sua gramática. A chamada vyakāraṇa, ou gramática, é uma das três disciplinas dedicadas à língua (as outras: śikṣā, fonética; e nirukta, etimologia) da educação tradicional védica, ou vedāṅga (que se parece, nesta parte, com a educação do trivium na época medieval – creio eu: hoje mais atual e necessária do que nunca).

*****

Quando comecei meus estudos de sânscrito seriamente em 1998 (já conhecia a língua e era fascinado por ela desde 95), depois de ter sido alfabetizado por Arthur Perez, fui me embrenhar na gramática tradicional. Na época, como o Arthur ensinava através de uma gramática ocidentalizada (e boa) de um padre jesuíta (gramática conhecida do estudante indiano, A Sanskrit Manual, de R. Antoine, S.J.), eu saí da pequena turma e fui procurar estudar da forma como há anos se estudava o sânscrito, do modo tradicional. Foi aí que eu tive a tremenda sorte (!) de receber dois conselhos; o primeiro, veio antes mesmo de começar: de estudar o sânscrito tradicionalmente; o segundo, veio logo depois que eu comecei: me dedicar a cada etapa como se fosse a mais importante. Ambos os conselhos vieram respectivamente do Swami Purushatraya e do Yadu Dasa Brahmachari, todos os dois responsáveis pela tradução e comentários da vyakāraṇa de Jīva Gosvāmī – trabalho de um primor inigualável e inédito (para a língua inglesa) até aquele momento (1996). Um deles, o Yadu, é praticamente um vyakāraṇa acārya (mestre de gramática), e fala o sânscrito fluentemente.

Ambos foram meus mestres. Se estudasse por uma gramática ocidental, acabaria por ter a dificuldade de depois estudar a tradicional, algo que normalmente acontece.

Dados biográficos à parte. Isso é para dizer que a vyakāraṇa de Jīva Gosvāmī se inicia  com um dado “histórico-teológico-metafísico” interessante:

नारायणाद्  उद्भूतो  ऽयं  वर्णक्रमः

nārāyaṇād udbhūto ‘yaṁ varṇakramaḥ (h.v.1.1)

Esta ordem das letras (alfabeto) manifestou-se de Deus (Nārāyaṇa).

O interessante desta gramática é que sua nomenclatura é toda composta pelos nomes de Deus; é chamada, assim, de Harināmāmṛta (“O Néctar dos Nomes de Hari“).

Depois de anos estudando a gramática de Jīva Gosvāmī, fui estudar a famosa gramática de Pāṇini (que inclusive é tema para meu futuro mestrado, já que sua obra influenciou a maior parte dos estudos lingüísticos no Ocidente, de língua portuguesa inclusos), tratado que também começa com um dado interessante: sua concepção fonética do alfabeto; que acredita-se revelada por Shiva, e portanto, chamada também de śiva sūtra.

Toda a língua sânscrita é permeada por esta concepção filosófico-metafísica.

Dois livros fantásticos para isso:

  • The Philosophy of Sanskrit Grammar, de Apurba Chandra Barthakuria.
  • The Philosophy of Sanskrit Grammar, de P.C. Chakravarti.

(Embora o nome seja o mesmo, as análises são diferentes.)

Até mesmo em língua portuguesa houve um estudioso que procurasse esta ‘outra gramática’ e trouxesse uma concepção fonética e metafísica dela. Falo de António Telmo, com sua Gramática Secreta da Língua Portuguesa, onde ele vai buscar em Aristóteles e também na árvore dos sephiroth toda aquela riqueza (o noús poiêtikos) que estamos a perder.

E olhe só…

O nosso Dom Pedro II, que não foi bobo, estudou sânscrito sob a orientação de C.F. Seybold.

*****

Hoje o estudo da gramática de uma língua se tornou chato, e muitos dos que ensinam as línguas não sabem e nunca procuraram esta concepção mais filosófica da linguagem, de sua gramática. Até o início do século XX, as gramáticas mais usadas nas escolas aqui do Brasil, as de Julio Ribeiro, Maximino Maciel, Ernesto Carneiro Ribeiro etc., todas eram influenciadas pela concepção filosófica da gramática, muitas vezes advindas do próprio sânscrito, mediante os primeiros estudiosos europeus da língua, como Max Müller e uns outros tantos. É este estudo, não só do sânscrito mas de língua portuguesa, que eu venho perseguindo há poucos anos; na verdade, até a relação entre estas duas línguas e o modo de estudá-las e ensiná-las sob esta concepção. Que confesso, acho mais interessante. Por essas e outras tem gente aí ‘jogando o bebê fora junto com a água do banho’ e deixando de lado a importância dos estudos gramaticais. Hoje mais necessários do que nunca.

E estudar gramática não é só estudar regrinhas de uma língua qualquer!

*****

Eu ainda volto este ano. Aguardem.

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De Anima.

Publicado sob a(s) categoria(s) Linguistics,Philosophy,Vedanta em 29 de September de 2009

dalma

Parece que não só eu estou às voltas com o problema da alma.

Este foi sempre um assunto recorrente em minhas pesquisas, até porque no vedānta ele é um daqueles três assuntos que não se pode prescindir. Saibam vocês que até mesmo o vedānta possui a discussão, em certo nível, se a alma caiu ou não “do Paraíso”. E nem estou falando de uma discussão esdrúxula, não; quatro das cinco escolas desta tradição se veem às avessas com este tema. Mas não é (ainda) o que eu quero tratar aqui.

O nosso amigo Estagirita, o Aristóteles, dedicou um tratado à alma, o Peri Psykhês, e é nele que o filósofo grego expõe sua doutrina acerca da alma. Não escreverei aqui sobre sua visão, até porque ainda me resta dúvida da relação que ele faz entre psykhê (‘alma’) e ousía (‘substância’); a relação existe, certamente, mas não descobri ainda qual é.

Partamos, então, para a visão vedantina.

Logo de cara posso falar que, na tradição vedānta, é como se “alma” e “substância” (na linguagem aristotélica) fossem a mesma coisa, só que a alma sendo apenas uma das três repartições dessa ‘substância’ (ou śakti).

O conceito de “alma” nos textos védicos veio mudando ao longo do tempo. Não digo a noção filosófica, mas a linguística mesmo. Encontramos três palavras principais para se referir à alma. Mas é importante que se diga que a alma é um dos aspectos da realidade. Uma realidade que sempre é relacionada como igual e diferente (bhedābheda). E não só um “conceito” para tratar de algo “abstrato”.

(Um adendo: na filosofia vedānta não existe essa progressão da noção de alma, como é possível observar nos gregos, de Homero a Aristóteles.)

Três são as principais palavras usadas para descrever  a “alma”:

  • taṭastha.

(taṭa – margem; stha – partícula usada para expressar a ideia de lugar, de “situado”.)

Esta palavra tem um sentido mais filosófico que as demais, serve somente para definir a alma enquanto junta dos outros dois termos que comecei a explicar em post abaixo. Termo usado mais na literatura clássica, embora já apareça nos upaniṣad.

  • ātmā (ou ātman).

(pode derivar de duas raízes: an – respirar; at – mover). Esta palavra pode aparecer, no período védico da língua sânscrita, como um pronome reflexivo (já falei disso aqui). E faz com que uma mesma palavra, como ātmārāma, tenha dois significados:

  • ātmārāma = “auto-satisfeito”
  • ātmārāma = “que se satisfaz (em) alma”

A palavra ātmā já aparece no vedānta sūtra como alma.

E agora, não tão a mais famosa, mas talvez a mais especial:

  • jīva.

(da raiz – viver)

Mais especial porque é esta palavra a única que permite o uso de todas as acepções e noções filosóficas em torno do tema. Ela aparece em vários textos védicos e clássicos. E seu significado (na maioria das vezes) não pode ser apenas “vida”, ou algo do tipo.

Por enquanto, ficamos aqui. Com as três palavras mais (diretamente) usadas para definir a noção de alma. Mas saibam que podem existir outras palavras para se referir à alma.

Depois venho com a explicação filosófica. Referente às três palavras.

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Os rios de Baudelaire.

Publicado sob a(s) categoria(s) Literature em 03 de September de 2009

baudelaire-courbet

Insouciants et taciturnes,

Des Ganges, dans le firmament,

Versaient le trésor de leurs urnes

Dans des gouffres de diamant.

(Rêve Parisien, Les Fleurs du Mal)

*****

विष्णोर्विक्रमतो  वामपादाङ्गुष्ठनख  निर्भिन्नोर्ध्वाण्डकटाहविवरेणान्तः  प्रविष्टा  या  बाह्यजलधार (…) (5.17.1)

viṣṇorvikramato  vāmapādāṅguṣṭhanakha  nirbhinnordhvāṇḍakaṭāhavivareṇāntaḥ  praviṣṭā  yā  bāhyajaladhāra (…) (Bh. Purāṇa, 5.17.1)

Um passo de Viṣṇu, de pé esquerdo, com a unha do dedão, perfurou a cobertura superior da redoma (ou, do universo), pela fissura, a reserva de água (veio) abaixo, (e) entrou.

*****

Calma, não enganei vocês quando disse que não conhecia um texto sânscrito em prosa de antes do século XIV, este aí (em prosa) é do bhāgavata purāṇa, certamente de bem antes do século descrito. Mas seu texto em prosa é uma exceção, ele “é todo poesia”, de uma sofisticação incrível, ao todo são 18.000 estrofes, a maioria dísticos, com diferentes tipos de metrificação, inclusive a não-metrificação, como aí em cima; sua divisão é feita em 12 ‘cantos’, ou skandha, com cada ‘canto’ contendo pequenos e vários capítulos, ou adhyāya (então, a numeração acima é: o ‘canto’ 5, o ‘capítulo’ 17 e a ‘estrofe’ 1).

Ainda escreverei bastante sobre o bhāgavata purāṇa, essa importante obra para quem  estuda o vedānta. E sendo assim, sempre uma excelente referência.

Mas o que tem a ver Baudelaire com isso tudo?

Já leio Les Fleurs du Mal desde que fui a França, ano passado, e estou sempre voltando aos seus poemas; fica ali na cabeceira, e aos poucos vou me embrenhando. Gosto de ler poesia procurando decorar os poemas, às vezes nem os decoro por inteiro, mas fico com um, dois ou mais versos ressoando de (em) cor. Numa dessas leituras, parei na estrofe aí do Rêve Parisien, onde o bardo, ao fazer uma suposta ‘analogia’ do Ganges com o rio Sena (poderia um ‘sonho parisiense’ passar sem a figura, no caso: mítica, de um rio?), faz uma descrição exata de parte da história desse mitológico rio indiano. Não deu outra, lá fui eu consultar os purāṇa para conferir essa história novamente; daí decidi colocar no post parte de uma das principais “não-estrofes” (é prosa!) do capítulo.

Vamos à estrofe do poeta francês:

  • Ele começa a estrofe com duas qualidades: “indiferente” e “taciturno”, por suas águas e por sua natureza. Em seguida, além do nome, escreve que sua origem não é aqui, mas no “firmamento”, isso quer dizer que suas águas vêm de cima da cobertura superior da redoma, e assim, pela fissura, “deitam o tesouro de suas urnas” (ou ‘de suas águas’), “nos abismos de diamante”, aqui poderia ser uma referência aos três universos (uma ressalva: Baudelaire usa bastante essa imagem de gouffre ao longo de seus poemas).

E agora à prosa do purāṇa:

  • Aqui temos uma das descrições da origem do Ganges na literatura sânscrita. Nas estrofes desse capítulo, a primeira coisa a ser descrita é como esta origem se deu e como o “rio” chegou até a Terra. É emblemático aqui o nome de Viṣṇu, que na verdade, nesta ocasião, estava “arquetipado” como vāmana ou trivikrama, um nome (o segundo) que significa “três passos” porque foi com três passos que Ele percorreu os três universos, furando assim, com seu dedão do pé esquerdo, o que o texto coloca como “cobertura superior da redoma” (traduzo como “universo” a expressão que logo depois será cunhada com a palavra exata: jagat). Com este furo, entra nos três universos as águas do chamado Oceano Causal, o oceano que estaria na origem da criação, que uma vez dentro, teriam sido amortecidas pelo tão conhecido semideus śiva, através de seu coque de cabelo, onde ficou reservada a água até cair sobre os três universos, um deles o nosso. Por isso, alguns acabam se referindo à sua origem de modo abençoado, por suas águas terem chegado até nós pelos pés do Senhor (creio que vocês sabem a importância da tradição de “lavar os pés” no Oriente).

E não é que o Charles Baudelaire, mesmo por volta do século XIX, nem precisou de uma novela para saber com exatidão parte da origem mitológica desse rio tão famoso…

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Fios de ouro.

Publicado sob a(s) categoria(s) Apps em 26 de August de 2009

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No primeiro post deste site cheguei a comentar por alto que existem seis tipos de sūtra, este gênero literário muito comum para as filosofias orientais, e muitas vezes traduzido por aforismo, embora sua tradução correta seja simplesmente “fio”. O propósito de sua brevidade é mnemônico, ou seja, ser retido na memória, uma prática constante para um estudante de tradições orientais. São mais famosos quando ligados à filosofia, mas, por exemplo, a gramática tradicional do sânscrito encontra-se neste gênero, e muitas outras obras de origem diferente. Sua história (sim, ele tem uma historinha) remonta os idos da chamada kali yuga (que chamarei, por enquanto, de “a última das quatro eras”, para não entrar em detalhes cosmológicos), esta era que tendo os humanos uma vida mais curta e uma memória ineficaz, precisariam de um gênero textual fácil de reter e levar para onde quisessem ir e debater. Mas um detalhe, e o que torna o sūtra ainda mais interessante: o gênero textual que conhecemos como prosa não existia na literatura sânscrita talvez até o século XIV (digo ‘talvez’ por já ter lido um texto em prosa desta época e ainda não ter conhecido nada neste gênero antes disso; se alguém aí souber de outra época, avise-me), isso quer dizer que praticamente tudo (deem-me a permissão da dúvida…) escrito nela é poesia. (Em outra hora, em outro post, falarei da importância do estudo da linguagem e, particularmente, da poesia nesta literatura.)

Então, vamos aos seis tipos de sūtra:

  • saṁjñā – uma ‘definição’.
  • paribhāṣā – uma ‘chave para interpretação’.
  • vidhi – uma ‘regra geral’. 
  • niyam – uma ‘regra restritiva’.
  • adhikāra – uma ‘regra primeira’ ou ‘governante’.
  • atideśa – uma ‘extensa aplicação por analogia’.

Lembrando que as palavras sânscritas acima correspondem a termos técnicos, por isso seus significados não são necessariamente literais. Isso é comum no sânscrito.

Como escreveu Shakespeare, em Hamletbrevity is the soul of wit.

Alguém aí já suspeita que tipos de sūtra temos no post anterior?

OBS: Este post dá início à categoria ‘Aplicativo’, para assuntos estruturais, de método.

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A terceira máscara.

Publicado sob a(s) categoria(s) Philosophy em 08 de August de 2009

mascaras

Traduzido do śiva sūtra; obra escrita por Vasugupta (VII d.C.), e um dos principais tratados filosóficos da tradição Trika do Shaivismo (śaiva) de Kashmir.

नर्तक  आत्मा

nartaka  ātmā (3.9)

A alma (é) o ator.

nartaka – ator, dançarino; ātmā – alma, auto.

रङ्गो अन्तरात्मा

raṅgo antarātmā (3.10)

A ‘Alma Suprema’ (é) o palco.

raṅgaḥ – o palco; antarātmā – ‘Alma Suprema’ (alma interna).

प्रेक्षकानीन्द्रियाणि

prekṣakānīndriyāṇi (3.11)

Os espectadores (são) os sentidos.

prekṣakāni – os espectadores; indriyāṇi – os sentidos.

Sem ainda falarmos da metáfora, duas palavras são bem interessantes nestes sūtra: a palavra ātmā e a palavra antarātmā. A base desta é a mesma daquela, a raiz verbal at, ou “mover”, que dá origem à palavra ātmā, embora ela também tenha ligação com a raiz an, ou “respirar”. Só que não foi assim desde o início, a palavra ātmā antes era um pronome reflexivo (poderíamos traduzir por “auto”, do grego autós: ‘si mesmo’, ‘si próprio’), e mais tarde, descoberta a relação com sua raiz, foi tomada por “alma” para designar algo que ‘move a si mesmo’, sem necessidade de ‘ser movida’ por nada. Pelo contrário, da “alma” viria o ‘movimento’ para tudo. No entanto, aqui temos, na segunda palavra, um avyaya (‘palavra indeclinável’): antar. Esta é a palavra que composta à outra, vai gerar um significado diferente para a sequência dos dois sūtra, e naturalmente mais filosófico-metafísico. É o seguinte:

  • A palavra antarātmā pode, em contexto filosófico, ser sinônima de paramātmā, ou “Alma Suprema”, que em uma trindade divina, seria a manifestação de Deus como onipenetrante, e, portanto, ‘dentro de tudo’. Isso quer dizer que todos os seres vivos (e chamo de ‘ser vivo’ tudo que combine ‘corpo’ e ‘alma’) não só têm uma alma, mas duas. A ‘alma’ (que somos nós) e a ‘Alma’ (que é suprema, e por isso, uma das manifestações da trindade divina). Então, neste composto de corpo e alma, temos também outra Alma. Sendo assim, quando a tradição śaiva ou a tradição yoga proclamam uma busca do “deus interior”, na verdade nem a primeira nem a segunda estão proclamando que “todos somos deuses”, mas que temos um Deus onipenetrante que também habita em nós. É uma evidência para a grande confusão do “somos Deus”, coisa que não é aceita pelos textos védicos e nem por uma tradição como a do vedānta. Como aqui é um pouco diferente, por falar da tradição śaiva, pode parecer errado essa análise, mas não, vê-se até pelos sūtra a possibilidade dela neste contexto.

E agora vamos à análise da metáfora:

  • A primeira: “a alma é o ator”. Porque a alma é quem age, e isso parece evidente. É o ator que dá vida ao personagem, sendo personagem o João, a Maria, etc. É a identificação com o personagem (com o corpo, melhor dizendo) que faz surgir a dualidade, e olha que interessante: o śiva sūtra é escrito (ou revelado) para nos alertar dessa dualidade, é seu principal objetivo. Como foi falado, a alma é quem dá o movimento (ou vida) à matéria.
  • A segunda: “a Alma Suprema é o palco”. Como explicado acima, antarātmā aqui é sinônimo de paramātmā, e traz a ideia de palco como ‘testemunha’, pois o que é um ator sem palco?! É em cima do palco que ele mostra quem é. Por isso, temos o ‘palco’ (ou “Alma Suprema”) como a ‘testemunha’ das ações do ‘ator’ (ou alma). Essa metáfora também é encontrada em um texto clássico como o upaniśad: onde dois pássaros estão em cima de uma árvore, enquanto um deles age interminavelmente (a alma), o outro é uma testemunha de suas ações (a Alma Suprema).
  • A terceira: “os espectadores são os sentidos”. E como espectadores eles podem, e devem, estar atentos ao ator (a alma) ou dispersos no espetáculo (que é tudo, e não o ator, ou alma). A ideia é que os sentidos estejam conectados à alma; sendo diferente, estarão dispersos, e, portanto, sujeitos à dualidade. O que acontece se o espectador não presta atenção ao ator? Ele prestará atenção a tudo: cenografia, direção, luz, tudo que não seja o ator (a alma). Os sentidos devem ser expressões da alma. (E olha que uma bela teoria da arte surgiu daqui…)

Outro ponto legal: a palavra nartaka vem da raiz nṛt, ou “dançar”, por isso ‘dançarino’. E aqui cabe dizer que śiva é o rei da dança, ou natarāja, e esta dança é a que destrói os universos após um ciclo de yuga, ou eras. (Aí já entro em questões cosmológicas…)

É uma bela metáfora. Que para mim particularmente é cara, pois adoro teatro. Também são sentenças interessantes para entender a questão da palavra ātmā, tão comum para os estudantes da literatura sânscrita. E de “adendo” falei da segunda manifestação de Deus, paramātmā, a primeira está no post anterior: brahman. (Mas volto a falar do assunto.)

Para os estudantes de Aristóteles, o que descrevo como ātmā é o mesmo que psykhé, ou anima, só que para a filosofia vedānta não há diferença entre alma e substância (psykhé e ousía), ambas são a mesma coisa.

PS: No momento, eu e o Pablo (o artífice deste site, e meu amigo) estamos traduzindo, e já na terceira e última parte, este śiva sūtra. Temos objetivo de publicá-lo.

OBS: As palavras em sânscrito serão sempre escritas em letra minúscula e no singular.

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Ato Primeiro. Cena I.

Publicado sob a(s) categoria(s) Philosophy,Vedanta em 07 de June de 2009

sanskrit21

अथातो ब्रह्मजिज्ञासा

athāto brahmajijñāsā 1.1.1

Agora, portanto, (esteja) desejoso por conhecer o Absoluto.

atha: agora, assim; ataḥ: portanto;  brahmajijñāsā: desejoso por conhecer o Absoluto (examinar, indagar ‘sobre’ Brahman)

É assim que começa o vedānta-sūtra. Um dos principais tratados da filosofia vedānta.

Algumas características sobre o sūtra e a língua:

  • este sūtra é (dos seis tipos) chamado de adhikāra, que dá uma ‘regra primeira’ ou ‘governante’ (que introduz um assunto).
  • a palavra que dá início ao sutra: atha (‘agora’), geralmente é responsável por iniciar uma dissertação. É comum a literatura em sūtra começar desta forma.
  • o ‘verbo de ligação’ encontra-se implícito, como é comum encontrá-lo.
  • a palavra ataḥ, ‘portanto’, é bem peculiar: significa que o que foi dito antes, de certa forma, leva ao ponto principal deste sūtra , e desta obra.
  • a palavra brahman vem da raiz verbal bṛh, que significa ‘expandir’, e pode ser traduzida por ‘Absoluto’ (não Deus, depois explico o porquê). Ela está composta de outra palavra (jijñāsā), cuja raiz jñā significa ‘conhecer’, e aqui está no desiderativo, portanto: ‘desejo de conhecer’.

Temos também na palavra jijñāsā a ideia de ‘indagar’, e no sūtra como todo, uma ideia de busca ‘pela questão primeira’, porque uma vez que se conheça o ‘princípio das coisas’, conhece-se tudo o mais. Esta é a exortação aqui.

Embora a ideia de ‘alma’ não se encontre tão explícita quanto a de ‘Absoluto’, podemos deduzir seu aparecimento devido a natureza do verbo ‘conhecer’, pois quem ‘conhece’ é a alma, e quem ‘deseja’ também é a alma; então, na palavra desiderativa temos a alma.

Temos aí dois atributos da alma: desejar e conhecer. E sua relação com o Absoluto.

OBS: O interessante é que na Metafísica de Aristóteles, na primeira frase está explícita duas ideias deste sūtra: “o homem por natureza deseja saber” (eidénai orégontai).

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