Um jesuíta compreende Pāṇini.

Linguistics,Sanskrit -- 23 / August / 2012

Eis um post bem específico, mas não menos interessante – creio.

 

O estudo da linguagem, até o século XVIII, tinha como modelo as gramáticas do latim e do grego, e as gramáticas vernáculas eram escritas a partir delas. Isso só começa a mudar com as missões jesuíticas no Oriente, uma época muito fértil na descoberta de estudos e novas formas de se observar uma língua. A carta escrita pelo padre jesuíta Jean-François Pons, em 1740, enviada ao amigo du Halde, em Paris, é um excelente exemplo da época áurea destas descobertas. Nela encontramos a primeira menção a Pāṇini (Pania) e uma descrição exata da gramática tradicional do sânscrito; a esta altura, Pons já tinha começado, em 1738, a escrever sua gramática de sânscrito em latim.

 

Esta gramática foi estudada, mais tarde, por grandes filólogos do século XIX, tais como A.L. Chézy (fundador do curso de sânscrito no Collège de France) e Franz Bopp.

 

Eu traduzo e comento esta carta na minha dissertação de mestrado, no primeiro capítulo.

 

Aqui, coloco o terceiro parágrafo adaptado, o mais gramatical deles:

 

Está publicada em Lettres édifiantes Et Curieuses, écrites Des Missions Étrangères, par quelques Missionaires de la Compagnie de Jesus, XXVI, II, pag. 39.

 

Il est étonnant que l’esprit humain ait pu atteindre à la perfection de l’art qui éclate dans ces grammaires. Les auteurs y ont réduit par l’analyse, la plus riche langue du monde, à un petit nombre d’élémens primitifs, qu’on peut regarder comme le caput mortuum de la langue. Ces élémens ne sont par eux-mêmes d’aucun usage, ils ne signifient proprement rien ; ils ont seulement rapport à une idée, par exemple Kru à la idée d’action. Les élémens secondaires qui affectent le primitif, sont les terminaisons qui le fixent à être nom ou verbe ; celles selon lesquelles il doit se décliner ou se conjuguer, un certain nombre de syllabes à placer entre l’élément primitif et les terminaisons, quelques propositions, etc. A l’approche des élémens secondaires le primitif change souvent de figure ; Kru, par exemple, devient, selon ce qui lui est ajoûté, Kar, Kra, Kri, Kir, etc. La synthése réunit et combine tous ces élémens, et en forme une variété infinie de termes d’usage.

 

 

É espantoso como o espírito humano pôde atingir a perfeição da arte que começou nestas gramáticas. Os autores reduziram a análise, da mais rica língua do mundo, a um pequeno número de elementos primitivos, que pode se considerar como a caput mortuum da língua. Estes elementos não são de nenhum uso, eles não significam propriamente nada, eles só relatam uma idéia, por exemplo Kru à idéia de ação. Os elementos secundários que afetam o primitivo são as terminações que o fixam em ser nome ou verbo, aquelas segundo as quais ele deve se declinar ou se conjugar, um certo número de sílabas para empregar entre o elemento primitivo e as terminações, algumas orações e etc. Com a aproximação dos elementos secundários, o primitivo muda muitas vezes de figura; Kru, por exemplo, devem, segundo este que lhe é acrescentado, Kar, Kra, Kri, Kir, etc. A síntese reúne e combina todos estes elementos e os forma uma variedade infinita de termos de uso.

 

 

Este é o parágrafo mais gramatical, onde Pons mostra que realmente conhecia a língua que descrevia em sua carta. Ele descreve aqui os élémens primitifs, ou dhātu, as raizes verbais, de onde se origina toda palavra declinada ou conjugada do sânscrito. O modo como descreve a estrutura da língua é exato. Estas raizes são, de fato, o caput mortuum da língua, o elemento da língua que não pode ser reduzido, que traz a ideia primária (e mais profunda). As raizes não podem ser expostas como palavras sem antes passarem por uma mudança morfológica. Y. Dahiya, em seu Panini as a Linguist, afirma, sobre estas raizes, que “Pāṇini has not defined the dhātu in his treatise. But he has listed 2014 roots under ten groups in an appendix called Dhātupāṭha (pg.100).”

 

Em todo caso, um bom exemplo para ter ideia como Pāṇini expõe estas raizes verbais, é o aforismo (sūtra) um do capítulo três da primeira parte de sua obra:

bhūvādayo dhātavaḥ  (I.3.1)

As raizes verbais [são] de bhū (ser/estar) em diante.

Um outro exemplo parecido, porém mais específico:

 

sanādyantā  dhātavaḥ  (III.1.32)

As raizes verbais [são aquelas com o afixo] san, do começo ao fim.

Ou ainda um outro, mais direto:

dhātoḥ (III. 1. 91)

Da raiz verbal.

Este é um adhikāra sūtra, um tipo de aforismo que “governa”, “lidera” outros.

 

Uso o próprio exemplo de Pons para expor, mais descritivamente, o que ele trata.

 

a) Peguemos a raiz verbal kṛ (Kru), que traz a ideia de ‘fazer’, ‘agir’.

b) Apliquemos a ela a estrutura morfológica que ele descreve no fim do parágrafo:

 

b.1) Substantivo:

kṛ > kar + ma + n > karman + 0 > karma =  as ações, as atividades (nominativo, singular)

 

b.2) Verbo:

kṛ > kar + o > karo + ti > karoti = ele faz, ele age (terceira pessoa, presente)

 

Das dez classes de raizes verbais sânscritas, que se encontram no Dhātupāṭha (coleção de raizes) da obra de Pāṇini, a raiz kṛ aparece nas classes primeira, sexta e oitava. Ela, portanto, sofre uma mudança (kṛ > kar) morfológica (na verdade, morfofonêmica) que é descrita como (as regras) vṛddhi e guṇa, colocadas no primeiro e segundo aforismos da obra Aṣṭādhyāyī – para vermos o grau de importância. Na última frase do parágrafo, Pons descreve a tecnologia da gramática sânscrita pela qual as raizes verbais, mediante a transformação morfofonêmica e estrutural correspondentes, dão origem a um número infinito de palavras – inclusive atuais. Uma tecnologia procurada por Willem von Humboldt no século XIX, e, mais tarde, por Noam Chomsky.

 

Quando Pons fica espantado com a perfection de l’art desses gramáticos, sendo Pāṇini o primeiro com uma obra escrita, podemos entender a diferença entre a gramática latina e sânscrita, assim como a importância desta para os estudos linguísticos.

 

 

 

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