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Direto de Atenas.

Publicado sob a(s) categoria(s) Literature,Philosophy em 15 de October de 2009

atena

Tenho relido o diálogo Teeteto, de Platão. A edição que leio é da UFPA, com tradução do Carlos Alberto Nunes (alguém que nos deixou um legado ao traduzir os Diálogos de Platão, a Ilíada e a Odisséia), direto do grego e com texto tão fluido que é como tivesse sido escrito em português, se isso não é boa tradução, não sei o que seja. Embora haja boas traduções feitas por especialistas do filósofo grego, com notas e tudo o mais. Bom é que tenhamos diversidade para ler. Empolgado, coloco aqui um trecho do Teeteto que gosto bastante:

(Depois de Sócrates ter se comparado a uma parteira, ele explica o porquê.)

VII – Sócrates – A minha arte obstetrícia tem atribuições iguais às das parteiras, com a diferença de eu não partejar mulher, porém homens, e de acompanhar as almas, não os corpos, em seu trabalho de parto. Porém a grande superioridade da minha arte consiste na faculdade de conhecer de pronto se o que a alma dos jovens está na iminência de conceber é alguma quimera e falsidade ou fruto legítimo verdadeiro. Neste particular, sou igualzinho às parteiras: estéril em matéria de sabedoria, tendo grande fundo de verdade a censura que muitos me assacam, de só interrogar os outros, sem nunca apresentar opinião pessoal sobre nenhum assunto, por carecer, justamente, de sabedoria. E a razão é a seguinte: a divindade me incita a partejar os outros, porém me impede de conceber. Por isso mesmo, não sou sábio, não havendo um só pensamento que eu possa apresentar como tendo sido invenção de minha alma e por ela dado à luz. Porém os que tratam comigo, suposto que alguns, no começo pareçam de todo ignorantes, com a continuação de nossa convivência, quantos a divindade favorece progridem admiravelmente, tanto no seu próprio julgamento como no de estranhos. O que é fora de dúvida é que nunca aprenderam nada comigo; neles mesmos é que descobrem as coisas belas que põem no mundo, servindo, nisso tudo, eu e a divindade como parteira. E a prova é o seguinte: muitos desconhecedores desse fato e que tudo atribuem a si próprios, ou por me desprezarem ou por injunções de terceiros, afastam-se de mim cedo demais. O resultado é alguns expelirem antes do tempo, em virtude das más companhias, os germes por mim semeados, e estragarem outros, por falta da alimentação adequada, os que eu ajudara a pôr no mundo, por darem mais importância aos produtos falsos e enganosos do que aos verdadeiros, como que acabam por parecerem ignorantes aos seus próprios olhos e aos de estranhos. Foi o que aconteceu com Aristides, filho de Lisímaco, e a outros mais. Quando voltam a implorar instantemente minha companhia, com demonstrações de arrependimento, nalguns casos meu demônio familiar me proíbe reatar relações; noutros o permite, voltando estes, então, a progredir como antes. Neste ponto, os que convivem comigo se parecem com as parturientes: sofrem dores lancinantes e andam dia e noite desorientados, num trabalho muito mais penoso do que o delas. Essas dores é que minha arte sabe despertar ou acalmar. É o que se dá com todos. Todavia, Teeteto, os que não me parecem fecundos, quando eu chego à conclusão de que não necessitam de mim, com a maior boa-vontade assumo o papel de casamenteiro e, graças a Deus, sempre os tenho aproximado de quem lhes possa ser de mais utilidade. Muitos desses já encaminhei para Pródico, e outros mais varões sábios e inspirados. Se te expus tudo isso, meu caro Teeteto, com tantas minúcias, foi por suspeitar que algo em tua alma está no ponto de vir à luz, como tu mesmo desconfias. Entrega-te, pois, a mim, como a filho de uma parteira que também é parteiro, e quando eu te formular alguma questão, procura responder a ela do melhor modo possível. E se no exame de alguma coisa que disseres, depois de eu verificar que não se trata de um produto legítimo mas de algum fantasma sem consistência, que logo arrancarei e jogarei for, não te aborreças como o fazem as mulheres com seu primeiro filho. Alguns, meu caro, a tal extremo se zangaram comigo, que chegaram a morder-me por os haver livrado de um que outro pensamento extravagante. Não compreendiam que eu só fazia aquilo por bondade. Estão longe de admitir que de jeito nenhum os deuses podem querer mal aos homens e que eu, do meu lado, nada faço por malquerença, pois não me é permitido em absoluto pactuar com a mentira nem ocultar a verdade. (…)

*****

Não comentarei nada agora. E não coloquei este trecho aqui à toa.

Então, por enquanto, desfrutem a leitura.

Parabéns aos professores!

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Às Nereidas, tudo.

Publicado sob a(s) categoria(s) Apps,Philosophy em 09 de October de 2009

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Quando pensamos em intuição, pensamos logo no ‘feminino’, e assim, nessa faculdade quase dominada inteiramente pela mulher. Será? Vamos por parte. É natural pensarmos em feminino quando pensamos em intuição, porque a faculdade intuitiva é feminina, ela age por receptividade, aliás, como a contemplação, isso quer dizer que nós a recebemos, e nosso modo de agir é muito mais “pró-passivo” do que pró-ativo.

Pensei em intuição porque tive recentemente uma aula sobre o assunto na UFF; mas não só por isso, ao folhear a revista feminina Criativa, li um texto da Cynthia de Almeida no qual o mesmo assunto era abordado, e naturalmente, ligando-o à mulher, à sua jornada e conquistas. Não vejo nenhum problema nisso. Pelo contrário, o uso da intuição deve ser incentivado. E o vedānta não me (nos?) deixaria na mão…

Em sua teoria do conhecimento, o vedānta aceita a intuição como um meio válido de se conhecer alguma coisa, e portanto, um pouco diferente do colocado pela autora do texto, que vê a intuição como um ‘dispositivo’ para ser usado depois de “afiar a mente”. Mas é aí que temos a virada. Antes, devemos saber que intuição não é algo instintivo. Também já sabemos que nossa atitude perante ela é passiva, ou seja, de espera. O “algo me disse” ou “a voz que sopra” que todos nós sentimos (ouvimos?) alguma vez. Para esta filosofia a intuição é utilizada para “afiar a mente”, ela é um pramāṇa, uma escala para medir se aquilo que se conhece é verdadeiro, e por isso, por ter a capacidade de chegar à verdade, é ela mesma válida para descobrir esta verdade. Esse “algo me disse” que todos usamos para designar a intuição, em si já é intuitivo, porque pré-supomos que é algo ouvido. Tal como uma voz que sopra. Uma comparação (lembrei agora!): o que é que se fala quando uma pessoa se sente impelida a seguir um caminho religioso eclesiástico? Que ela ouviu um chamado, não é? Observe o nome que o vedānta dá para este pramāṇa:

  • śabda, ou ‘som‘. (da raiz śabd, “sonorizar”, “produzir som”)

E esta filosofia designa dois tipos de śabda (intuição): laukika, ‘mundana’ ou empírica; e alaukika, ‘não-mundana’ ou não-empírica. Este se refere aos textos védicos (śruti) e à idéia deles serem revelados; aquele é sobre o qual escrevo, um som mais do dia-a-dia.

Daí você pode acreditar que é “a resposta imediata de seus neurônios”, a voz de Deus, e por aí vai. Ou, talvez melhor, acreditar que seja um recurso de sua consciência, ou uma técnica disponível para você conhecer, o que não descarta a voz de Deus.

Não só devemos acreditar na intuição, devemos adotá-la como parte do processo de conhecimento. E estar atento é um pré-suposto para a intuição, um “subsídio necessário para intuir”. Quem está atento, intui, quem intui, vê mais longe, conhece mais e melhor.

Por isso, devemos desenvolver habilidade para usá-la, e até (por que, não?) “profissionalizar” esta importante faculdade.

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Quanto à mulher, bem, reconhecemos que são mais intuitivas que nós. Mas para nós homens (ou só para mim?)  a intuição é como a mulher. As mulheres são como as Nereidas. E as Nereidas (quase sempre) nos encantam.

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