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Inteligência & Realidade.

Publicado sob a(s) categoria(s) Philosophy,Sanskrit em 11 de August de 2010

inteligencia

Esta semana passei por mais uma etapa da edição do śiva sūtra.

E revisando um dos sūtra, fiquei tentado a comentá-lo, como se faz tradicionalmente.

Na terceira e última parte da obra, encontramos:

धीवशात् सत्त्वसिद्धिः

dhīvaśāt sattvasiddhiḥ

Do inteligente, a perfeição da realidade. (3.12)

dhīvaśāt (m. abl. sing. √dhī + vat ‘perceber’, ‘refletir’) – do inteligente.

sattva (n.) – existência, realidade.

siddhiḥ (f. nom. sing. √sidh ‘ser consumado, consolidado’) – consumação, perfeição.

1.

Traduzi a palavra siddhi aqui como perfeição porque denota um objetivo consolidado e estágio final de qualquer processo – isso falando de forma geral. Já especificamente, um significado bastante adotado (e verdadeiro) é poder místico, devido a associação àqueles que se dedicam a uma vida ascética. Mas lembrando: esses ‘poderes’ não constituem um legado espiritual propriamente dito, pois trata-se de ‘poderes místicos’ sobre a matéria.

2.

A palavra acima não vem sozinha, está em composição com outra palavra: sattva. E por sua formação temos o significado existência ou realidade. Temos sat + tva; na primeira um particípio presente da raiz (dhātu) √as (cl.2.), ou ‘ser, existir’, por isso existente, na segunda um sufixo usado para formar nomes abstratos, e por isso o significado acima. E preferi priorizar realidade por causa do teor filosófico da palavra sânscrita – já explico.

3.

E por último a primeira palavra do sūtra, dhīvat, cuja raiz significa refletir, perceber. E seu significado completo “aquele que possui o ato de refletir, perceber, inteligir”.

Explicação:

Como falei, optei pela palavra realidade para traduzir sattva, porque a existência em si tem três qualidades (guṇa), e dessas qualidades, a sattva tem um efeito ascensional, ou seja, de elevação, e, portanto, de um “estágio” em que é possível entender a existência e suas nuances de forma mais completa. Só que o sūtra vai ainda mais longe, ele não fala só dessa realidade, fala de uma perfeição, ou, dos poderes gerados a partir deste guṇa.

Só que (e agora o detalhe mais importante do sūtra) esta perfeição só é alcançada pelos inteligentes, por aqueles que refletem, percebem, e não por qualquer um. Só o inteligente é capaz de perceber a perfeição da realidade.

***

Com este post estréio minha participação (à convite do maestro Leandro Oliveira) no site Ocidentalismo

… que espero que tenha muitos anos de vida!

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Uma outra gramática.

Publicado sob a(s) categoria(s) Linguistics,Philosophy em 20 de December de 2009

livro-sanscrito

कवर्गादिषु  माहेश्वर्याद्याः पशुमातरः

kavargādiṣu māheśvaryādyāḥ paśumātaraḥ

Māheśvarī e etc., mães das criaturas, estão nas consoantes.   (śiva sūtra, 3.20)

kavargādiṣu – nas consoantes (da letra “k” em diante);

māheśvaryādyāḥMāheśvarī e etc.;

paśumātaraḥ – mães das criaturas.

Este é o sūtra 20 da terceira parte do śiva sūtra.

Assim como em outras línguas, o sânscrito também tem um simbolismo em suas letras e alfabeto, na forma como se apresentam, na estrutura, na ordenação das palavras, em sua gramática. A chamada vyakāraṇa, ou gramática, é uma das três disciplinas dedicadas à língua (as outras: śikṣā, fonética; e nirukta, etimologia) da educação tradicional védica, ou vedāṅga (que se parece, nesta parte, com a educação do trivium na época medieval – creio eu: hoje mais atual e necessária do que nunca).

*****

Quando comecei meus estudos de sânscrito seriamente em 1998 (já conhecia a língua e era fascinado por ela desde 95), depois de ter sido alfabetizado por Arthur Perez, fui me embrenhar na gramática tradicional. Na época, como o Arthur ensinava através de uma gramática ocidentalizada (e boa) de um padre jesuíta (gramática conhecida do estudante indiano, A Sanskrit Manual, de R. Antoine, S.J.), eu saí da pequena turma e fui procurar estudar da forma como há anos se estudava o sânscrito, do modo tradicional. Foi aí que eu tive a tremenda sorte (!) de receber dois conselhos; o primeiro, veio antes mesmo de começar: de estudar o sânscrito tradicionalmente; o segundo, veio logo depois que eu comecei: me dedicar a cada etapa como se fosse a mais importante. Ambos os conselhos vieram respectivamente do Swami Purushatraya e do Yadu Dasa Brahmachari, todos os dois responsáveis pela tradução e comentários da vyakāraṇa de Jīva Gosvāmī – trabalho de um primor inigualável e inédito (para a língua inglesa) até aquele momento (1996). Um deles, o Yadu, é praticamente um vyakāraṇa acārya (mestre de gramática), e fala o sânscrito fluentemente.

Ambos foram meus mestres. Se estudasse por uma gramática ocidental, acabaria por ter a dificuldade de depois estudar a tradicional, algo que normalmente acontece.

Dados biográficos à parte. Isso é para dizer que a vyakāraṇa de Jīva Gosvāmī se inicia  com um dado “histórico-teológico-metafísico” interessante:

नारायणाद्  उद्भूतो  ऽयं  वर्णक्रमः

nārāyaṇād udbhūto ‘yaṁ varṇakramaḥ (h.v.1.1)

Esta ordem das letras (alfabeto) manifestou-se de Deus (Nārāyaṇa).

O interessante desta gramática é que sua nomenclatura é toda composta pelos nomes de Deus; é chamada, assim, de Harināmāmṛta (“O Néctar dos Nomes de Hari“).

Depois de anos estudando a gramática de Jīva Gosvāmī, fui estudar a famosa gramática de Pāṇini (que inclusive é tema para meu futuro mestrado, já que sua obra influenciou a maior parte dos estudos lingüísticos no Ocidente, de língua portuguesa inclusos), tratado que também começa com um dado interessante: sua concepção fonética do alfabeto; que acredita-se revelada por Shiva, e portanto, chamada também de śiva sūtra.

Toda a língua sânscrita é permeada por esta concepção filosófico-metafísica.

Dois livros fantásticos para isso:

  • The Philosophy of Sanskrit Grammar, de Apurba Chandra Barthakuria.
  • The Philosophy of Sanskrit Grammar, de P.C. Chakravarti.

(Embora o nome seja o mesmo, as análises são diferentes.)

Até mesmo em língua portuguesa houve um estudioso que procurasse esta ‘outra gramática’ e trouxesse uma concepção fonética e metafísica dela. Falo de António Telmo, com sua Gramática Secreta da Língua Portuguesa, onde ele vai buscar em Aristóteles e também na árvore dos sephiroth toda aquela riqueza (o noús poiêtikos) que estamos a perder.

E olhe só…

O nosso Dom Pedro II, que não foi bobo, estudou sânscrito sob a orientação de C.F. Seybold.

*****

Hoje o estudo da gramática de uma língua se tornou chato, e muitos dos que ensinam as línguas não sabem e nunca procuraram esta concepção mais filosófica da linguagem, de sua gramática. Até o início do século XX, as gramáticas mais usadas nas escolas aqui do Brasil, as de Julio Ribeiro, Maximino Maciel, Ernesto Carneiro Ribeiro etc., todas eram influenciadas pela concepção filosófica da gramática, muitas vezes advindas do próprio sânscrito, mediante os primeiros estudiosos europeus da língua, como Max Müller e uns outros tantos. É este estudo, não só do sânscrito mas de língua portuguesa, que eu venho perseguindo há poucos anos; na verdade, até a relação entre estas duas línguas e o modo de estudá-las e ensiná-las sob esta concepção. Que confesso, acho mais interessante. Por essas e outras tem gente aí ‘jogando o bebê fora junto com a água do banho’ e deixando de lado a importância dos estudos gramaticais. Hoje mais necessários do que nunca.

E estudar gramática não é só estudar regrinhas de uma língua qualquer!

*****

Eu ainda volto este ano. Aguardem.

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A terceira máscara.

Publicado sob a(s) categoria(s) Philosophy em 08 de August de 2009

mascaras

Traduzido do śiva sūtra; obra escrita por Vasugupta (VII d.C.), e um dos principais tratados filosóficos da tradição Trika do Shaivismo (śaiva) de Kashmir.

नर्तक  आत्मा

nartaka  ātmā (3.9)

A alma (é) o ator.

nartaka – ator, dançarino; ātmā – alma, auto.

रङ्गो अन्तरात्मा

raṅgo antarātmā (3.10)

A ‘Alma Suprema’ (é) o palco.

raṅgaḥ – o palco; antarātmā – ‘Alma Suprema’ (alma interna).

प्रेक्षकानीन्द्रियाणि

prekṣakānīndriyāṇi (3.11)

Os espectadores (são) os sentidos.

prekṣakāni – os espectadores; indriyāṇi – os sentidos.

Sem ainda falarmos da metáfora, duas palavras são bem interessantes nestes sūtra: a palavra ātmā e a palavra antarātmā. A base desta é a mesma daquela, a raiz verbal at, ou “mover”, que dá origem à palavra ātmā, embora ela também tenha ligação com a raiz an, ou “respirar”. Só que não foi assim desde o início, a palavra ātmā antes era um pronome reflexivo (poderíamos traduzir por “auto”, do grego autós: ‘si mesmo’, ‘si próprio’), e mais tarde, descoberta a relação com sua raiz, foi tomada por “alma” para designar algo que ‘move a si mesmo’, sem necessidade de ‘ser movida’ por nada. Pelo contrário, da “alma” viria o ‘movimento’ para tudo. No entanto, aqui temos, na segunda palavra, um avyaya (‘palavra indeclinável’): antar. Esta é a palavra que composta à outra, vai gerar um significado diferente para a sequência dos dois sūtra, e naturalmente mais filosófico-metafísico. É o seguinte:

  • A palavra antarātmā pode, em contexto filosófico, ser sinônima de paramātmā, ou “Alma Suprema”, que em uma trindade divina, seria a manifestação de Deus como onipenetrante, e, portanto, ‘dentro de tudo’. Isso quer dizer que todos os seres vivos (e chamo de ‘ser vivo’ tudo que combine ‘corpo’ e ‘alma’) não só têm uma alma, mas duas. A ‘alma’ (que somos nós) e a ‘Alma’ (que é suprema, e por isso, uma das manifestações da trindade divina). Então, neste composto de corpo e alma, temos também outra Alma. Sendo assim, quando a tradição śaiva ou a tradição yoga proclamam uma busca do “deus interior”, na verdade nem a primeira nem a segunda estão proclamando que “todos somos deuses”, mas que temos um Deus onipenetrante que também habita em nós. É uma evidência para a grande confusão do “somos Deus”, coisa que não é aceita pelos textos védicos e nem por uma tradição como a do vedānta. Como aqui é um pouco diferente, por falar da tradição śaiva, pode parecer errado essa análise, mas não, vê-se até pelos sūtra a possibilidade dela neste contexto.

E agora vamos à análise da metáfora:

  • A primeira: “a alma é o ator”. Porque a alma é quem age, e isso parece evidente. É o ator que dá vida ao personagem, sendo personagem o João, a Maria, etc. É a identificação com o personagem (com o corpo, melhor dizendo) que faz surgir a dualidade, e olha que interessante: o śiva sūtra é escrito (ou revelado) para nos alertar dessa dualidade, é seu principal objetivo. Como foi falado, a alma é quem dá o movimento (ou vida) à matéria.
  • A segunda: “a Alma Suprema é o palco”. Como explicado acima, antarātmā aqui é sinônimo de paramātmā, e traz a ideia de palco como ‘testemunha’, pois o que é um ator sem palco?! É em cima do palco que ele mostra quem é. Por isso, temos o ‘palco’ (ou “Alma Suprema”) como a ‘testemunha’ das ações do ‘ator’ (ou alma). Essa metáfora também é encontrada em um texto clássico como o upaniśad: onde dois pássaros estão em cima de uma árvore, enquanto um deles age interminavelmente (a alma), o outro é uma testemunha de suas ações (a Alma Suprema).
  • A terceira: “os espectadores são os sentidos”. E como espectadores eles podem, e devem, estar atentos ao ator (a alma) ou dispersos no espetáculo (que é tudo, e não o ator, ou alma). A ideia é que os sentidos estejam conectados à alma; sendo diferente, estarão dispersos, e, portanto, sujeitos à dualidade. O que acontece se o espectador não presta atenção ao ator? Ele prestará atenção a tudo: cenografia, direção, luz, tudo que não seja o ator (a alma). Os sentidos devem ser expressões da alma. (E olha que uma bela teoria da arte surgiu daqui…)

Outro ponto legal: a palavra nartaka vem da raiz nṛt, ou “dançar”, por isso ‘dançarino’. E aqui cabe dizer que śiva é o rei da dança, ou natarāja, e esta dança é a que destrói os universos após um ciclo de yuga, ou eras. (Aí já entro em questões cosmológicas…)

É uma bela metáfora. Que para mim particularmente é cara, pois adoro teatro. Também são sentenças interessantes para entender a questão da palavra ātmā, tão comum para os estudantes da literatura sânscrita. E de “adendo” falei da segunda manifestação de Deus, paramātmā, a primeira está no post anterior: brahman. (Mas volto a falar do assunto.)

Para os estudantes de Aristóteles, o que descrevo como ātmā é o mesmo que psykhé, ou anima, só que para a filosofia vedānta não há diferença entre alma e substância (psykhé e ousía), ambas são a mesma coisa.

PS: No momento, eu e o Pablo (o artífice deste site, e meu amigo) estamos traduzindo, e já na terceira e última parte, este śiva sūtra. Temos objetivo de publicá-lo.

OBS: As palavras em sânscrito serão sempre escritas em letra minúscula e no singular.

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