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A origem em xeque? (ou vedānta pelos poros…)

Publicado sob a(s) categoria(s) Philosophy,Vedanta em 21 de April de 2010

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A tradição vedantina também é conhecida por uttara mīmāṃsā (última investigação), a parte mais filosófica dos Vedas. Isso quer dizer que antes do vedānta ser uma escola de filosofia ou “ponto de vista filosófico” (darśana), já existia como noção de fim do Veda, relacionado diretamente com a parte chamada upaniṣad.

Cada Veda é composto por 4 tomos: mantra / brāhmaṇa / āraṇyaka / upaniṣad.

  • mantra (ou saṁhitā) – orações, fórmulas e hinos para serem recitados em ritos;
  • brāhmaṇa – tratados para explicar como esses ritos deveriam ser executados;
  • āraṇyaka– interpretação filosófica e alegoria para os ritos e meditações;
  • upaniṣad – parte filosófica para explicitar o que está implícito no mantra.

Os dois primeiros tomos são chamados de karmakāṇḍa (parte ligada aos trabalhos e às questões mais práticas da vida), os outros dois são chamados de jñānakāṇḍa (parte dos ‘conhecimentos filosóficos e metafísicos’).

Os Vedas foram compilados (ou editados) por Vyāsadeva (Kṛṣṇa Dvaipāyana Vyāsa), o autor das obras mahābhārata e bhāgavata purāa.

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O vedānta referido como fim do Veda está inteiramente ligado às upaniṣad, o último tomo e o mais filosófico deles (lembrando que cada um dos Vedas tem os quatro tomos e uma variação de assuntos de um para outro). Então sabemos que a origem do vedānta é o Veda, mais especificamente sua parte filosófica.

Mas a tradição como uma escola de filosofia (darśana) origina-se só depois de todas as outras escolas, nove no total, três heterodoxas (nāstika) e seis ortodoxas (āstika). Estas são chamadas assim por aceitarem os Vedas como parte integrante de sua tradição. Já as outras não aceitam o conhecimento védico, por exemplo, a escola bauddha (budismo). Podemos ter esta avaliação através da obra vedānta sūtra, que de certa forma procura refutar as idéias de todas as anteriores e colocar o vedānta como a filosofia superior a elas. E daí surge a dúvida sobre a questão da autoria e fundação da escola, que gira em torno do vedānta sūtra, e de seu autor, Badarayaṇa.

Alguns dizem que o autor desta obra é o mesmo autor que compilou os Vedas, escreveu o mahābhārata e o bhāgavata purāa. Mas quando colocamos em termo histórico e tentamos datar estas obras com o vedānta sūtra, não encontramos relação nenhuma.

Historiadores indianos têm opiniões diferentes, uns mais afeitos à visão ocidental, e uns outros mais à oriental, e portanto, à visão dos próprios textos tradicionais. Os ocidentais, ávidos por colocarem tudo em termo histórico, passam direto por um aspecto importante da tradição vedantina (e mesmo das outras seis ortodoxas): a referência dessas escrituras (śāstra) como um meio válido de conhecimento (pramāṇa), ou śabda pramāṇa (um pouco mais aqui). Ou seja, só a especulação mental e a datação histórica não valem.

A tradição vedānta tem como seus textos principais:

  • upaniṣad – parte ligada à revelação, ao que foi ouvido (śruti);
  • bhagavad gītā – parte ligada à lembrança (smṛti);
  • vedānta sūtra – parte ligada à discriminação racional (nyāya).

Juntos são conhecidos como prasthāna traya (ou os ‘três cânones’).

O Vyāsa dos Vedas (upaniṣad) seria o mesmo Badarayaṇa do vedānta sūtra?

Provavelmente não a mesma pessoa. O Kṛṣṇa Dvaipāyana Vyāsa viveu no fim da era (yuga) dvāpara, a última antes da kali yuga, a nossa era, que teria começado, segundo cálculos encontrados nos purāa, em 3102 A.C. Já o Badarayaṇa viveu em nossa era, a sua obra vedānta sūtra refere-se e refuta muitas filosofias posteriores aos Vedas, com isso, ele não poderia ser colocado históricamente antes do século 10 A.C.

Isso muda alguma coisa em relação à origem da tradição? E sobre o comentário original do qual falei aqui? Se o Badarayaṇa foi o escritor do vedānta sūtra, uma obra como o bhāgavata purāa poderia ser de autoria do Vyāsa?

A resposta está no que a tradição chama de śabda pramāṇa, a evidência dos textos ou a intuição a partir desses textos.

OBS: Depois virei com estas evidências escriturais. Ok?

3 respostas

O comentário original. (ou vedānta na veia…)

Publicado sob a(s) categoria(s) Philosophy,Vedanta em 04 de April de 2010

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Tenho afirmado que no Brasil o vedānta ainda é muito (e somente) visto através dos seus comentadores e mestres corolários, quero dizer, somos bem pouco afeitos ao seu estudo direto, àquele espírito determinado (jijñāsā) no começo mesmo do vedānta sūtra.

Mais ainda: a noção de que estes comentários feitos pelos mestres originais da linha e abordagem referentes se bastam separadamente. Alguns estudam apenas uma linha filosófica, uma abordagem, e lidam com ela como se o vedānta se bastasse nessa linha ou abordagem. É um erro. E um erro grave. Uma imaturidade de estudo, digamos. Aquele que estuda todos os comentários, um a um, vê que eles se completam, vê que todas as visões colocadas por cada um destes mestres não se bastam separadamente, nem determinam o que nós (não) conhecemos por vedānta.

E tem mais, se seguirmos a atitude do último grande mestre da tradição, o formulador da última doutrina, Caitanya (1486-1534) e sua acintyabhedābheda; o certo seria analisar e estudar o comentário original do vedānta sūtra: o bhāgavata purāṇa.

Onde a primeira de suas 18.000 estrofes começa do mesmo modo que a obra da qual é um comentário. E isso já é indício de que falamos de duas obras complementares:

No vedānta sūtra 1.1.2, para começar a definir quem é o Absoluto, encontramos:

जन्माद्यस्य  यतः

janmādyasya  yataḥ

O nascimento etc. deste (mundo) (vem) Dele.

E no bhāgavata purāṇa encontramos este sūtra acima como o começo (1.1.1), para chegar lá no fim da obra e obtermos, de fato, a confirmação de ser um comentário:

No skandha 12, adhyāya 13, śloka 15, diz o seguinte:

सर्ववेदान्त सारं हि श्री भागवतम् इष्यते

sarvavedānta sāraṁ hi śrī bhāgavatam iṣyate

O esplendoroso bhāgavata é anunciado (como) a essência de todo o vedānta, de fato.

Mais recentemente, no século XX, e ainda vivo, um mestre e intelectual vaiṣṇava de grande competência, Haridas Shastri Maharaj, fez um trabalho até então inédito: o estudo das duas obras e sua relação filosófica, provando assim que o bhāgavata purāṇa é de fato a essência do vedānta sūtra.

Eu tive a oportunidade de estudar este trabalho e ver por mim mesmo sua profundidade.

O mais interessante é que o vedānta sūtra sendo uma obra mais “seca”, só com aforismos filosóficos, faz com que o bhāgavata purāṇa acabe completando-o bem, suas histórias e símbolos tornam a filosofia vedānta mais palatável; algo já encontrado em outros textos adotados pela tradição, as upaniṣad, o famoso bhagavad gītā e alguns comentários (bhāṣya) dos mestres originais.

OBS: É importante saber que além dos comentários dos mestres de cada linha filosófica, alguns fantásticos, há um comentário original idependente dessas linhas e seus mestres.

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O homem é imitação. Portanto, ele é poesia.

Publicado sob a(s) categoria(s) Philosophy em 20 de September de 2009

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1.

Estava hoje numa aula de Estética – não lecionada, mas assistida por mim – quando, ao tocarmos num assunto da Poética de Aristóteles, particularmente o livro IV, onde nos é passada a idéia da ‘origem da poesia’, saí de sala, fui embora da UFF, porque ao definir o que gera a poesia, a proposição do filósofo, desta vez, batera-me como nunca antes. O Estagirita expõe ali duas causas, uma delas a imitação (mímesis). E é quando ele nos diz que “o imitar é congênito no homem ([…], por imitação, apreende as primeiras noções), e os homens se comprazem no imitado”, que me lembrei desta passagem com referência aos estudos metafísicos (não, não é loucura minha dizer que um assunto tratado tanto na Poética quanto na Física, de modo diferente, claro, mas ainda com a mesma definição, está ligado, na verdade, à sua Metafísica; isso já foi referendado por estudiosos). Porém, ao fazer a referência aos estudos metafísicos, nem pensei na parte onde o filósofo trata a questão da ‘apreensão das primeiras noções’, ou mesmo do ‘aprender que nos apraz’, na qual estaria a relação entre a Poética e a Metafísica, mas na abordagem dessa imitação e o imitar ser congênito no homem. Pois sendo congênito, está intrínseco à sua natureza, e assim, em sua essência; ou seja, antes do homem (ser) ser feito como homem (sínolo).

Acho que todos, sendo cristão ou não, já nos deparamos com a noção de homem “como imagem e semelhança de Deus” (imago Dei). Ora, não falamos que semelhança também é “cópia”,”imitação”? E não está intrínseco, tanto na idéia de semelhança como na idéia de imitação, um certo desprendimento? Dizer que algo é semelhante, ou imitação, não é dizer também que este algo tem independência àquilo com que ele se assemelha? Senão não teríamos dois algo(s), mas apenas um. Também é necessário que haja características no imitado, ou assemelhado, que existam antes em sua origem. (Pensem em quando um pintor, diante de um pôr-do-sol, pinta este acontecimento em sua tela…) E se Ari nos diz que imitar é congênito no homem, sendo o homem, para o filósofo, um sínolo (sýnolon), um todo concreto de ‘forma’ e ‘matéria’, é possível que esta “característica nata” para a imitação, já seja parte intrínseca de sua natureza (ou essência).

Agora, guardem isso.

2.

Saio dos gregos… e vou para os védicos…

Mas antes um parênteses. (Tenho tido orgasmos ao descobrir, na Metafísica do Ari, uma grande parte, semelhante!, do conhecimento que há anos estudo pelos textos védicos, no caso, principalmente os adotados pela tradição vedānta. E com isso não quero dizer que Aristóteles tenha ido a Índia, ou que tenha se esbarrado com os Vedas, nada disso, não é a proposta com que trabalho. Para mim, ele apenas (apenas?!) intuiu o mesmo conteúdo dos Vedas; e por que eu posso suspeitar disso? Onde me baseio para possibilitar a tal da intuição? Bem, primeiro porque sendo os Vedas considerados apauruṣeya, não-humano e revelados, faz com que seu conteúdo possa ser intuído por qualquer um que contemple os mesmos assuntos; segundo, pensar assim é respaldar-se na teoria do conhecimento da qual os textos védicos falam, ou pramāṇa (fontes válidas), e especificamente em śabda (intuição, som, textos); isso explica meu entusiasmo por esta leitura.)

Aos védicos…

Na tradição vedānta existe essa mesma idéia do homem ser semelhante a Deus. Ele é na verdade igual e diferente (bhedābheda) a/de Deus. E como isso se dá? Poiesis. Naquela acepção dada pelo Aristóteles: poesia é imitação. Tudo bem. Voltemos aos védicos. Nos textos como os upaniṣad encontramos referências de como isto se dá, é como se fosse a passagem do leite para a coalhada (guardemos essa imagem), mas sem que houvesse um prejuízo para o leite, como se depois de coalhar você pudesse separar a coalhada e ainda assim existir o leite ali, intacto e puro. (Uso esta analogia pois ela aparece nos textos.) E é aí que fica ainda melhor…

A invocação da obra īśa upaniṣad aborda, ainda indiretamente, a questão da imitação; a estrofe, ‘brincando’ com a palavra pūrṇa (“completo, perfeito”), descreve o processo de causa e efeito dessa semelhança, o porquê dessa imitação (imago).

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oṁ pūrṇam adaḥ pūrṇam idaṁ pūrṇāt pūrṇam udacyate

pūrṇasya pūrṇam ādāya pūrṇam evāvaśiṣyate

(D)aquele Completo (vem) este completo. Do Completo, o completo é produzido.

Tendo tirado o completo do Completo. Ainda assim, permanece Completo.

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(Coloquei a letra maiúscula em uma palavra “completo” para facilitar a leitura, e para os outros “completos” as idéias de mundo e homem são equivalentes.)

A idéia de imagem e semelhança de Deus vem de outra idéia: a de características, ou até naturezas (qüididade), semelhantes. (Só para deixar claro.) Para o vedānta, entre Deus e o homem existe a mesma essência (eînai; essentia), ou śakti, “potência”, “energia” e até “capacidade”, da raiz śak, “ser capaz de”(um detalhe importante, já que estou fazendo a  relação do vedānta com Aristóteles: posso relacionar o termo em sânscrito com o termo ousía em Aristóteles, usado na acepção de hypokeímenon, “sub-jacente”, “sujeito”, em sua Metafísica, Livro V, 8, 1017b, 23-26).

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Para a tradição vedānta existem três śakti:

  • antaraṅga śakti (‘potência’ ou ‘subjacência’ interna)
  • taṭastha śakti (‘potência’ ou ‘subjacência’ marginal)
  • bahiraṅga śakti (‘potência’ ou ‘subjacência’ externa)

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Daí temos a concepção de Deus (Absoluto), homem (alma) e mundo (matéria), e assim a idéia de mesma qüididade entre as primeira e segunda ‘subjacências’ (com a segunda delas estando ‘na margem’, portanto, participando tanto da primeira quanto da terceira ‘subjacência’). Quanto mais a segunda ‘subjacência’ se ‘purifica’ (a alma), mais ela se assemelha à primeira ‘subjacência’ (Absoluto); quanto mais permanece ‘impura’, mais imita a terceira ‘subjacência’ (matéria). E ainda sai muito coelho dessa cartola… É claro que voltarei ao assunto.

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Só para puxar a barba do Aristóteles mais uma vez. Em sua Metafísica encontramos, no Livro IV, a seguinte declaração para aquilo que o vedānta chama de śakti (que, como já falei, pode fazer referência à palavra ousía, embora (saiba você) esta palavra em Ari não é assunto muito fácil de se estudar; por exemplo, aqui ela aparece no ‘sinônimo’ ón, que se tornou a latina ens. Vamos à proposição aristotélica:

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  • Metafísica (Livro IV, 2, 1003b, 33-34).

tò dé ón légetai mén pollakhôs, alla prós èn kaì mían tina phýsin kaí oukh homonúmos all’

O ser se diz de múltiplos sentidos, mas em referência a uma unidade e à natureza única.

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Bem, se o ser se diz de muito sentidos, ele pode se referir às três ‘potências’ logo ali em cima, e afirmar que estas ‘potências’ são unidades e têm, cada uma, natureza única.

E não é assim que o upaniṣad nos afirma a mesma coisa? Que cada ser é completo? Em sua natureza única, ou seja, sua característica própria (interna, marginal e externa).

3.

Ao definir poesia como imitação, e ao dizer que este “imitar é congênito no homem”, e portanto, intrínseco à sua natureza, diríamos também que, para Aristóteles e o vedānta, a idéia de semelhança, ou imitação, a/de Deus está, sim, intrínseca no homem. Sendo o homem, portanto, poesia; e poesia de Deus (de poiesis, “criação”, “ação”).

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A idéia que fazemos de poesia como um texto idiossincrático, ainda me torna viva outra idéia, a do homem como idiossincrasia de Deus, como sua poesia, sua criação. Sem afetá-Lo em nada, logicamente (Ele “permanece pūrṇam“).

Desculpem-me pela prosa um tanto rançosa, mas é que ainda estudo o assunto.

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Ontem, 19/09/09, foi Rosh Hashaná, e pelo judaísmo entramos no ano 5770. Este tempo coincide com a contagem de ano na cosmologia védica.

E que tenhamos todos uma linda Primavera! Entra no dia 22, lua crescente, sol em Libra.

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E agora, para espairecer, fiquem com o jazz metafísico do Coltrane:

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