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Beyond cultural layer. (in Proti šedi)

Publicado sob a(s) categoria(s) Culture,Philosophy em 11 de February de 2014

This is the article that I wrote to Czech web cultural magazine Proti šedi (there in Czech).

 

Let’s think about ourselves like humans made by layers. It is the way the Yoga or the Vedānta knowledge traditions analyze we human beings, for example. It seems to me that such analysis is a good way to understand even other kinds of layers we have, like superficial ones. A cultural layer, in this case. How much we are influenced by all the cultural stuffs that we are exposed to? And how much of them are really valuable? To be a foreigner can give us good answers to these questions, because when we are a little bit out from our zone we can see what is genuine and what is not. Not about the others but about ourselves. This “way to see” can be learned.

 

To be a foreigner in this case is only a way to call someone who can observe what is the reality, which is not so easy. Of course our cultural layer is part of our reality, but it is also possible to say that this is the last layer we have. It means that many times we label ourselves by this cultural layer. But who are we indeed? Can we say we are some behaviors and habits coming from this layer? It is just we move from a place we are used to living and dealing with some behaviors and habits, which we realize an amazing difference between who we really are and all these behaviors and habits. One habit or one way we behave can be changed according to the culture we adopt, even if we never leave the place of our original culture. But not everything can be changed.

 

When we are in this position to see what can change and what cannot, when we are in front of something greater than us and our conscience begs us for choosing do not get rid of the responsibility we have in knowing what is right and what is not, it is exactly the moment when we realize what really matters; or in one different explanation: what is accidental and what is essential. Every cultural influence we have are accidental, it means we can change them according to our choice or the place or time we are, and if it is so, the cultural layer is not enough to say who we are. On the other hand, there is the character, which is individual and do not depend completely on culture, we can be in a specific culture, with specifics habits and behaviors, but even then to have a kind of character that has nothing to do with the culture we are, it seems, then, we can say that the character is more essential, because it depends on learning to be excellent. It is the character, determined by reason, which many times will choose the kind of culture (habits and behaviors) we want for our life or want to live in. Then, while we are introducing to each other putting many cultural labels on us to show who we are, it is exactly the character, which cannot be seen so easy in the first moment, that will show who we really are. In the end, it is not the fact to be a Brazilian or a Czech, a punk, a rock’n roll guy or a classic one, or to have that taste or this, travel to many places or to live in one or other way that determines who we are, it is more about what stays, the character. It is like an axle that is fixed (character, essential) for the wheel turns without stopping (cultural influences, accidental). And a wheel with an unfixed axle doesn’t turn well. Each day more it seems to me that the character has nothing to do with the place we came, how we were born, the cultures we adopt, a social or physical environments, heredity or anything else, but with our responsibility to become a better person, it is about the way to become excellent.

 

Post Script:

 

It is from the character that we start to do one of the important practices in the Yoga tradition, called svādhyāya, a self-meditation (self-study) about who we really are.

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O que uma tradução mal feita faz. (yoga vs. união – Segunda Parte)

Publicado sob a(s) categoria(s) Linguistics,Sanskrit,Yoga em 23 de July de 2010

maos-dadas

Minha proposta aqui é o de rever a tradução de uma palavra em sânscrito (yoga) que gerou uma idéia filosófica diferente da que deveria gerar. Não tenho pretensão que ela seja aceita ou trocada pela que é adotada hoje, mas só a de acrescentar um significado mais exato, e que transpareça sua idéia filosófica original.

O significado comumente dado à palavra yoga é união. Não é isso?

Yoga, para muitos, é unir.

Mas o que é união? Já pensaram nisso?

Num dos tratados mais antigos de etimologia (em sânscrito), o Nirukta, é dito que:

नामान्याख्यातजानीति

nāmānyākhyātajānīti (1.12)

Os nomes derivam dos verbos.

Então, levando esta frase em conta, mesmo para o português, vamos ao verbo.

União = unir. O dicionário Aurélio coloca como primeira acepção para o verbo unir:

“Tornar em um só; unificar.”

Já no dicionário Houaiss a primeira acepção para unir é:

“Aproximar, formando um todo.”

E parece-me que o significado para unir mais aceito é este mesmo:

“formar um todo, tornar um só.”

Mas ambos os dicionários também colocam como acepção o verbo juntar.

Se formos lá no latim, encontraremos:

Unir vem de unire.

Juntar vem de jungir, que vem de jungere.

O conhecido Julius Pokorny, e seu Indogermanisches Etymologisches Wörterbuch, ou Dicionário Etimológico Indo-europeu, de 1959, definiu a diferença de significado dos dois verbos, e daí deduzimos que, originalmente, unir e juntar não significam a mesma coisa. Vejam como Pokorny classifica-os a partir do indo-europeu:

  1. i̯eu-, i̯eu̯ə-, i̯eu-g– > jungo, jungere, junxi, junctus – ‘jungir , juntar, atar junto’.
  2. oi-no-, oi-u̯o– >  unio, unīre – ‘unir, ser um’.

E aqui entra minha explicação etimológico-filosófica para a palavra yoga:

Yoga vem da raiz yuj (dhātu), que significa jungir, atar, juntar, originalmente.

Se traduzimos yoga como unir, união, falamos de duas coisas que se tornam uma só, e, portanto, perdem sua individualidade, perdem o “princípio” que as faz serem quem são.

Se a traduzimos como jungir, juntar, junção, falamos de duas coisas que se aproximam sem perder sua individualidade, sem perder esse “princípio”.

OBS:

A primeira acepção em inglês do dicionário Monier Williams para a raiz yuj é:

“to yoke”.

E no Dhātupāṭhaḥ (listagem das raízes verbais do sânscrito) sua única acepção é:

yoge“.

Percebem a semelhança? A única mudança foi a da letra gutural “k” pela gutural “g”.   

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O que uma tradução mal feita faz. (yoga vs. ioga – Primeira Parte)

Publicado sob a(s) categoria(s) Linguistics,Sanskrit,Yoga em 14 de July de 2010

yoga-devanagari

Sempre quando começo meus cursos de sânscrito, uma das primeiras questões que os alunos pedem para eu explicar é a palavra ioga. É ioga ou yoga – perguntam.

Geralmente perguntam em relação à pronúncia. E a explicação é simples: quando esta palavra for pronunciada em sua origem sânscrita, pronuncia-se com “o” fechado, pois no sânscrito não existe vogal aberta (“ó” ou “é”); e quanto a grafia, grafamos com “y” quando também é sânscrito, porque na transliteração oficial usamos esta letra latina – que foi adotada pelo alfabeto latino (do alfabeto grego) a partir da conquista da Grécia (I a.C) – para grafar a letra correspondente ao seu som (fonema) no alfabeto devanāgari, adotado pelo sânscrito.

O mesmo fenômeno que aconteceu com inúmeras palavras de outras origens que foram adotadas pela língua portuguesa, aconteceu com a palavra ioga. Por que não se escreve esta palavra com o “y” original da transliteração oficial se a temos no alfabeto latino?

Questão histórica. No Brasil, a letra “y” foi abolida do Formulário Ortográfico de 1943, e restaurada só no Acordo Ortográfico de 1990, que só entrou em vigor em 2009. Todas as palavras previamente grafadas com “i” no lugar de “y” continuaram como estavam.

E quando ela veio para o português como ioga, a pronúncia certa é com “o” aberto, pois há um fenômeno na língua conhecido como altura vocálica feita para diferenciar silabas tônicas de átonas ( i – o – ga ), e como é uma paroxítona (terminada em “a”), não se usa o acento gráfico. Portanto, grafias esdrúxulas como “yôga” estão erradas porque nem no sânscrito há acento gráfico, nem em português coloca-se acento em paroxítona com “a” final. Assim, tanto ioga (com “o” aberto), quanto yoga (com “o” fechado) estão corretas se falamos da primeira como português, e da segunda como sânscrito.

Mas o que me incomoda com a palavra yoga não é a pronúncia “errada”, e sim o significado comumente aceito.

Já volto para explicar o porquê deste incômodo.

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