O que uma tradução mal feita faz. (yoga vs. união – Segunda Parte)

Linguistics,Sanskrit,Yoga -- 23 / July / 2010

maos-dadas

Minha proposta aqui é o de rever a tradução de uma palavra em sânscrito (yoga) que gerou uma idéia filosófica diferente da que deveria gerar. Não tenho pretensão que ela seja aceita ou trocada pela que é adotada hoje, mas só a de acrescentar um significado mais exato, e que transpareça sua idéia filosófica original.

O significado comumente dado à palavra yoga é união. Não é isso?

Yoga, para muitos, é unir.

Mas o que é união? Já pensaram nisso?

Num dos tratados mais antigos de etimologia (em sânscrito), o Nirukta, é dito que:

नामान्याख्यातजानीति

nāmānyākhyātajānīti (1.12)

Os nomes derivam dos verbos.

Então, levando esta frase em conta, mesmo para o português, vamos ao verbo.

União = unir. O dicionário Aurélio coloca como primeira acepção para o verbo unir:

“Tornar em um só; unificar.”

Já no dicionário Houaiss a primeira acepção para unir é:

“Aproximar, formando um todo.”

E parece-me que o significado para unir mais aceito é este mesmo:

“formar um todo, tornar um só.”

Mas ambos os dicionários também colocam como acepção o verbo juntar.

Se formos lá no latim, encontraremos:

Unir vem de unire.

Juntar vem de jungir, que vem de jungere.

O conhecido Julius Pokorny, e seu Indogermanisches Etymologisches Wörterbuch, ou Dicionário Etimológico Indo-europeu, de 1959, definiu a diferença de significado dos dois verbos, e daí deduzimos que, originalmente, unir e juntar não significam a mesma coisa. Vejam como Pokorny classifica-os a partir do indo-europeu:

  1. i̯eu-, i̯eu̯ə-, i̯eu-g– > jungo, jungere, junxi, junctus – ‘jungir , juntar, atar junto’.
  2. oi-no-, oi-u̯o– >  unio, unīre – ‘unir, ser um’.

E aqui entra minha explicação etimológico-filosófica para a palavra yoga:

Yoga vem da raiz yuj (dhātu), que significa jungir, atar, juntar, originalmente.

Se traduzimos yoga como unir, união, falamos de duas coisas que se tornam uma só, e, portanto, perdem sua individualidade, perdem o “princípio” que as faz serem quem são.

Se a traduzimos como jungir, juntar, junção, falamos de duas coisas que se aproximam sem perder sua individualidade, sem perder esse “princípio”.

OBS:

A primeira acepção em inglês do dicionário Monier Williams para a raiz yuj é:

“to yoke”.

E no Dhātupāṭhaḥ (listagem das raízes verbais do sânscrito) sua única acepção é:

yoge“.

Percebem a semelhança? A única mudança foi a da letra gutural “k” pela gutural “g”.   

7 respostas so far

7 respostas para “O que uma tradução mal feita faz. (yoga vs. união – Segunda Parte)”

  1. Marina says:

    Caro amigo!
    Então par sim Yoga é “juntar” e não “unir”, certo? :)
    Eu aprendi com o meu Mestre que a palavra Yoga significa, juntar (ou ligar). Também que é um termo masculino, deriva da raiz Yuj (leia yudj) = jugo e pronuncia-se “o Youga” (como Iodo).
    Um abraço de Portugal
    Marina

  2. Leonardo says:

    Obrigado pelo comentário, Marina!

    Abraços.

  3. Michel says:

    Olá, Leonardo.

    Conheço um professor de yoga, também sanscritista, que interpreta a palavra ‘yoga’, em Patañjali e no Bhagavad Gita, como ‘uso’, ‘prática’. O que você acha dessa interpretação?

    Abraço.

  4. Leonardo says:

    Olá, Michel.

    Olha, sinceramente, acho-a bem ruim.
    Pois está muito longe da palavra original.

    Um abraço.

  5. Michel says:

    Olá, Leonardo.

    Talvez em contexto fique melhor:

    “A palavra “yogaH” deriva da raiz verbal “yuj” que se traduz pela ação de “preparar” ou “utilizar” – usada em tempos antigos principalmente para a lide com os animais. Daí seu significado primário ser arrear, atrelar ou jugar (colocar o jugo) um animal (em especial o cavalo).

    No caso dessa doutrina, trata-se da utilização de si mesmo como referência para a construção de sua identidade.”

    Fonte: http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs.aspx?cmm=139733&tid=2542650390470739074

    Diga-me o que acha.

    Abraço.

  6. Leonardo says:

    Oi, Michel.

    Bem, novamente, não muda muito. O problema é esta tradução para “yuj”,
    que acho precária, e me parece mais uma especulação, porque mesmo em
    textos como as Upanisad, vemos a palavra “yoga”, e, portanto, “yuj”, com
    o significado especificado no post, e não este que você me traz; e falar do
    Upanisad já é falar em tempos antigos. Talvez em textos como os Samhita
    ou mesmo o Rg-veda, você encontre este direcionamento, mas ainda com
    o significado de “juntar”, “jungir”, o sânscrito tem outras raizes verbais que
    servem para verbos com significado de “preparar” ou “utilizar”, que entre si
    já são diferentes, e vêm de raizes diferentes. Entende?

    Também acho complicado dizer que a doutrina lida com “construção de identidade”…

    Um abraço.

  7. Diego says:

    Olá, Leonardo!
    Partindo do pressuposto que a essência individual é a mesma da universal…
    Você não acredita que o termo união, ou mesmo integração, faria sentido?
    Neste sentido, não creio que o princípio individual se perde, ele apenas retorna à sua fonte original.
    O que acha?
    Abraço.

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