Igualdade e Diferença. (ainda a alma)

Philosophy,Vedanta -- 05 / November / 2009

अंशो नानाव्यपदेशात्  अन्यथा चापि

aṁśo nānāvyapadeśāt  anyathā cāpi

A partícula é declarada (como) diferente e também (como) igual.

Esta primeira parte do sūtra 2.3.43 do vedānta sūtra é onde está definida a relação que a alma tem com o Absoluto, aqui, alma é chamada de aṁśa, ou ‘pequenina parte’, aliás, ela também é chamada assim no bhagavad gītā (15.7), embora neste a palavra tem um peso afirmativo, ou seja, a alma é afirmada como tal, como partícula. E uma partícula é apenas parte (ou vem) de um todo, ou Todo, melhor dizendo.

ममैवांशो जीवलोके जीवभूतः सनातनः

mamaivāṁśo jīvaloke jīvabhūtaḥ sanātanaḥ

Decerto a eterna alma-em-ser, no mundo dela, é minha partícula.

Vejam que neste primeiro verso do dístico 7 do capítulo 15 encontramos a palavra aṁśa e também a palavra jīva, da qual falamos no post abaixo. Esta palavra aparece aqui com duas outras, loka, ‘mundo’, bhūta, ‘ser’ (que poderia também ser traduzido aqui como “ser vivo”).

*****

O sūtra acima simplesmente abarca a teoria final da maioria das escolas de vedānta conhecidas. As escolas de vedānta e seus respectivos fundadores são:

advaita, śaṅkara (788-820 A.D.);

viśiṣtādvaita, rāmānuja (1017-1137 A.D.);

dvaita, madhva (1199-1276 A.D.);

dvaitādvaita, nimbārka (11°s.);

śuddhādvaita, vallabha (1479-1531 A.D.);

acintyabhedābheda, caitanya (1485-1533 A.D.).

As cinco últimas são conhecidas como escolas vaiṣṇava. É uma pena que no Brasil, nos círculos onde se estuda o vedānta, as pessoas só o conhecem sob a perspectiva de śaṅkara. Uma pena!

5 respostas so far

5 respostas para “Igualdade e Diferença. (ainda a alma)”

  1. Namaste,

    Parabéns pelo seu trabalho.

    Apenas uma breve nota: śaṅkara foi, sem dúvida, um elo notável na tradição (sampradāya) advaita mas, certamente, não foi o seu fundador. O ensinamento vem vindo desde śiva, na forma de dakṣiṇāmūrti, o primeiro professor. Aliás, podemos ler no último verso do guru vandanan, um texto cantado no início de aulas sobre o tema em escolas tradicionais:

    sadāśivasamārambhāṃ śaṅkarācāryamadhyamām
    asmadācāryaparyantāṃ vande guruparamparām

    sadāśiva-samārambhāṃ – iniciando com o sempre auspicioso Senhor śiva; śaṅkarācārya-madhyamām – ādi śaṅkarācārya no meio; asmadācārya-paryantāṃ – até ao nosso professor; vande – saúdo; guru-paramparām – a linhagem de professores

    Eu saúdo a linhagem de professores, que inicia com o sempre auspicioso Senhor śiva, tem ādi śaṅkarācārya no meio e se estende até ao meu próprio professor.

    O ensinamento que śaṅkara expõe na altura em que viveu (séc. VIII) não é novidade nenhuma. Está contido especialmente nas upaniṣhads, na bhagavad gītā e no brahmasūtra, textos que antecedem śaṅkara em milhares de anos. O que śaṅkara fez foi dar um novo impulso ao advaita estabelecendo 4 estabelecimentos de ensino (maṭhas) na Índia, escrevendo (bhāṣyas) e outras obras importantes enquanto debatia com os seus contemporâneos.

    O aprendizado fundamental de vedānta – aham brahmāsmi – enquanto um meio de conhecimento (pramāṇa) faz-se sobre a supervisão direta de alguém versado nas escrituras e estabelecido na verdade (śrotriyam e brahma-niṣṭham) e, além disso, capaz de transmitir esse conhecimento, ou seja um guru, um professor. Śankara teve o seu guru, govindapāda. Este também teve o seu guru, gauḍapāda, e assim sucessivamente, numa sucessão perene (paramparā).

    Sem a ajuda de um guru o estudo sobre o Ser, ou autoconhecimento, será apenas uma análise teórica ou académica e perder-se-á o fruto do ensinamento: mokṣa, a visão da minha real natureza.

    Faço votos para que o seu estudo seja brilhante.

    Hariḥ Om,
    Gustavo Cunha

  2. Leonardo says:

    Muito obrigado, Gustavo!

    E grato por sua excelente nota. Aproveitando-a…

    O ponto (importante) que você levanta, é justamente o que venho tentando expor aqui: o vedānta vem de muito antes dessas escolas, seus textos já eram conhecimentos antes de virarem textos, com Krsna Dvapayana Vyasa no início da kali-yuga. E é uma pena que aqui muita coisa que se fala de vedānta ainda está muito associada ao śaṅkara, o que limita a compreensão deste conhecimento como um todo.

    Só não concordo mais (um dia concordei…) com sua visão de guru, mesmo sabendo que se trata da visão tradicional. Estamos na kali-yuga, e nesta Era os gurus são os textos, já não é mais preciso o guru-pessoa; a ideia original de paramparā e de guru, inclusive, foi corrompida. Na verdade, qualquer um que queira descobrir os significados das Escrituras e ter a ideia de autoconhecimento, pode fazê-lo por si próprio, com a devida elegibilidade. Vemos sinais de tudo isso nos próprios textos.

    Um forte abraço, L.

  3. Sobre a importância de um guru, faço minhas as palavras de swami chidanand sarasvatiji*:

    Unlike a “preacher” or “minister” or “rabbi”, a guru does not necessarily have to be a religious figure, nor does it have to be a person of a specific religion, gender, age or ethnicity. It is simply someone who holds the light for you if your path becomes shrouded in darkness; it is someone who will carry you if you get tired; it is someone who — after you have been in his/ her presence — you are not the same. You are lighter, freer, more filled with joy. It is someone in whose light you want to bask forever.

    In the West, guru is frequently defined as “teacher.” Yet, the crucial difference between a teacher and a guru is that while teachers can explain concepts and give you verbal information, they cannot actually take you to the realms of which they teach. An astronomy teacher can tell you about other planets, but cannot take you there. A science teacher can explain life on the bottom of the ocean, but cannot take you there. A geology teacher can explain the properties of dia- monds to you, but he cannot fill your hands with the precious gems. In contrast, a guru not only teaches you about God, but rather, he takes you to God. He not only teaches about peace, he also gives you peace.

    In Sanskrit, the word “guru” means one who removes our darkness. Yet it is not merely the darkness of ig- norance. It is not simply that we go to our guru with a question, ask him, he answers it and then our con- fusion is cleared. Rather, the mere presence of the guru in our life removes all darkness – all anger, all pain, all confusion.

    śubham astu sadā.

    Sinceramente,
    Gustavo

    *http://www.ihrf.com/publi/publi-images/AYearofSpiritualCelebration.pdf (p40)

  4. […] digamos. Aquele que estuda todos os comentários, um a um, vê que eles se completam, vê que todas as visões colocadas por cada um destes mestres não se bastam separadamente, nem determinam o que nós (não) […]

  5. […] disse aqui que a idéia de igualdade é mais do que um dos pontos centrais da filosofia vedānta, é a própria […]

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